25/09/2014

CRISTINA ESTEVES

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Ajustes por medida

Não me refiro propriamente a alfaiataria, embora haja sempre um paralelismo à arte de ajustar, nem mesmo ao pronto-a-vestir, na medida que uma carapuça serve a todos.
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Esta semana foi proferida uma decisão judicial inédita que condenou por crime de prevaricação por titular de cargo político uma ex-ministra da Educação, um ex-secretário-geral do Ministério da Educação e um advogado, irmão de um ex-ministro.

Independentemente do mérito ou não do acordão, não me pronuncio quanto às pessoas ou à prova de facto, até porque o caso ainda não transitou em julgado, já há recursos anunciados e a presunção de inocência tem de prevalecer, sempre.

Mas sobre o que já foi amplamente divulgado na comunicação social, e partindo do concreto para o abstracto, as questões sucedem-se no que concerne a afinidades e relações pessoais, políticas e partidárias instituídas na base de uma gestão pública que não se pretende amoral.

Haverá resquícios do que se diz à boca pequena, mas que nunca se assume, raramente se denuncia e dificilmente se prova? Certo é que há uma ilação premente a tirar pelos portugueses, e detentores de cargos públicos em particular, sobre a qual se terá de ser consequente em nome da transparência: a incongruente gestão da coisa pública - de governos a autarquias, do sector empresarial do Estado aos institutos públicos - por meio de ajustes directos.

Quando a esmagadora maioria de obras feitas pelo Estado e os pareceres, consultorias ou auditorias contratualizados, é por ajuste directo é caso para dizer que os concursos públicos, mesmo se ajustados, fazem da regra excepção. E é aqui que reside o busílis da questão: as propaladas "gorduras do Estado" que todos vociferam à distância parecem ‘fillet mignon' à medida da proximidade. Nem o novo mapa judiciário escapa aos ajustes.

Obviamente que a gestão corrente nem sempre se compadece com concursos públicos burocráticos, morosos e desprovidos da confiança indispensável entre partes para a execução do que é a mera persecução de objectivos de contornos políticos ou ideológicos, pelo que o ajuste directo é também um meio incontornável. Mas a justificação prévia pela razoabilidade da externalização em detrimento de serviços internos, a obrigação na consulta ao mercado para um mínimo de propostas a fim de minimizar a sobrevalorização ou o imperativo por um clausurado estanque eficaz na proteção e ressarcimento do Estado no incumprimento é simplesmente imperativo. A transparência nos ajustes directos não pode ser opaca.

Como há quem não entenda os ataques à Justiça, já não por haver uma para ricos e outra para pobres, e sim por haver uma à medida de poderosos e políticos. Mas esta politização na interpretação das sentenças, e nas suas "causas", prenuncia outros ajustes, de executivo em executivo, de partido para partido.

IN "DIÁRIO ECONÓMICO"
19/09/14


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