segunda-feira, 22 de maio de 2017

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HOJE  NO
"OBSERVADOR"

Nas “escolas de insucesso” professores
.olham para o chumbo como algo “natural”

Portugal é o segundo país da OCDE com mais chumbos precoces e o problema é particularmente grave no 2.º ano. Maioria das "escolas de insucesso" estão no interior e em Lisboa.

Portugal é o segundo país da OCDE com mais chumbos no ensino primário, logo a seguir à Bélgica. Em 2015, 17% dos alunos que participaram no PISA (com 15 anos) tinham repetido, pelo menos, uma vez no primeiro ciclo. E é no 2.º ano de escolaridade que o problema é “particularmente dramático“. 
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Não ignorando as dificuldades de aprendizagem, nem os contextos familiares desfavoráveis, parece ser a forma como o chumbo é encarado, por professores e diretores, a principal determinante para a sua persistência, concluem os autores do projeto “Aprender a Ler e a Escrever em Portugal”, apresentado esta segunda-feira.

Escrevem os autores que face à evolução da taxa de retenção no 2.º ano de escolaridade, nos últimos anos, com uma “descida muito significativa” entre 2001 e 2009, seguida de uma subida, “aparentemente, o efeito das medidas de política para eliminar o problema do insucesso nos primeiros anos de escolaridade (…) atingiu o limite da eficácia, sendo agora mais difícil registar melhorias sólidas”. Entre essas medidas contam-se a generalização do pré-escolar, a integração das escolas do primeiro ciclo nos agrupamentos, entre outras. E a situação é “particularmente dramática” no 2.º ano porque no 1.º é proibido chumbar os alunos.

Mas a verdade é que para os professores entrevistados “o tempo, ou seja, a repetência, é o elemento que permite compensar a ausência das condições familiares”.

A maioria dos professores entrevistados nas 127 escolas visitadas acredita não ser possível eliminar por completo o insucesso no 1.º ciclo, sobretudo por causa do contexto familiar. E referem que as medidas aplicadas ao longo do ano para recuperar os alunos não são suficientes. Esses professores “consideram que algumas crianças precisam de mais tempo para aprender” e, muitos deles, “consideram que aos seis anos muitas crianças revelam imaturidade, e que deviam entrar mais tarde na escola”.

Assim sendo, a maioria dos professores (87%) olham para o chumbo como “uma boa solução”, tendo “mais vantagens do que desvantagens”, desde logo porque, segundo eles, permite adquirir e consolidar aprendizagens. A repetência é, por isso, vista como uma oportunidade e não como um problema”, lê-se nas conclusões do estudo coordenado por Maria de Lurdes Rodrigues e por uma equipa de investigadores composta por Isabel Alçada, João Mata e Teresa Calçada.

Perante estas reacções, frisam os autores que se verifica “uma enorme distância em relação aos debates científicos sobre o insucesso e a prática da repetência”. “No mesmo sentido, não são equacionados ou sequer invocados pela maioria dos professores os debates sobre medidas e possibilidades alternativas de intervenção que rejeitam tanto a repetência como a passagem automática”.
O problema do insucesso e das dificuldades de aprendizagem está nestas escolas ‘naturalizado’, nada há a fazer a não ser aceitar isso mesmo e conformar as práticas pedagógicas a essa realidade.”
E é esse distanciamento em relação aos estudos e debates científicos que mostram a ineficácia do chumbo, mas também em relação à possibilidade de envolver as famílias, e ainda o distanciamento em relação a soluções alternativas ao chumbo e a transformação deste que é um problema de ensino e aprendizagem, num problema de gestão e organização pedagógica que “impede a resolução do fenómeno da repetência precoce e alimenta a sua resiliência.”

Os autores frisam porém que em cerca de 900 escolas não se chumbaram crianças no 2.º ano de escolaridade. E que o chumbo já é percecionado como uma prática ineficaz, observando-se uma transição “lenta” do chumbo para outras práticas pedagógicas. Aliás, mesmo algumas das 127 escolas de insucesso visitadas em 2014/2015 já tinham mudado a situação.

Maioria das escolas de insucesso estão no interior e em Lisboa
De 3.866 escoals primárias públicas, em 2013/14, 541 apresentavam taxas de chumbos superiores à média nacional em todo os anos de escolaridade. Mas a análise levada a cabo pelos autores deste estudo permitiu perceber que “o insucesso não atinge de forma idêntica todas as escolas do país” e tão pouco é um “fenómeno disseminado”. O problema da repetição ocorre em cerca de dois terços dos concelhos (171). Seis em cada 10 “escolas do insucesso” estão localizadas em apenas 40 concelhos.

A maior incidência de escolas de insucesso verifica-se nos concelhos do sul, do interior e em Lisboa. Das 541 escolas de insucesso, 39 ficam em Lisboa, o que corresponde a quase metade (42%) do parque escolar da cidade.
Pode concluir-se que o problema do insucesso no segundo ano de escolaridade assume proporções mais dramáticas em escolas do interior do país e da periferia da cidade de Lisboa”, lê-se no estudo. Além disso, os autores confirmam que o insucesso é “tributário de desigualdades territoriais que as escolas não conseguem contrariar”.
Sublinham ainda os autores que, em Portugal, como em muitos outros países, “o sistema de ensino instituído conta para ter êxito, com as famílias” e “quando esta variável não existe, quando não se pode contar com o apoio das famílias, ou quando a família é uma força divergente, aumenta muito a probabilidade de insucesso dos alunos”.

* Quando estes estudiosos foram professores qual era a taxa de insucesso na sua docência?

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