HOJE NO
"PÚBLICO"
A Universidade de Coimbra
é símbolo de uma “cultura que
teve impacto na humanidade”
Após quinze anos de um trajecto longo e complicado, a candidatura da
Universidade de Coimbra foi hoje reconhecida como Património Mundial da
UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e
Cultura), decisão tomada na 37ª sessão do Comité do Património Mundial,
que está a acontecer em Phom Penh, no Cambodja.
Para além dos critérios no qual a
candidatura vinha fundamentada, e que tinham que ver sobretudo com o
valor patrimonial do conjunto de edifícios que integram a área da
candidatura, foi acrescentando um terceiro critério que reconhece a UC
como símbolo de uma “cultura que teve impacto na humanidade”, diz o
reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva.
“Para mim, como reitor, isso ainda torna este momento mais
emocionante e especial. O que foi distinguido hoje pela Unesco não é
apenas um conjunto de edifícios antigos e bonitos. A Universidade de
Coimbra foi reconhecida como o ícone de uma cultura e de uma língua que é
portuguesa, que ajudaram a modelar o mundo como o conhecemos. É uma
coisa de uma dimensão extraordinária. Como reitor até me sinto pequenino
perante uma coisa desta dimensão”, afirma.
Clara Almeida Santos,
vice-reitora para a Cultura e Comunicação, que está no Cambodja a
representar a universidade, diz ter ficado “comovida” com a forma como
os delegados dos países membros do Comité do Património Mundial,
subscreveram a “inscrição imediata da Universidade de Coimbra na lista
de Património Mundial”, apesar do parecer do ICOMOS.
“E com
intervenções que nos devem deixar extremamente orgulhosos, porque
falaram na importância da universidade na divulgação da ciência e da
língua portuguesa no mundo. O embaixador indiano referiu a importância
da língua portuguesa como veículo de cultura e com uma influência
expressiva na Índia. O embaixador tailandês agradeceu a Portugal ter
levado as malaguetas para a Tailândia”, descreve.
“Ficámos muito
orgulhosos de ouvir 21 membros de países diferentes, de todas as partes
do mundo, a defenderem a inscrição imediata da universidade na lista do
Património Mundial porque reconheceram nela um valor excepcional”,
acrescenta o presidente da autarquia de Coimbra, João Paulo Barbosa de
Melo, que está também no Cambodja.
Para o autarca, a decisão da
Unesco representa uma “enorme responsabilidade” para a cidade, para a
universidade e para o país de “fazer mais e melhor por este património
que foi hoje distinguido”. “Hoje chega ao fim um trabalho de anos. Foi
um trajecto difícil. Mas amanhã começa um novo desafio: começa o
trabalho da universidade, da cidade e das autoridades nacionais de se
empenharem ainda mais na valorização e preservação deste património e de
cuidá-lo para futuras gerações. É uma grande responsabilidade”, afirma,
convidando a cidade a “festejar” a decisão da UNESCO.
Para amanhã
está marcada a inciativa “Coimbra em Festa”, que vai decorrer a partir
das 16h na Praça do Comércio, na Baixa de Coimbra, e que vai contar com a
actuação de vários grupos musicais.
Também o ministro dos
Negócios Estrangeiros, numa reacção à Lusa, considerou que a
classificação beneficiará “a economia, o turismo, o conhecimento e o
cosmopolitismo” da cidade, mas que também é “muito prestigiante” para
Portugal.
“É um grande dia para Portugal e para Coimbra. A
meritória candidatura a património mundial passou com brilho e
beneficiará” a cidade em várias áreas, afirmou Paulo Portas numa
declaração escrita. O ministro agradece “o trabalho impecável” não
apenas do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), da Comissão
Nacional da UNESCO e da embaixada, como também “o trabalho incessante
dos promotores da ideia, desde a autarquia até à universidade".
Em
comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros acrescentou que esta
distinção é um “reconhecimento internacional, que agora é muito
justamente atribuído a Coimbra”. Para o ministério, constitui um “motivo
de orgulho e regozijo” para a cidade e para o país e “dá conta da
confiança da UNESCO na capacidade de o Estado para preservar o valor dos
seus bens patrimoniais”.
Já o presidente da Entidade Regional de
Turismo do Centro de Portugal, Pedro Machado, disse que a classificação
“é uma grande porta que se abre” para o turismo da cidade. “É uma
excepcional notícia Coimbra ter atingido este galardão”, declarou Pedro
Machado à agência Lusa, realçando que a decisão do Comité da UNESCO “é o
reconhecimento de Coimbra pela sua história, pelo seu património” e
pelo papel da sua universidade, fundada em 1290, “na formação de tantas
gerações espalhadas pelo mundo”.
Esta classificação, segundo Pedro
Machado “pode posicionar Coimbra, mais e melhor, naquilo que é o
desafio dos mercados em matéria de competitividade e atractividade” na
área do turismo.
Walter Rossa, catedrático de Arquitectura da
Universidade de Coimbra, não foi apanhado de surpresa pelo anúncio da
classificação. “Acompanhei de perto o trabalho e, como tal, estava
absolutamente convencido de que ia ser classificada”. Para Rossa, a
universidade “tem um valor absolutamente excepcional na história
mundial”. Como um dos investigadores co-responsáveis, na Fundação
Gulbenkian, pela criação do portal www.hpip.org,
que inventaria o património português espalhado pelo mundo, destaca que
“o império português foi um dos primeiros dois à escala mundial, mas
enquanto os espanhóis tinham várias universidades, o português só tinha
Coimbra. Do ponto de vista da formação de quadros para todo o império, é
imbatível”, acentua. “Não há outra instituição universitária que tenha
tido essa relevância”.
Daí considerar que, mais que o património
edificado – “e eu sou arquitecto, portanto estou à vontade para o dizer”
–, o que é “verdadeiramente importante” é o “património imaterial, o
valor cultural simbólico que a Universidade de Coimbra tem a nível
universal”.
Para Coimbra, hoje, a classificação pela UNESCO
significará, na visão de Walter Rossa, “uma responsabilização das
entidades” perante a cidade, sua história e património, mas também dos
cidadãos. “Estas distinções têm a enorme vantagem de os envolver nos
processos de decisão e no dia-a-dia de gestão do património”. Tal pode
ser muito importante numa cidade que precisa de “um grande impulso de
regeneração urbana”.
15 patrimónios mundiais
Apesar
de ser uma aspiração antiga, o projecto da candidatura começou a ganhar
forma em 1999 a partir da tese de doutoramento que António Pimentel,
actual director do Museu Nacional de Arte Antiga e o primeiro director
científico da candidatura, realizou sobre o Paço das Escolas.
CAPELA DE S. MIGUEL |
Com o
tempo, a candidatura alargou também o seu âmbito: do Paço das Escolas
passou a incluir toda a Alta universitária e Rua da Sofia, num conjunto
de mais de 30 edifícios, e ao património material juntou o imaterial,
como a produção cultural e científica, as tradições académicas, o papel
desempenhado ao serviço da língua portuguesa.
A Universidade de Coimbra fica agora no restrito lote em Portugal do património mundial da UNESCO,
que sobe assim até às 15 classificações. Junta-se ao centros históricos
de Angra do Heroísmo (Açores), Porto, Évora e Guimarães, aos mosteiros
da Batalha e Alcobaça, ao Convento de Cristo (Tomar), ao Mosteiro dos
Jerónimos e Torre de Belém, à paisagem cultural de Sintra, às gravuras
rupestres de Foz Côa, à região do Alto Douro Vinhateiro, à paisagem da
cultura da vinha da Ilha do Pico (Açores), às fortificações de Elvas e à
laurissilva da Madeira.
Na terça-feira, a UNESCO classificou o diário da primeira viagem comandada por Vasco da Gama na descoberta do caminho marítimo para a Índia (1497-99), atribuído a Álvaro Velho, como Memória do Mundo.
* COIMBRA É UMA LIÇÃO...
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