quinta-feira, 20 de julho de 2017

PEDRO TADEU

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Um académico 
armado em parvo

Das vezes que vi e ouvi o jurista André Ventura opinar na televisão do Correio da Manhã fiquei impressionado: "Eis aqui um provável belo espécime de parvo", conjeturei. Ontem, o professor auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa obrigou-me a reconhecer que o mero palpite inicial, afinal, tinha sustentação, apesar dos 18 valores com que o próprio publicita na internet, num curriculum vitae "abreviado", a conclusão do ensino secundário no Externato Penafirme, instituição que para este poliglota, com "conhecimento aprofundado" de arábico e hebraico, é designável em português por uma palavra saudosista: "liceu".

Entende o dirigente social-democrata e atual candidato numa coligação PSD-CDS à presidência da Câmara Municipal de Loures que as pessoas de "etnia cigana" (sic) acham "que estão acima das regras do Estado de direito".

O professor convidado da Universidade Nova (onde se licenciou em Direito, divulga, com nota 19) informa, numa entrevista ao jornal i, que "vários munícipes queixam-se de pessoas de etnia cigana que entram nos transportes, usam os transportes e nunca pagam, e ainda geram desacatos".

O apaixonado defensor do Benfica em frequentes zaragatas televisivas, o paladino da restauração da prisão perpétua, indigna-se por na Quinta da Fonte haver "situações em que são ocupados imóveis ilegalmente" pelas tais "pessoas de etnia cigana".

A melhor definição da palavra "parvo" encontro-a no dicionário de José Pedro Machado: "Aquele que tem mentalidade infantil." Pode ser-se inteligente, culto e continuar a pensar-se como um menino: uma coisa é aprender, outra é crescer. Pode ser-se um académico mas ser-se politicamente parvo. Exemplos ilustrativos não faltam.

Não há problemas de segurança na Quinta da Fonte? Há. Não há problemas de integração e socialização com minorias étnicas em Loures? Há. Algum político responsável deve ignorar essa realidade? Não. Então, onde está o infantilismo de André Ventura?

Tal e qual uma criança ansiosa por aprovação no mundo adulto, o coautor de Justiça, Corrupção e Jornalismo tenta ser visto como um herói e recusa o "medo de dizerem que estamos a ser "fascistas", "racistas", "xenófobos"". André Ventura, putativo herói contra o politicamente correto e o "aproveitamento político, sobretudo do espectro da esquerda", avança "que numa candidatura devemos ter a coragem de dizer aquilo que está mal".

Dizer o que se pensa, porém, nada tem de heroísmo para quem pode contar, sempre, com um microfone apontado à boca. E ainda bem que assim é...

Heroísmo é trabalhar como assistente social na Quinta da Fonte. Heroísmo é ser-se polícia e ir à Quinta da Fonte só para falar com quem lá mora. Heroísmo é formar um grupo de teatro na Quinta da Fonte. Heroísmo é manter um negócio aberto na Quinta da Fonte. Heroísmo é morar na Quinta da Fonte e vencer a segregação, o preconceito e a injustiça. Heroísmo é ser cigana, viver na Quinta da Fonte e insistir em enviar os filhos à escola, em lutar para eles terem um futuro melhor. Heroísmo não é atiçar o ódio da turba para, no fim, receber o apoio do líder neofascista do PNR e, ironicamente, a crítica violenta de um dirigente do CDS.

Ser inteligente, culto, querer lugar na política mas não tentar compreender porque Portugal, país de emigração e de imigração, de penas baixas, de aparente laissez-faire, se mantém um país pacífico numa Europa cada vez mais policiada e cada vez mais violenta é, portanto, infantil. É, inelutavelmente, parvo.


IN "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"
18/07/17

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