quarta-feira, 12 de julho de 2017

FRANCISCO MADURO-DIAS

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Reflexões sobre
 uma consumição

Tornou-se moda, desde há alguns anos, falar em consumidores, por tudo e por nada, e entender como consumir atitudes que nada têm a ver.

Especialmente estranho é dizerem-se coisas como “consumir cultura” porque, se é verdade que a gente consome água, carne, peixe, pão ou leite, a gente não consome cultura,

simplesmente porque coisas como cultura, informação, ou música, apenas para dar três exemplos, não se consomem. Nós usufruímos, fruímos, usamos, mas elas não desaparecem! Não são, portanto, consumidas, no verdadeiro sentido do termo.

Trata-se de um conceito retirado do vocabulário da economia que supõe que algo se gasta e, portanto, desaparece ou transforma o que em muitos casos não acontece.

Ora a cultura e as suas manifestações, não se gastam! Terminado o espetáculo, acabada a festa, acabadas as últimas palmas do concerto de piano ou após o discurso do artista na inauguração, fica tudo igual. Nem sequer se pode dizer que o espetáculo foi consumido, apenas se pode dizer que o tempo passou.

Então, porque razão se insiste tanto nisto de dizer consumidores de cultura e afins?
Francamente não sei. O que sei é que essa ideia de consumir traz outra, a reboque, a necessidade de novidade a todo o custo, porque a outra já é antiga e gastou-se.

E ISSO É QUE É PREOCUPANTE!

Por um lado porque, de facto, a cultura é, como escrevi antes, algo que não se gasta! Usa-se, reconstrói-se, reorganiza-se, mas é algo de inconsumível e, por outro, a noção de gasto, de consumo, de algo que acabou, transforma o modo como olhamos para “as coisas da cultura”
envolvendo tudo numa ideia de moda, que condiciona o olhar obrigando-o a saltitar de novidade em novidade.

Os eventos culturais passam a ser, assim, coisas sem sentido profundo, dependendo dos críticos, dos interesses instalados no momento e deixam de ser manifestações, ocasionais, é certo, mas inseridas na corrente normal do tempo, de um sistema circulatório de ideias, conceitos e modos de ver que caracterizam os povos e as pessoas.

Devíamos preocuparmo-nos mais com isso de andarem a dizer que a cultura se consome!
A cultura vive-se, aprecia-se, usufrui-se, discute-se e, principalmente, é feita de mudanças e de permanências, como a água que corre. 

IN "AÇORIANO ORIENTAL"
10/07/17

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