terça-feira, 23 de maio de 2017

JOSÉ VEGAR

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Pensar mal o terrorismo

Dir-se-á que há pouco a fazer para combater o terrorismo se a sua natureza é esta que partilho. Não, há muito a fazer, mas o que pode ser feito não acontecerá sem mudar de paradigma cultural e legal.

Será muito provavelmente inútil tentar a devolução dos seus bilhetes ou os dos seus filhos para o festival de Verão que se aproxima. Na verdade, a possibilidade de ser feito um novo atentado num concerto de música é tão grande como o mesmo ser feito num jogo de futebol importante, numa feira empresarial, ou num interface de transportes em hora de ponta. Ou seja, qualquer sítio ou acontecimento que reúna massas e valor mediático é um possível alvo de terrorismo. Esta é a primeira dimensão onde estive até há muito pouco tempo, e durante 25 anos, a pensar mal o terrorismo contemporâneo. O padrão de que o alvo tinha que simbolizar, nem que de modo muito ténue, o inimigo, não existe hoje. Para o terrorista contemporâneo, o alvo tem apenas de possuir um potencial de espectacularidade.

Será provavelmente ainda mais inútil tentar entender a morfologia da entidade terrorista, algo que também aprendi como essencial. Dos anarquistas atomizados do século 19, às organizações de níveis estanques do século 20, passando pela proposta de entidades celulares de Appadurai, que continuo a partilhar com os alunos, nenhuma me parece válida hoje em dia.

Ao pensar Manchester, Paris, Bruxelas e o último londrino, penso que a morfologia deixou de existir. Por outras palavras, penso que a morfologia está reduzida ao indivíduo que age sozinho inspirado por uma ideia. E penso também que o faz porque tem em seu poder a arma essencial contemporânea, a grande plataforma virtual e de comunicações.

Até aqui há muito pouco tempo, o possível simpatizante da ideia e do combate terrorista tinha que se revelar, por muito pouco que fosse. Tinha de comprar o livro, ou os livros, tinha de ir ao local da conferência clandestina, tinha de correr o risco de se mostrar pronto para o recrutamento.

Não hoje. A plataforma, desde que “ele” tenha acesso, educa-o, mostra-lhe, dá-lhe mil e um documentos de doutrina. E, principalmente, através dos fóruns e “chats” fechados, dá-lhe a essencial comunidade de consolo e incentivo, a todo e em qualquer momento.

A única dimensão em que continuo a pensar com alguma utilidade o terrorismo contemporâneo é o seu núcleo ideológico. A vítima é insignificante para o terrorista, já que a vê apenas como um instrumento para concretizar o seu objectivo único, levar o medo a toda a comunidade inimiga.
Dir-se-á que há pouco a fazer para combater o terrorismo contemporâneo, se a sua natureza é a que partilho aqui. Pelo contrário, há muito a fazer, mas uma parte fundamental do que pode ser feito não pode ser feito sem um mudança total de paradigma cultural e legal.

Não se pode fechar a plataforma virtual, permitindo apenas o acesso de cada cidadão mediante registo prévio. Não se pode decretar que famílias, escolas e indivíduos informem sobre todos aqueles que detectaram ter um comportamento desviante, como, por exemplo, mau aproveitamento escolar. Não se pode restringir o acesso de passageiros a aviões low-cost. Ou seja, não se pode por em campo uma meta-estratégia de prevenção porque esta viola os nossos valores.

No entanto, sem esta meta-estratégia todo aquele que se considera marginalizado poderá procurar o terrorismo.

* Nascido em 1969, José Vegar foi correspondente de guerra, é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, e pós-graduado em Jornalismo. 
José Vegar trabalhou no jornal Público, Semanário, Expresso, 24 Horas, Independente e Tal e Qual, colaborou com as revistas Grande Reportagem, Bulletin of Atomic Scientists, Sábado, Fortuna, City, Maxim, Livros, Jornalismos e Jornalistas e Janus. Em 2002, foi galardoado com o Grande Prémio «AMI – Jornalismo contra a Indiferença». Em 2000, recebeu o Grande Prémio Gazeta.

IN "OBSERVADOR"
23/05/17

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