quarta-feira, 10 de maio de 2017

MARTA CAIRES

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Está por aqui...

O luto, esse longo luto, foi passando devagar quando entendi isso, quando percebi que não teria o futuro, mas tinha o passado e poderia voltar a lembrar-me da minha mãe como quem anda para trás num filme.

A minha mãe foi-se cedo, antes dos 60 anos e isso marcou-me. Eu não estava preparada, acho que nunca se está para o que vem depois, para aquele silêncio em casa e aquela ausência definitiva. Lembro-me de chorar e de me vestir de preto, ainda confusa e com coração a sufocar e de pedir, uns dias depois, que me marcassem trabalho no jornal. Eu estava no princípio de um caminho que só podia ser feito por mim e, naquele ano de 1995, não sabia ainda que o luto pode durar anos, muitos anos.

Vivíamos os anos mágicos da fartura, do dinheiro que parecia jorrar das paredes e a última conversa que se poderia ter com alguém era sobre perda, sobre sentir-se triste ou só. Os milhões dos fundos europeus caíam sobre nós, o importante era aproveitar a estrada acabada de alcatroar, o apartamento novo onde duche tinha muita pressão e o carro novo. Não havia disposição para mais, uma vez por outra, num interlúdio, pediam-me para deixar ir.

Deixar ir era uma forma diferente de pedir para esquecer, parecia-me uma traição à memória daquela mulher inteligente com quem tinha crescido, que me ensinara a pensar e a bater-me pelas minhas ideias. Eu não podia esquecer o espírito inquieto, as nossas conversas ao domingo à noite, de braço dado pelo caminho no regresso da casa do meu avô. Não era justo deixar ir as minhas memórias infância, as nossas brigas na adolescência, a cumplicidade dos últimos tempos.

As memórias eram engolidas todos os dias por uma novidade. O telemóvel, o computador, os prédios de apartamentos nos descampados e nas fazendas, as férias com tudo incluído debaixo do sol tórrido das Caraíbas e registadas pela máquina fotográfica digital de 10 megapixels. O luto, a dor, os azares da doença não cabiam neste quadro de gente feliz e rica que deixava as velharias para trás. De que se falava? Do crédito, da escritura e do último modelo de telemóvel que, nesse tempo, quanto mais pequeno melhor.

Enquanto o mundo acelerava para o futuro, que seria ainda mais abastado, eu fui moendo a saudade que se tornava estranha no Dia da Mãe. Às vezes pensava no que diria a minha mãe daquele mundo novo, seria capaz de se ajeitar com um telefone dos novos, de entender a Internet e os casamentos só pelo civil? E o que diria de viver num apartamento sem vasos nas varandas? Nunca teria as respostas, a vida era o que era e a minha história com a minha mãe acabara em 1995, antes de tudo o que entretanto aconteceu.

O luto, esse longo luto, foi passando devagar quando entendi isso, quando percebi que não teria o futuro, mas tinha o passado e poderia voltar a lembrar-me da minha mãe como quem anda para trás num filme. Eu lembro-me da minha mãe muitas vezes, lembro-a alegre, cheia de planos e de opiniões, até sobre o Caniggia, que jogava no Benfica, ou a guerra na Bósnia. O entusiasmo por causa do Porto, aquela frase que repetia muitas vezes de que “os desgostos da bola passam depressa” ou última conversa que tivemos sobre o futuro.

Ela garantiu-me que, se eu tivesse paciência e não desistisse, só poderia ser bom. E nunca a deixei ir. A memória vive comigo todos os dias, mesmo quando não tenho noção de, está por aqui, no que escrevo, digo e faço e só desaparecerá quando eu me for também.


IN "DIÁRIO DE NOTÍCIAS DA MADEIRA"
07/05/17

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