22/04/2013

JORGE FIEL

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Ponha em inglês que é melhor

Eu bem me esforço, mas nunca mais aprendo. Sou um trengo. Se calhar o melhor que tenho a fazer é escrever 100 vezes a frase seguinte: não se deve ajudar a atravessar a rua uma velhinha se não tivermos a certeza absoluta de que ela quer mesmo ir para o outro lado da rua. 
 
Aviso que estou a falar no sentido figurado, porque no literal são muito raras as velhinhas que precisam de ajuda para atravessar a rua. As mais educadas e conscienciosas só atravessam no semáforo e quando está verde. As outras inventam em seu benefício passadeiras imaginárias e atravessam as ruas devagarinho, onde e quando lhes apetece, como se fossem rainhas, obrigando o trânsito a parar à sua passagem.

Vem esta evocação da minha recorrente queda para ajudar a atravessar a rua velhinhas, que preferem ficar paradas onde estão, a propósito de um diálogo que ouvi quarta-feira, por volta da hora do almoço, no balcão da Sicily by car, no n.º 100 do Borgognissanti, em Florença, onde fui levantar um Fiat Panda (acabei por trazer um Nissan Micra, mas isso já é outra história) para dar uma volta pela região do Chianti e visitar Siena - uma cidade deslumbrante que recomendo vivamente.

Para matar o tempo enquanto esperava, fui coscuvilhando o negócio entre o Gabriel (o empregado da rent a car) e os clientes, um casal de brasileiros de meia idade e classe média, munido de uma Samsonite XXL e da vontade de alugar um carro que uns dias depois (não me apercebi quantos) seria entregue em Milão Malpensa.
O primeiro preço dado pelo Gabriel foi 410 euros e o negócio acabou por ser fechado nos 600 (seguros e GPS incluídos) após uma conversa que, para meu desespero, parecia que nunca mais iria acabar, feita num inglês eficiente, apesar de rudimentar.
Não deixa de ser curioso que pessoas cujas línguas-mãe têm a mesma origem tenham de recorrer a uma língua estranha para se entenderem - tudo isto por culpa da queda do Império Romano, digo eu, mas isso já é história.

"A 300 metros, entre na rotunda e saia na 3.ª saída", aconselhou, em português (de Portugal), o GPS, quando o empregado da Sicily by car demonstrava o seu funcionamento. Os brasileiros não apreciaram a gentileza do Gabriel de sintonizar o GPS em português de Portugal. Pediram-lhe logo para o pôr a falar em inglês, pois assim entendiam melhor. A história acabou bem, porque o italiano percebeu à primeira a questão - e selecionou a opção de português (do Brasil). 

Até aplaudo a queda do p antes do t (batizado é melhor que baptizado). Mas não acho grande graça à confusão gerada pelo desaparecimento do acento em pára. Não tenho opinião formada e definitiva sobre o Acordo Ortográfico. Mas depois de ouvir o casal de brasileiros a pedir para pôr o GPS a falar em inglês fiquei com a sensação de que muito provavelmente estamos a ajudar a atravessar a rua uma velhinha que quer ficar parada no sítio onde está. 

IN "JORNAL DE NOTÍCIAS"

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