sexta-feira, 21 de abril de 2017

CARLOS J. PEREIRA

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As bonecas russas

Vendido o Novo Banco, Portugal descobre que dentro do banco bom ainda havia outro banco mau…

Quando Passos Coelho anunciou ao país a resolução do BES, não sabemos se o seu governo sabia exactamente o que se passava. Aparentemente não se discutiam estas coisas no conselho de ministros. 

De qualquer modo, as explicações chegaram com razoável detalhe e com inegável originalidade: passou a entrar pela casa dentro dos portugueses a entusiasmante dicotomia banco bom/banco mau.
Nos momentos iniciais deste novo tempo, andou meio Portugal a fazer contas com desejo fundado de que as suas dívidas fossem ancoradas no banco mau. Mas, ao mesmo tempo que os ânimos esfriavam e a esperança dava lugar ao desalento, os portugueses descobriram mais umas coisas: que há um fundo para resolver bancos que deve ser financiado pelos outros bancos e que Bruxelas adora mexer nos cordelinhos do sistema financeiro e, sobretudo, não perde oportunidade para fazer experiências, especialmente quando a cobaia sofre de agachamento crónico. 

Foi assim com o governo de coligação PSD/CDS e é neste quadro que devemos ler os resultados da venda do Novo Banco. Para quem se lembra, o governo anterior explicou que o banco bom era mesmo bom, quem sabe até excelente, e que a sua venda, que deveria ocorrer o quanto antes, não só pagaria o empréstimo do Estado ao fundo de resolução, mas até iria dar lucro, mesmo sabendo que os 3,9 mil milhões emprestados ao fundo deveriam sempre ser pagos pelo restante sistema financeiro.

Foi assim que o governo de Passos anunciou a rejeição da aquisição do novo banco, o tal banco bom, por 2 mil milhões de euros. Depois, foi o que se viu: atrasos e incapacidade de cumprir a venda até ao ponto de chegar o ultimato de Bruxelas, norteado, talvez, pela contaminação dos oito planos de reestruturação do Banif devolvidos e a surpreendente resolução deste banco, dando a Portugal até Agosto de 2017 para a venda definitiva. 

Vendido o Novo Banco, Portugal descobre que dentro do banco bom ainda havia outro banco mau e que o banco bom só era bonzinho e mesmo assim estava tudo muito estragado… há muito tempo.

IN " O JORNAL ECONÓMICO"
21/04/17

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