quinta-feira, 18 de maio de 2017

JÚLIA CARÉ

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Do precariado

O precariado não dispõe de salário seguro, nem há proteção social que lhe valha. Não tem direitos

Eles são na sua maior parte hordas de jovens sujeitos a práticas despóticas de subemprego e salários miseráveis que mal dão para sobreviver, saltitando entre formas de emprego, peões das agências de trabalho temporário, explorados, forçados ao trabalho informal, em suma, tudo o que é a negação do direito elementar ao contrato de trabalho. O precariado tem crescido a nível global, devido à transformação da economia e da tecnologia, e faz-se de incerteza e insegurança crónicas, mesmo tratando-se de trabalhadores especializados, detentores de diplomas superiores. Alimenta-se ainda de eufemismos de autoemprego, de fátuos crowdsourcing e startups...

O precariado não dispõe de salário seguro, nem há proteção social que lhe valha. O precariado não tem direitos face ao Estado; são pessoas a quem a essência da verdadeira cidadania, o direito básico a ter direitos é negado, obrigados a depender de dádivas discricionárias. Sobrevivem na privação, na frustração. Nenhum sentimento de lealdade os prende em relação ao trabalho sem vínculo. Sem hipótese de desenvolver uma carreira, o trabalho é algo instrumental, externo à sua individualidade, aspirações ou competências, e não algo capaz de determinar toda uma vida, uma identidade profissional, uma realização pessoal pelo exercício de uma profissão sonhada. Uma robotização das relações humanas.

Eles desconfiam das políticas dominantes, têm dificuldade em identificar-se com organizações de classe, sindical, associativa, político-partidária. Manifestam-se em momentos esporádicos de legítima revolta, de indignados, de curta representação estrutural. Sem perspetivas de futuro, descrentes em promessas políticas que sempre os deixam de fora, preferem antes o radicalismo e são a argamassa da demagogia do discurso populista que inquietantemente cresce, a fazer acordar fantasmas de desagregação social e totalitarismo de outros tempos que julgávamos extintos e ultrapassados, fazendo perigar a democracia e a paz. Os sinais estão aí.

Mas o precariado também se faz de largas fatias de uma classe média empobrecida pela brutal destruição de emprego e cortes de salários, remetida para a sua real condição de origem: o proletariado. Uns e outros cresceram nas últimas décadas, explodiram com a crise financeira, em países vulneráveis como Portugal. São o produto por excelência das políticas neoliberais de Reagan e Thatcher e da terceira via de Blair, de destruição do Estado Social, de esmagamento dos direitos laborais, um dos efeitos secundários nocivos da globalização, vítimas dos ajustamentos e desajustamentos do avanço tecnológico, do digital e da robótica. Filhos e netos da geração “baby boom”, da sociedade de consumo e da gloriosa construção europeia em democracia, pós plano Marshall e Declaração Universal dos Direitos Humanos, estão condenados à pobreza e à desigualdade. São os frequentadores dos bancos alimentares, das sopas dos pobres, enquanto embalados pelas realidades virtuais das redes sociais e pelo narcisismo alienante das selfies, estudados pelas Ciências Sociais (Estanque, Standing, etc.).

A raiz do problema não estará por si só na globalização, nos avanços da tecnologia que facilita a vida, nem tão pouco na existência de trabalho temporário. Talvez falte entender, como grandes estadistas da História o fizeram, que a governação e a paz não podem ficar pelas oscilações da Bolsa e das agências de notação financeira, ou da dívida; que é preciso devolver esperança e criar confiança no futuro através da criação de emprego justamente remunerado e proteção social que permita um usufruto equitativo dos ganhos de modernidade do desenvolvimento económico e do avanço tecnológico. Ou seja, um “living wage”, uma remuneração básica, para fazer face a despesas com alimentação, habitação, vestuário, cuidados médicos. E, acima de preconceitos ideológicos, lateralidades partidárias, ou libelos contra o Estado Social, possibilitar vida digna, cidadania e futuro, o cerne de qualquer ação na polis. O que ainda é negado ao precariado.

IN "DIÁRIO DE NOTÍCIAS DA MADEIRA"
16/05/17


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