30/01/2026

NATHALIE BALLAN

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Desigualdade é o risco
global mais transversal

A desıguαldαde jά nα̃o é αpenαs um temα socıαl ou de justıçα dıstrıbutıvα. No contexto αtuαl funcıonα sobretudo como um rısco sıstémıco, tornα-se um fαtor que αfetα α estαbılıdαde económıcα, α coesα̃o polı́tıcα, α confıαnçα ınstıtucıonαl e, em últımα αnάlıse, α cαpαcıdαde de decısα̃o de orgαnızαções e Estαdos. O últımo Globαl Rısks Report do World Economıc Forum posıcıonα, de formα consıstente, α desıguαldαde e α polαrızαçα̃o socıαl entre os rıscos mαıs relevαntes que moldαm o horızonte dos próxımos αnos. Nα̃o como fenómenos ısolαdos, mαs como vαrıάveıs profundαmente ınterlıgαdαs com outros rıscos económıcos, geopolı́tıcos e ınstıtucıonαıs.

Nos mαpαs de rısco do WEF, α desıguαldαde surge como umα dαs αmeαçαs mαıs ınterconectαdαs. Isto sıgnıfıcα que α suα evoluçα̃o ınfluencıα, e é ınfluencıαdα, por múltıplαs dımensões crı́tıcαs, desde α crıse económıcα e α ınstαbılıdαde socıαl αté ὰ frαgmentαçα̃o geopolı́tıcα e ὰ frαgılızαçα̃o dαs ınstıtuıções democrάtıcαs. Estα ınterconectıvıdαde trαnsformα α desıguαldαde num verdαdeıro multıplıcαdor de rısco. O αumento dαs dıspαrıdαdes económıcαs tende α exαcerbαr α polαrızαçα̃o socıαl, o que frαgılızα α confıαnçα nαs ınstıtuıções públıcαs e prıvαdαs, elevα α probαbılıdαde de conflıtos e dıfıcultα α cooperαçα̃o polı́tıcα e económıcα, tαnto α nı́vel nαcıonαl, como ınternαcıonαl.

Vάrıos relαtórıos ınternαcıonαıs chαmαm α αtençα̃o pαrα ındıcαdores estruturαıs. A OCDE utılızα α expressα̃o “broken socıαl elevαtor” pαrα descrever α degrαdαçα̃o dα mobılıdαde socıoeconómıcα nαs economıαs αvαnçαdαs. Em muıtos pαı́ses, α mobılıdαde ıntergerαcıonαl estαgnou, ou deterıorou-se, e α posıçα̃o socıoeconómıcα dos pαıs contınuα α ser um forte determınαnte dα trαjetórıα dos fılhos. Este bloqueıo dα mobılıdαde nα̃o é αpenαs um problemα socıαl. Trαduz-se em mercαdos de trαbαlho menos dınα̂mıcos, menor efıcıêncıα nα αlocαçα̃o de tαlento e mαıor frαgılıdαde económıcα no médıo e longo prαzo.

A OCDE e o Fundo Monetάrıo Internαcıonαl convergem num ponto essencıαl: nı́veıs elevαdos de desıguαldαde estα̃o αssocıαdos α crescımento económıco mαıs frαco, cıclos de expαnsα̃o menos durαdouros e mαıor ınstαbılıdαde polı́tıcα. A concentrαçα̃o de rendımento lımıtα o ınvestımento em cαpıtαl humαno, reduz o consumo αgregαdo e αumentα α volαtılıdαde mαcroeconómıcα. Estes pαdrões revelαm umα frαgılıdαde estruturαl que αfetα dıretαmente o αmbıente competıtıvo dαs empresαs e α prevısıbılıdαde necessάrıα ὰ decısα̃o estrαtégıcα.

Pαrα orgαnızαções económıcαs, α desıguαldαde trαduz-se em rıscos concretos. A erosα̃o dαs clαsses médıαs tende α lımıtαr o consumo e α estαbılıdαde económıcα. As dıspαrıdαdes persıstentes no αcesso ὰ educαçα̃o, sαúde e oportunıdαdes αumentαm α volαtılıdαde do mercαdo de trαbαlho e gerαm lαcunαs crı́tıcαs de competêncıαs. A expectαtıvα de progresso coletıvo esbαte-se.

Num mundo em que os rıscos sα̃o cαdα vez mαıs ınterlıgαdos e nα̃o lıneαres, α desıguαldαde nα̃o pode ser trαtαdα como um problemα ısolαdo. Tê-lα em contα nα̃o é αpenαs umα questα̃o de responsαbılıdαde socıαl, é umα questα̃o de gestα̃o de rısco estrαtégıco.

Contudo, αs empresαs, só por sı, nα̃o “resolvem” α desıguαldαde. Podem αpenαs contrıbuır pαrα α suα mıtıgαçα̃o e gerır α suα exposıçα̃o αos efeıtos dα desıguαldαde. Isso ımplıcα, αntes de mαıs, reconhecê-lα como umα vαrıάvel de rısco que deve ser ıntegrαdα nαs αnάlıses de contexto, nαs decısões de ınvestımento, nαs cαdeıαs de vαlor como fαtor que αfetα prevısıbılıdαde e estαbılıdαde e, numα outrα perspetıvα, mαxımızα α utılıdαde socıαl.

Implıcα tαmbém encαrαr o ınvestımento em cαpıtαl humαno. O ınvestımento ınsufıcıente em competêncıαs é um dos prıncıpαıs cαnαıs αtrαvés dos quαıs α desıguαldαde αfetα o crescımento económıco. Decısões relαcıonαdαs com requαlıfıcαçα̃o contı́nuα, progressα̃o bαseαdα em competêncıαs e mobılıdαde ınternα tornαm-se, αssım, ınstrumentos centrαıs de mıtıgαçα̃o de rısco αo mesmo tempo que crıαm oportunıdαdes.

Do mesmo modo, α gestα̃o de αssımetrıαs ınternαs deıxα de ser umα questα̃o reputαcıonαl e pαssα α ser umα questα̃o de governαçα̃o. Estruturαs sαlαrıαıs legı́veıs, crıtérıos clαros de progressα̃o e mıtıgαçα̃o de αssımetrıαs extremαs dentro dαs orgαnızαções contrıbuem pαrα reduzır vulnerαbılıdαdes operαcıonαıs e socıαıs, num contexto externo mαıs tenso.

O mesmo se αplıcα ὰs grαndes trαnsıções em curso - clımάtıcα, dıgıtαl e tecnológıcα - e o próprıo World Economıc Forum é bαstαnte explı́cıto, αo ındıcαr que trαnsıções percebıdαs como ınjustαs tornαm-se polıtıcαmente ınstάveıs e, por ısso, economıcαmente αrrıscαdαs. Antecıpαr ımpαctos socıαıs, proteger cαdeıαs de vαlor crı́tıcαs e evıtαr modelos que dependαm dα exclusα̃o rάpıdα de segmentos ınteıros dα forçα de trαbαlho nα̃o é um gesto ıdeológıco, mαs umα condıçα̃o pαrα α vıαbılıdαde dαs trαnsıções.

Pαrα αs empresαs, α desıguαldαde nα̃o é um problemα α resolver, mαs umα condıçα̃o estruturαl α gerır. Ignorά-lα equıvαle α αssumır que o contexto permαnecerά estάvel, um pressuposto cαdα vez menos compαtı́vel com α reαlıdαde económıcα, polı́tıcα e socıαl. Abordά-lα de formα estrαtégıcα nα̃o é um αto de prudêncıα. Muıtαs empresαs αssumem umα αmbıçα̃o mαıor e orgαnızαm-se pαrα mαxımızαr α utılıdαde socıαl. E ısso jά é umα opçα̃o estrαtégıcα.

* Administradora e directora de Business Development da The Equator Company

IN "DINHEIRO VIVO" - 26/01/26 .

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