segunda-feira, 22 de maio de 2017

ANABELA POSSIDÓNIO

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Importância das "soft skills" 
- a mudança de paradigma

Quando, há alguns anos, se pensava em formação avançada de gestão, aquilo que nos vinha à mente era toda uma panóplia de temas associados a finanças, marketing, estratégia, entre outros.

A questão da liderança era incluída numa disciplina da área de recursos humanos, mas, a não ser que a memória me traia, a questão do desenvolvimento pessoal era algo de que se falava muito vagamente.

Passados vários anos, o que estamos a assistir é a consciencialização de que o conhecimento técnico sendo fundamental para se ser um gestor de sucesso não é suficiente. A capacidade de transformar esse conhecimento numa visão, que inspira equipas e que as motiva para uma implementação de excelência é neste momento vista como a peça crucial.

Paralelamente o mundo em que operamos é também ele muito diferente daquele que tínhamos há 20 anos. A velocidade, a incerteza, a complexidade e a ambiguidade são hoje realidade, sendo que a capacidade de adaptação e a flexibilidade ganharam nova relevância. E se isto é verdade hoje, será ainda mais no futuro.

De acordo com David Deming, professor associado de Educação e Economia na Universidade de Harvard, competências como capacidade de negociação, partilha, empatia e cooperação serão fundamentais para se obter sucesso no futuro. Curiosamente estas são as competências que aprendemos no infantário, mas que depois deixam de estar integradas no próprio sistema educativo.

O desafio passa, assim, por conseguir desenvolver culturas empresariais onde se promova o desenvolvimento destas competências. Se até aqui o tema da diversidade era visto pela perspetiva dos números, a partir de agora terá de ser cada vez mais entendido como uma oportunidade de desenvolvimento de competência dos colaboradores. O facto de as pessoas estarem alocadas a projetos multidisciplinares, com pessoas de diferentes nacionalidades, cria um laboratório perfeito para experimentarem novas formas de estar e de ser, e que serão fulcrais para o seu sucesso e o das suas empresas.

Simultaneamente, o próprio sistema educativo terá de se adaptar a esta nova realidade. Se no passado o professor era tido como o detentor da sabedoria, com a difusão da tecnologia e do conhecimento, neste momento os alunos veem o professor muito mais como um facilitador de um debate, do que alguém que lhes transmite o que eles podem ler online. Aquilo a que assistimos é o porquê a sobrepor-se ao quê. Os alunos atuais, começando na primária e acabando na universidade, têm necessidades diferentes e o mundo requer que desenvolvam competências diferentes.

E se um mundo tecnologicamente avançado traz muitos benefícios para a forma como vivemos, também traz muitos desafios, especialmente no que toca ao desenvolvimento de competências sociais. Não deixa de ser um contrassenso que a ilusão da conectividade dificulte o desenvolvimento de competências de relacionamento e que, apesar de muitas vezes as pessoas terem uma presença online bastante ativa, tenham imensas dificuldades em desenvolver relações que privilegiem o contacto pessoal. No entanto, são essas competências que serão cada vez mais valorizadas, num mundo em que as máquinas irão progressivamente substituir o homem, nas tarefas mais rotineiras.

Neste contexto cabe, contudo, dizer que grandes desafios trazem grandes oportunidades. E é exatamente por causa disso que, ao ganharem consciência da importância das "soft skills", muitas pessoas se envolvem em processos de desenvolvimento pessoal, recorrendo a ferramentas como o "coaching". E é também por causa disso que algumas universidades ao redor do mundo começam a integrar a componente de desenvolvimento pessoal nos seus currículos.

E se a relevância destas dimensões parece ser óbvia, é importante salientar que já começou a ser medida. A título de exemplo, no estudo realizado no Reino Unido em 2015, "The value of Soft Skills to the UK Economy", conclui-se que as "soft skills" contribuíram para 88,5 mil milhões de libras, o que corresponde a 6,5% do valor acrescentado bruto da economia britânica. E a previsão é que esse valor vá ser ainda mais relevante no futuro.

* Diretora Executiva do The Lisbon MBA

IN "JORNAL DE NEGÓCIOS"
21/05/17


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