sexta-feira, 14 de abril de 2017

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HOJE  NO 
"CORREIO DA MANHÃ"
A perigosa moda da partilha de vídeos
 de sexo em discotecas

 Casais arriscam e intimidade é exposta na internet.

Na semana passada, mais um casal viu a intimidade exposta na internet depois de se envolver sexualmente no meio da pista de dança de uma discoteca russa. No vídeo vê-se o par a ser encorajado pelos outros clientes enquanto o ambiente aquece. A certo ponto, ambos baixam as calças e o homem penetra a mulher. O que se sabe agora é que o casal russo, que acabou por ser expulso do clube nocturno, tinha acabado de beber duas garrafas de vodka. O que pode justificar a forma desinibida com que o fizeram. O que não se sabe é se estavam conscientes ao ponto de saber que estavam a ser filmados e que o momento poderia ter a proporção que tomou. As imagens deram a volta ao mundo.
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Mas não é só na Rússia que isso acontece. A partilha de vídeos de casais a ter relações sexuais em locais públicos é uma moda que até em Portugal parece ter pegado. Há cerca de um ano, dois casais foram expostos nas redes sociais depois de darem largas ao desejo na casa de banho de uma discoteca lisboeta.

Há cerca de um ano, dois casais foram expostos nas redes sociais depois de darem largas ao desejo na casa de banho de uma discoteca lisboeta

Nos vídeos, filmados na discoteca Main, antiga Kapital, na Avenida 24 de julho, mostram dois casais, na casa dos 20, em pleno ato sexual. Além do sexo, é possível constatar que estão várias pessoas a assistir e a gravar o momento. Num dos vídeos, nenhum dos jovens se apercebe de que está a ser gravado. No outro, a rapariga interrompe a gravação ao aperceber-se de que está a ser observada. O rapaz não parece incomodado. Os casos desta discoteca repetem-se noutros espaços noturnos e são registados ora com vídeos, ora com fotos, que depois são partilhadas em massa em grupos de whatsapp, facebook e outras redes sociais com nomes tão sugestivos como "Comi-te no Urban", Comi-te na Queima", etc. 
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Contactado pelo CM na altura em que os vídeos foram divulgados, o DJ e proprietário do Main, Hugo Tabaco, disse que "sempre houve sexo na casa de banho das discotecas, o problema é que agora há mais acesso a material de gravação e meios para levar isso a todo o Mundo", adiantando que os casos de sexo gravado no Main têm vindo a aumentar. "Já fazemos policiamento das casas de banho e quem é apanhado é convidado a sair. O Main é um clube de charme, não é um motel".

Banalização do sexo na internet tem consequências graves 
Apesar do sexo em público já ter barbas, a verdade é que as novas tecnologias encarregam-se de eternizar esses momentos e de lhes dar uma audiência que não está restrita a quatro paredes podendo trazer consequências negativas a grande escala. 

Cristina Mira Santos, psicóloga e terapeuta sexual, reconhece que é uma tendência "crescente" mas faz notar que pouco ou nada terá a ver com sexualidade. "Na escolha de um lugar público para o ato sexual, há uma componente de voyeurismo e exibicionismo, em que a excitação e a erotização advêm do risco de se ser descoberto ou apanhado. Mas só é isto se for feito em plena consciência. Os casos da discoteca, contudo, apontam para outras variáveis, como o consumo de álcool, drogas e os comportamentos sexuais de risco, se atendermos à questão da segurança. E certamente não haverá consciência total do que se está a passar ou até da possibilidade de estarem a ser observados e filmados e das consequências." 

A terapeuta sexual chama ainda a atenção para a "banalização do sexo que deixa de ser "um momento especial, íntimo, de profunda cumplicidade" que pode ter consequências como a "fragilidade emocional e a revolta" quando as situações chegam à internet.


Copos, música, drogas e câmaras 

Em todo o mundo os casos multiplicam-se: jovens de férias, a aproveitar o fim-de-semana ou apenas numa saída à noite habitual com os amigos. O álcool e as drogas desinibem e convidam à experiência, sem deixar espaço para pensar nas consequências. Em qualquer momento, há uma máquina fotográfica, um smartphone, uma câmara de segurança, pronta a captar o mais privado acto.

No Reino Unido, vários casos ganham destaque na imprensa. De uma ou de outra forma, até gravações privadas dos circuitos de videovigilância acabam nas mãos de quem se encarrega de imediatamente divulgar imagens de sexo explícito. O problema é ainda agravado com o advento cada vez maior da Deep Web ou Internet Negra. Piratas informáticos invadem a privacidade alheia sem pudor nem consciência e põem-na à vista de todos. 

O privado torna-se público, aumentando o risco e dando lugar à chantagem. O álcool desinibe, mas as aventuras menos ponderadas podem, muitas vezes, ter consequências para o resto da vida, até porque a internet não esquece. 

O sexting pode conduzir à coação, à extorsão e até aquilo que é conhecido por ‘revenge porn’, ou seja, pornografia de vingança.

Além de que a prática de ter relações sexuais em locais públicos é crime, assim como a captação de imagens, de cariz sexual ou não, e a sua partilha ou divulgação, sem o consentimento dos visados. Se assim for, é um crime previsto no Código Penal português. Mas são poucos os casos que chegam a tribunal, quer seja difícil ou fácil identificar os culpados.

* A questão não é o pudor, é a boçalidade patente em clientes e proprietários das discotecas.

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