30/01/2019

TERESA TAVARES

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A Insustentável Leveza do Ser

Escrevo estas linhas no ar, a sensivelmente 11 000 de altitude, altura a que os aviões comerciais se mantêm em velocidade de cruzeiro pois aí gastam menos combustível porque o ar se torna menos denso e por isso oferece menor resistência.

Adoro voar. Ao contrário da maior parte das pessoas que conheço, sinto-me muito mais relaxada no meio das nuvens do que numa autoestrada, nunca tive medo de andar de avião nem de subir a montanhas altas e olhar cá para baixo, nem de espreitar do topo dos arranha-céus. Sempre adorei subir a árvores, já fiz trapézio sem rede, nos beliches fico sempre na cama de cima e, quando era miúda, uma das coisas que fazia às escondidas dos meus pais era atirar-me de lances de escada com o meu amigo João Daniel a ver quem tinha coragem de se atirar do degrau mais alto – e não eram lances pequenos (bom, a minha mãe só vai descobrir esta parte quando ler esta crónica o que, na verdade, significa que as brincadeiras não nos correram nada mal).

Mas agora falo particularmente de andar de avião.

Apesar de cada vez mais pessoas viajarem de avião, de acordo com a revista Exame, para um número significativo voar é comparado a ‘estar num corredor da morte’, embora, na prática, morrer num avião seja tão improvável como ganhar o Euromilhões.

Fobias são fobias e não seguem regras lógicas. Não é sobre isso que quero falar. Apetece-me falar desta sensação de liberdade que me trazem os sítios onde ‘o tempo fica suspenso’ como se, assim, me conseguisse ligar de forma mais simples à realidade, sem ansiedade, só atenção.

Voar. Como estar em palco. Suspender o tempo por tempo determinado. E habitar esse espaço.
Ser, absolutamente. Porque naquele intervalo o tempo é todo nosso. Antes de voltar à realidade – como se a realidade não fosse tudo isto.

Na verdade, acho que sou muito mais corajosa quando estou em cima de um palco ou a filmar do que no resto da vida. E uso muito menos máscaras também. Mais uma vez, baseada em ilusões: o tempo não pára porque, na realidade, ele não existe. Não estou mais segura – porque na verdade nunca ninguém está seguro. Arrisco muito mais e ajo com mais ousadia porque sei que daí a 1h30 o espetáculo acaba ou daí a umas horas termina o dia de rodagem – e até lá vale tudo.

É um exercício de liberdade, na verdade. E, por isso, tão humano. E como acredito profundamente que as pessoas vão ao teatro e ao cinema para se ‘verem ao espelho’, para se olharem em detalhe através dos atores, num encontro tão íntimo como pessoal e intransmissível (porque cada interpretação é uma interpretação e cada pessoa a vê através da sua própria experiência), espero que a experiência do espectador seja libertadora e de encontro consigo próprio – na medida de cada um, evidentemente. E que, enfim, isto tudo que andamos para aqui a fazer se mantenha um exercício sobre a humanidade, sobre a intimidade e sobre a liberdade, em tempos onde a alienação à tecnologia, o culto do imediatismo e a subserviência ao padrão parecem impor-se como formas de experienciar a realidade.

Engulo em seco. Sim, tudo isto parece-me muitíssimo mais assustador do que qualquer voo de acrobacias.

Poderá o black mirror (ecrã negro dos nossos gadgets e nome brilhante para a série da Netflix que afinal não é bem ficção científica porque a realidade também é aquilo – e cada vez mais) transformar-se no espelho das novas gerações? E o que está por trás do ecrã preto?

Estou a voltar de Roma onde já não ia há uns anos. Antes de ir revi vários filmes do Fellini e ontem fui a uma exposição sobre a vida e a carreira do Mastroianni. Fotografias do De Sica a dirigir a Sofia Loren, da Claudia Cardinali nos intervalos de rodagem com o Marcello, dos bastidores do ‘Dolce Vita’. Estes foram os espelhos com que cresci – enquanto saltava dos lances de escadas às escondidas. ‘Life is a combination of magic and pasta’, dizia o Fellini – como é que isto se traduz na realidade virtual?

Não sei. Inquieta-me.

O avião vai começar a descer agora. Time’s Up.

Isto tudo começou para dizer que gosto de alturas, não foi? E que me relaxa andar de avião – essa invenção prodigiosa do homem que nos permite ‘voar’ de um lado para o outro em tempo recorde?
Irónicas, as minhas preocupações com a evolução galopante da tecnologia nestas circunstâncias. Mas reais. Tão reais quanto esta tranquilidade que sinto nas alturas. Tão reais quanto a insustentável leveza do ser.

IN "DELAS"
29/01/19
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