quarta-feira, 31 de maio de 2017

ANTÓNIO FREITAS DE SOUSA

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Assim, os tipos vão mesmo
 ganhar a guerra

O Islão fundamentalista instalou uma guerra na Europa. E nada leva a crer que não esteja a ganhá-la.

O boom do turismo em Portugal fica a dever-se à qualidade da oferta, à gastronomia, às praias, ao clima, ao gosto de receber, aos preços e à segurança. Salvo esta última característica, todas elas já existem há muito tempo, pelo que é de admitir que seja precisamente esta última a exercer uma forte pressão sobre a procura. Isto quer dizer que o Islão fundamentalista está a ganhar a guerra que decidiu instalar na Europa.

Há um indicador que evidencia ainda mais o andamento da guerra no terreno: alguém de bom senso deixa o seu filho adolescente fazer um interrail com paragens em Paris, Londres, Bruxelas, Berlim ou Istambul? É de bom tom que os responsáveis políticos e as pessoas que estão convencidas que o que dizem nas redes sociais é importante afirmem, nos dias a seguir ao atentado, coisas como “ninguém nos verga”, “ninguém há de destruir a nossa liberdade”, “nada vence a democracia” e afinidades do género, mas se se pensar na questão durante cinco segundos, não é preciso mais, não é difícil perceber que a vida na Europa não vai mudar: já mudou.

E é neste ambiente em que o medo começa a infiltrar-se por todo o lado e já não nos sai do pensamento que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, resolveu fazer uma viagem de Estado como a que acabou ontem ou anteontem. Mal se meteu no avião, Trump foi dormir com o inimigo, num colchão de mais de 300 mil milhões de dólares. Ninguém sabe ao certo se a ida do presidente dos Estados Unidos à Arábia Saudita foi uma viagem de Estado, uma viagem de negócios ou um exercício prático de alta diplomacia para efeitos curriculares – mas o certo é que, ele que tudo pode e a quem tudo deve ser permitido, obrigou os países europeus a olharem para aquilo tudo de boca aberta, sem terem a certeza se as imagens seriam verdadeiras ou mera simulação computacional.

Pelos vistos, o Papa Francisco foi um dos que não teve dúvidas: tudo aquilo aconteceu mesmo. No dia seguinte, recebeu o casal – quem aconselhou a mulher e a filha de Trump a irem ao Vaticano vestidas daquela forma merece a nossa eterna gratidão como alguém com um sentido de humor invejável – com o semblante de quem está a olhar para um pedaço de carne em avançado estado de podridão, mas ninguém está a ver e por isso não tem de disfarçar. Como o Papa sabia que alguém estava a ver – o mundo inteiro – e não quis disfarçar, o semblante de Francisco passa diretamente para a condição de manifesto político ou, para ser mais brando, de murro nos dentes.

A patusca viagem presidencial acabou como tinha começado: com um dos seus mais incondicionais parceiros internacionais, o Reino Unido, a acusar a Casa Branca de fuga de informação altamente confidencial sobre matéria de terrorismo, tal como tinha acontecido dias antes com outro incondicional país-amigo, Israel.

Ah!, é verdade: ainda houve a cimeira da NATO, onde Trump foi avisar os desavisados parceiros europeus que, ou pagam, ou não há defesa militar solidária para ninguém – o que vai com certeza obrigar o senhor Jean-Claude Juncker a enviar uma nota interna aos serviços competentes, para que estes deixem de contabilizar os orçamentos militares como despesa, o que até pode ser bom para os défices dos Estados-membros.

No meio disto está a Europa – com os europeus sem saberem muito bem onde enfiarem os filhos para não terem de ir prematuramente ao seu funeral – exangue, desvairada e triste. Esperemos ao menos que não desate tudo a correr para as urnas, a votar nos membros dos partidos da extrema-direita – esses que, quando veem um muçulmano, ou desatam a correr cheios de medo, ou chamam umas dezenas de capangas a soldo para lhe dar um vingativo e altaneiro enxerto de porrada. Pode não ser por mais nada, mas é mesmo isso que o Daesh quer que a Europa faça, e ao menos esse gosto não lho devemos dar.

IN "O JORNAL ECONÓMICO"
27/05/17

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