terça-feira, 16 de maio de 2017

LUCY PEPPER

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Apanhada outra vez 
pela Eurovisão

Lisboa vai ser anfitriã da Eurovisão para o ano, e comecei a pensar em quem, entre os suspeitos do costume, será escolhido como pivô. Estou à espera de um double act de Marcelo e de Goucha.

Na semana passada, estive muito ocupada e não tive tempo para ver, ouvir ou ler nada. Assim, a única coisa que sabia do Salvador Sobral era que “ele é muito fofiiiiinho”. Ser fofinho não é razão suficiente para ganhar nada, mas com a Eurovisão, nunca se sabe. Há anos que a Eurovisão perdeu a minha atenção. Uma noite inteira desperdiçada em frente da televisão, entre o tédio e o embaraço, não é a melhor maneira de passar um sábado em Maio. Ontem, porém, voltei a ver, só para ver se a fofinhice era ou não capaz de vencer.

A televisão estava ligada, e entrei e saí da sala. Aborreci-me com as baladas do costume, sobre-cantadas, sobre-emocionadas (tudo por culpa da Mariah Carey e ainda mais culpa do Simon Cowell), bocejei com as músicas rock más de Europa de Leste e não achei graça ao gorilla ‘engraçado’ da Itália. A música da Luísa e do Salvador Sobral destacou-se do resto lindamente, com a excepção, para ser franca, dos romenos a fazer rap-à-tirolesa, que me inspiraram uma alegria incompreensível.

Mais uma vez, a Eurovisão pareceu um Festival de língua inglesa. Mas a língua da Alemanha não é a da minha terra, tal como a língua da Espanha não é o Inglês, nem a da Moldávia é o Inglês, nem a de Israel é o Inglês, nem o Inglês é a língua falada na Bulgária, que até ao fim lutou pela vitória com a canção de Portugal, estranhamente (em tal contexto) cantada em Português. Na final, em 26 canções, apenas três foram cantadas na língua do país.

Finalmente, a votação começou.

Ver a parte da votação sempre foi o melhor do programa, com conversas constrangedoras através de ligações de satélite complicadas, e gracejos embaraçosos entre pivôs internacionais, ultra-maquilhados e super-vestidos, diante de uma fotografia da sua cidade capital. Por esse lado, a noite de ontem não desiludiu, mas o gozo foi de repente ultrapassado pela impressão de que o Salvador, afinal, podia ganhar mesmo. O clima ficou ainda mais eléctrico com a excitação do Malato, e os gritos e as buzinas da rua (ok, é possível que os gritos e as buzinas tivessem algo a ver com o tetracampeonato do Benfica, mas fosse como fosse, aumentou a excitação).

Contados os votos dos júris, Portugal estava no topo, mas ainda faltava a votação pública. Já estávamos todos pendurados nas cadeiras, como se estivéssemos perante uma final decidida a penáltis, mas foi muito mais tenso do que os penáltis. Hoje, é impossível confiar em votações públicas. Estou-me a lembrar, por exemplo, do Brexit ou do Trump… A Eurovisão estava ao nosso alcance, mas as fraquezas e os feitios das pessoas ainda podiam estragar tudo, e fazer-nos perder para a Bulgária.
Sondagens no facebook e no twitter (especialmente depois de JK Rowling se ter juntado ao clube de fãs do Salvador) pareciam prever o triunfo português, mas não podíamos estar certos de que na privacidade das suas casas, os europeus não acabassem por votar em algo estranho, como a Espanha ou aquele gorila dançante da Itália.

Gritámos todos quando a Bulgária perdeu… perdão, quando Portugal ganhou, ainda por cima porque a canção vencedora tinha uma letra portuguesa e não no dominante inglês.

Fiquei a olhar fixamente para a televisão, com um sorriso a rasgar-me a cara, enquanto Salvador e Luísa partilharam o palco no final do programa. É possível que tivesse até uma lágrima no canto do olho.
De repente, lembrei-me que Lisboa vai ser anfitriã da Eurovisão para o ano, e comecei a pensar em quem, entre os suspeitos do costume, será escolhido como pivô. Estou a espera de um double act de Marcelo e de Goucha.

A Eurovisão tem-me outra vez presa na sua pirosa armadilha diabólica.


IN "OBSERVADOR"
14/05/17

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