25/10/2019

JOANA MORTÁGUA

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Nordeste 1 Bolsonaro 0

E se as manchas de petróleo nas praias do Nordeste fossem um aviso dos deuses?”, pergunta Juan Arias na edição brasileira do El País. Ou então “essas manchas pretas também poderiam ser um alerta da decadência política, social e humana que o país está enfrentando”.

Por decadente Juan Arias toma, como é evidente, o Presidente Jair Bolsonaro e as suas políticas. A ironia de questionar se o povo brasileiro está a pagar o preço divino pela degradação das suas elites é a facilidade com que se conclui que são as próprias elites - representadas pelo Governo de Bolsonaro - as autoras morais das pragas que assolam o país.

Da destruição da Amazónia ao maior derramamento de petróleo da história do Brasil, a cumplicidade do Presidente com a tragédia revela-se em ações e omissões. Acções. Porque não há nada mais deliberado e permeditado pelo governo de Bolsonaro do que o ataque às organizações que impulsionam a legislação ambiental e denunciam a impunidade dos que a violam.

A destruição ambiental é a tentação permanente do capitalismo. Num país continental em que as riquezas naturais fazem salivar os protegidos negócios agrícolas e extrativistas, os movimentos ambientalistas são muitas vezes a última trincheira entre o ruralista e o desmatamento. Toda a política anti-ambiental de Bolsonaro, na linha dos negacionistas climáticos liderados por Trump, é salvo conduto para a selvajaria ambiental e social.

Omissões. Pela absoluta incapacidade (ou será falta de vontade?) para responder à altura das responsabilidades. Na imprensa nacional e internacional multiplicam-se as notícias sobre o plano para conter derrames de petróleo que não foi acionado pelo governo federal para o Nordeste. Foi essa inação que levou os Procuradores federais de nove estados do Nordeste a entrar com uma ação civil pública para obrigar o Governo a acionar em 24 horas o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional.

Pouco preocupado em conter os danos, o Presidente entreteve-se a atribuir culpas à Venezuela ou a uma misteriosa mão criminosa com intenção de prejudicar a recém decidida privatização do petróleo brasileiro. Enquanto isso o país propriamente dito, que é como quem diz, o povo, juntava-se para limpar a braços cada uma das manchas de petróleo das praias nordestinas.

"É uma trabalheira, porque a gente tira o óleo, mas ele esquenta com o sol, vai derretendo, rasga o saco, fura o balde. Tem que ter paciência", diz um dos homens que recolhe bolas de petróleo com um pau para encher os sacos que em breve serão acumulados em toneladas de resíduos retirados das praias. Ao longo dos 2.250 quilómetros de costa afetados, a limpeza tem sido protagonizada por grupos de voluntários: autarcas, governantes locais, associações, clubes de futebol, estudantes, ativistas, moradores e pescadores nordestinos.

Apesar das suposições do Presidente, ninguém sabe exatamente qual foi a origem deste acidente. Perante muitos mistérios que envolvem o maior derrame de petróleo da história do Brasil, uma coisa é certa:  o povo do nordeste deu uma lição ao Presidente que o despreza. Nesse contraste vemos o Brasil que resiste: Nordeste 1 Bolsonaro 0.

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24/10/19

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