segunda-feira, 26 de junho de 2017

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HOJE  NO
"OBSERVADOR"
Depois de 132 anos a Sociedade Guilherme Cossoul 
precisa de uma morada nova

Ao fim de 132 anos a ensinar música, teatro e literatura, a Sociedade Guilherme Cossoul perde as instalações. O prédio foi vendido por 3 milhões e 700 mil euros. Agora têm até ao fim do ano para sair.

“Houve um tempo em que as cidades eram lugares de troca, hoje em dia as cidades tornaram-se apenas lugares de venda.” É assim que o encenador Jorge Silva Melo resume a história da Sociedade Guilherme Cossoul, também conhecida por “Conservatório da Esperança”: depois de 132 anos a mobilizar a cultura, em especial o teatro e a música no bairro da Madragoa, o edifício que albergava a Cossoul, na avenida D. Carlos I, em Lisboa, foi vendido e os novos donos deram-lhes até ao final deste ano para desocuparem o edifício. A Câmara Municipal de Lisboa reconhece o mérito da Sociedade e promete arranjar um espaço alternativo. 
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Uma festa com Beatriz Costa e outros associados da Guilherme Cossoul, na década de 40 do século passado

Mas como se empacotam 132 anos a ensinar música, teatro, literatura, alfabetização dos moradores do bairro, os bailes e as festas, o teatro onde começaram Raul Solnado, Henrique Viana, onde Camané cantou ainda em criança, onde, nos anos 50 e 60, despontaram os primeiros grupos de teatro experimental, onde pela primeira vez se encenou Harold Pinter, Luís Francisco Rebelo, Sttau Monteiro, onde o pintor João Vieira fazia cenários de inspiração Surrealista, onde a atriz Fernanda Alves levava o poeta Ernesto Sampaio, onde se encontravam para conspirar os elementos do MUD Juvenil.

Finalmente onde se faz o Festival Literário Reverso, onde há um curso de teatro, projetos conjuntos com a Fundação Calouste Gulbenkian, Teatro Maria Matos, Casa Fernando Pessoa?

Recentemente, num texto publicado no Babelia (suplemento Cultural do Jornal El Pais), o escritor espanhol António Muñoz Molina falava do desaparecimento do centro histórico das cidades, que expulsa os seus habitantes para se tornar uma Disneylândia destinada ao entretenimento de turistas. Paulo Tavares, atual presidente da Cossoul lamenta “que os governantes não tenham um sentido e um conhecimento histórico forte e que deixem desaparecer tudo o que tem passado e depois invistam em sítios ‘modernos’, ‘trendy’, onde depois usam móveis antigos para decoração e se fazem letreiros e montras a imitar coisas do passado que afinal não têm. É um paradoxo”.

Estamos, pois, cada vez mais longe dessa cidade inaugural descrita por Baudelaire, onde as pessoas se encontravam para trocar. Na primeira década do milénio o edifício da Cossoul foi comprado por um consórcio espanhol que deixou ficar a associação. Mas em Março deste ano o prédio foi vendido por 3 milhões e 700 mil euros para aquilo que deverá ser um prédio de apartamentos. Com a venda veio a ordem de saída para a Cossoul e mais alguns idosos que habitam os últimos andares do prédio.

Apesar de a venda estar iminente, pelo menos desde 2008, quando o prédio foi comprado pelo consórcio espanhol, nenhum executivo camarário conseguiu resolver o futuro da instituição. Várias propostas foram estudadas mas a verdade é que com apenas 6 meses até à saída, a autarquia ainda está a estudar um novo espaço para realojar a Cossoul. Questionada pelo Observador, a vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto, afirmou estar empenhada “desde há vários meses, na pesquisa de um espaço que seja conveniente à atividade da Sociedade e que seja sustentável, a longo prazo”.

Guilherme Cossoul, uma história feita de utopias
Mais conhecida por “Cossoul”, a Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, com entrada principal na avenida D. Carlos I e as traseiras na rua da Esperança, na Madragoa, é um espaço edificado por várias utopias e outros tantos desencantos de um país que, como lembra Jorge Silva Melo, “não teve uma aristocracia que mandasse construir teatros ao lado dos palácios, como na Europa central”. Guilherme Cossoul, filho de músicos italianos que circulavam pelas cortes europeias até se estabeleceram em Lisboa, era compositor e maestro e foi o fundador da Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa. É o seu olhar tranquilo e o seu porte imponente que nos recebem à entrada da coletividade, ainda tão cheia de traços da sua longa história que o passado parece ser tangível.
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Retrato de Guilherme Cossoul
Em 1885, cinco anos depois da morte do maestro, 47 músicos amadores decidem homenageá-lo fundando a Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, destinada à aprendizagem da música pelos mais pobres da cidade. Depois de um dia de trabalho, quase sempre ligado à pesca e ao rio, os trabalhadores iam aprender a tocar um instrumento musical. Em 1893, o teatro entra na Cossoul pela mão de José Jorge Silva e mais tarde continuado pelo pedagogo e autor teatral Raul dos Santos Braga. 
A Cossoul passou a ser o polo dinamizador da Madragoa, lugar de encontro, de alfabetização, de festas de Natal para as crianças, de bailes com a orquestra da Sociedade, dos primeiros e únicos espetáculos de teatro da vida de muita gente. Apesar de ter nascido ligada à música é o teatro que vai marcar a história da associação. Falámos com Jorge Silva Melo, sempre uma memória viva e um olhar claro sobre a cidade de Lisboa. O diretor dos Artistas Unidos recorda o papel da instituição na vida cultural lisboeta:

Acho que a primeira vez que lá fui tinha 15 anos e vi ‘A Castro’, com Glicínia Quartin e Fernanda Alves, encenada por Carlos Avilez. Fiquei tão impressionado. Nesses anos a Cossoul tinha-se tornado o único espaço em Lisboa onde se fazia teatro experimental pois, como era um grupo amador, não tinha sido proibido Estado Novo. O bairro da Madragoa era o mais pobre mas também o mais politizado da cidade, ali se juntava gente que militava clandestinamente no PCP, gente como o Otávio Pato ou o José Manuel Tengarrinha e gente do MUD juvenil. Era a realização da utopia de jovens burgueses: fazerem arte com o povo, estarem perto do povo. Isto atraia muita gente. Pessoas ligadas ao teatro mas vindas das classes populares como Varela Silva, Luis Alberto e o Jacinto Ramos (que tinha uma papelaria no bairro) misturavam-se com jovens intelectuais como Glicínia Quartin. Tinham os seus trabalhos e à noite iam para ali ensaiar. Raul Solnado e Henrique Viana começaram no teatro ali. A fama começou a espalhar-se de tal maneira que até Amélia Rey Colaço e Palmira Bastos do Nacional, passaram a ir ver todas as peças e até a recrutar atores para o Dona Maria II, como foi o caso de Henrique Viana. Foi também com atores da Cossoul que Carlos Avilez foi fundar o TEC — Teatro Experimental de Cascais e que se fizeram os primeiros filmes do chamado Cinema Novo. Foi, sem dúvida, o palco da renovação teatral portuguesa da segunda metade do século XX. Nos anos 80, Luís Alpiarça voltou a dar uma dinâmica interessante à associação, com atores ligados à Barraca e à Comuna e um repertório de autores muito ligados à esquerda europeia como Dário Fo. Foram eles que acolheram os Artistas Unidos quando também nós ficámos sem as instalações da Capital. Depois fizemos lá uma peça de Pinter para comemorar os 120 anos. Recentemente para mim a melhor coisa da Cossoul era o Sr Teste [livraria/alfarrabista], que entretanto saiu de lá. Faz-me muita impressão que a sociedade saia dali. Aquela zona de Lisboa nunca mais será a mesma para mim. É um tempo que acaba.”

Atualmente a sociedade mostra uma enorme capacidade de rejuvenescimento, com uma direção composta por pessoas com menos de 40 anos e uma assumida consciência “que manter o legado destes 132 anos é não deixar de trabalhar com a comunidade mas fazer coisas novas. Não somos uma sociedade de bairro onde os velhinhos vão jogar à sueca. Neste momento temos um curso de teatro, um grupo de teatro residente [o coletivo Prisma], uma galeria de arte, um bar com programação própria, uma editora [Artefacto], um festival literário [o Reverso], uma livraria, uma biblioteca e está a ser criada uma banda de música em parceria com a Gulbenkian destinada a crianças em risco. Trabalham aqui diariamente 9 pessoas não remuneradas e apenas duas recebem salário. Não temos qualquer possibilidade de, sozinhos, viabilizarmos um espaço”, diz Paulo Tavares, poeta e tradutor, e agora à frente da Cossoul. “No final deste mês começamos com as sessões de leitura mensais dinamizadas pelo poeta Vasco Gato.”
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Os bailes da Cossoul foram um marco nas décadas de 40 e 50 em Lisboa. Em primeiro plano o jovem ator Raul Solnado, mais um “filho” da casa. Imagem: Cortesia da SIGC

Neste quase século e meio de vida, a Sociedade, passou pela Monarquia, a República, o Estado Novo, a Revolução de Abril, a União Europeia. “João Soares comprou um espaço para alojar a Cossoul, para que tivéssemos melhores condições, mas a mudança de executivo na autarquia inviabilizou o projeto. Em 2010, António Costa, conseguiu destinar-lhes o Palácio de Laguares, em Campolide, mas o presidente da Junta de Freguesia não aceitou. Agora que a apoteose imobiliária lisboeta falou mais alto, o futuro permanece incerto e urgente”, afirma Paulo Tavares.

Jorge Silva Melo diz que o ideal era que “encontrassem um sítio com pessoas”. A possibilidade de partilhar um espaço com outra entidade também não é descartada por Paulo Tavares, nem pela vereadora da Cultura que declarou ao Observador que “a partilha de recursos e, consequentemente, o estabelecimento de conexões e de diálogos pode ser benéfica a vários projetos, contudo é necessário que os projetos sejam compatíveis, relacionáveis”.

* Vai mal governada a cidade em que um presidente de Junta de Freguesia manda mais que o Presidente da Câmara.
O Pavilhão de Portugal fechado serve para alguma coisa, a Guilherme Cossul serve Portugal há 132 anos.

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