sábado, 29 de abril de 2017

EDUARDO CINTRA TORRES

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Carlos Gabriel, 
o Vidente de Fátima

Bruxos, curandeiros e cartomantes há muitos, mas só um se apresenta como "vidente" e com a imagem de Jesus Cristo. Depois dos anúncios à beira da estrada, "Carlos Gabriel, o Vidente de Fátima" saltou para a imprensa. A vidência está a correr bem.

As promessas de Carlos Gabriel não são diferentes de todos os seus concorrentes neste ramo de negócio: diz que tudo lhe "é possível". Afirma ter "provas dadas" em "problemas na obtenção dos […] direitos" dos seus clientes, "situações de saúde, desequilíbrios de personalidades e espirituais". Dado o tecnicismo dessas generalidades, acrescenta, para ficarmos em terreno conhecido, "maus olhados, maldições, cobrantos [sic], trabalhos de feitiçaria para a destruição da sua vida ou de familiares", "vícios", "situações de casais", destruição do "seu negócio", e, reiterando, "problemas íntimos, amorosos e familiares".

A mensagem termina dizendo: "Nestes últimos 23 anos, onde muitos falharam, este irmão tem demonstrado a sua magnífica obra". O anúncio é escrito na terceira pessoa, por um narrador não identificado. Esse afastamento dá-lhe um valor de testemunho exterior, uma ratificação por "alguém" das qualidades do "vidente". Aliás, mais de metade do texto escrito no anúncio é constituído por dois testemunhos anónimos. O primeiro é narrado por uma mulher cuja "relação" a atraiçoou. O segundo é do "José Miguel", a quem tudo aconteceu. Problemas familiares, partiu uma perna, problemas no trabalho, desemprego, dores de cabeça. Ambos consultaram o "irmão" com bons resultados. À mulher, bastou um mês; o homem não seguiu os conselhos da primeira consulta e logo a seguir "quase perdi o meu filho". Voltou ao "irmão" e hoje está feliz, ele e a família.

Como recorrer a esta ajuda? As marcações são "sempre às segundas-feiras", por telemóvel, e o atendimento é "às quartas no local sagrado de Fátima, quintas em Aveiro e sextas no Porto". Existe um serviço adicional, dado que Carlos Gabriel ´da "consultas também por carta". É um negócio com um atendimento bem organizado - e pensado, pois a resposta às cartas só se dá "após devida análise".

Como outros concorrentes, Carlos Gabriel faz da vidência um suplemento da religião católica. Todo a mensagem parte desse pressuposto. Primeiro, pelo nome: "vidente de Fátima". Sendo os pastorinhos conhecidos por videntes de Fátima, a apropriação do qualificativo desde logo o encosta ao fenómeno católico de Fátima, pela vidência e pelo local, o "local sagrado de Fátima". Torna-se irrelevante saber se Carlos Gabriel é de facto de Fátima. Segundo, pelo "testemunho" de "José Miguel", que percebeu que na sua vida "algo se passava realmente fora do normal" - isto é, paranormal - e recorreu ao "irmão" "sem nunca ter recorrido a pessoas ligadas ao mundo Espiritual". Esta frase pretende evitar quaisquer atritos com a religiosidade católica dos possíveis clientes. Faz das consultas de Carlos Gabriel um acréscimo à religião, ou uma actividade paralela, que tenta não colidir com o catolicismo.

Todavia, apropria-se dele, na referência fatimista e na imagem em plano médio de Jesus Cristo que acompanha toda a sua publicidade. Jesus é retratado sem acção, mas o contacto directo com o observador é inescapável: dado que Jesus olha para mim, é Jesus quem anuncia aquela mensagem; Carlos Gabriel assume-se com Cristo ou mesmo em vez dele (dado que, por inferência, o catolicismo não resolve os problemas que ele resolve). Não há qualquer referência escrita a Cristo, nem sequer se diz que é ele o retratado, mas a sua presença icónica estabelece a relação causa-efeito entre o "vidente" e Cristo, sem comprometer o mensageiro. Apesar de os anúncios de Carlos Gabriel serem horríveis, mal escritos e com erros ortográficos, numa coisa o "vidente" foi previdente: o abuso do significado atribuído à imagem, por impossibilidade legal ou moral de o transmitir por escrito, é muito comum na publicidade.

IN "JORNAL DE NEGÓCIOS"
26/04/17

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