segunda-feira, 5 de junho de 2017

RITA GARCIA PEREIRA

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‘One day you are in’

A nossa localização privilegiada e zona económica exclusiva, da qual não tiramos pleno proveito, permite-nos funcionar como pólo de circulação de mercadorias entre África, América e Europa.

(Após 18 meses, o meu pai fez findar o muro de silêncio em que se fechou quanto a tudo o que tinha a ver com o partido onde militou mais de 40 anos. Nesse lapso de tempo, e atrevo-me a dizer, também após a entrada no ar do site emnomedaverdade.com, o meu pai foi alvo de ataques soezes e desqualificados, numa espiral de loucura cujo único objectivo parece ser a vã tentativa de rescrever a história. Não farei o elogio do meu familiar mais directo. Basto-me com a verdade, aquela que a generosidade do seu carácter não lhe permitiu ver antes.)

Sob a égide de um novo ciclo económico e com um ritmo optimista quase a tender para o eufórico, Portugal congratula-se com os sinais de inversão da situação de crise em que estivemos mergulhados, ao som da (lindíssima) canção que nos fez ganhar pela primeira vez a Eurovisão.

Não se nega que o ar está mais respirável mas tal não equivale a dizer-se que o pior passou. Não passou. Os seus sinais tornaram-se foi menos evidentes, escondidos que estão, como os imóveis degradados, na fachada do turismo. Estamos in.

Seria mais fácil limitar-me ao elogio fácil do nosso país, até porque, a par com a oferta de cultura, somos gente de fácil trato e melhor comida. Sucede que, fazer assentar toda a economia num fluxo de turistas, cujos critérios de decisão não obedecem a uma estrita racionalidade, implica jogar na roleta russa e acreditar que o azar nunca nos acerta: como se costuma dizer num programa televisivo, “one day you are in and the next day, you’re out”.

A aposta terá de assentar também noutros sectores, porque continuamos extremamente dependentes das importações para fazer face ao quotidiano dos mortais que não se encontram de mera passagem. E é aqui que me parece que estamos a falhar, isto é, na afectação dos recursos que nos chegam a uma economia sustentável para o futuro.

O nosso clima é bom, não apenas para o turismo de praia, mas também pela sua constante térmica, o que pode tornar um lugar apetecível, por exemplo, para a indústria. Podemos (e devemos) ser produtores de excelência. A nossa localização privilegiada e zona económica exclusiva, da qual não tiramos pleno proveito, permite-nos funcionar como pólo de circulação de mercadorias entre África, América e Europa.
Reduzir-nos a mero receptáculo de turistas tem como consequência, não apenas o desincentivo a outros sectores que nos farão falta no futuro, como à desertificação da nossa própria identidade e que é hoje o que faz os estrangeiros interessarem-se por nós. Tudo sob pena de um dia acabarmos a sentir na pele o verso que Palma imortalizou: “adorava estar in mas estou a sentir-me out”.


 IN "O JORNAL ECONÓMICO"
02/06/17

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