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Não estamos a faltar às
aulas. Estamos a recusar
um futuro em chamas
Participar numa greve não é rejeitar a educação. É aplicá-la. É
transformar conhecimento em responsabilidade política. É compreender que
cidadania não se esgota no voto, mas inclui questionar decisões que
moldam o nosso futuro coletivo.
Sempre que há uma greve climática estudantil, ouve-se a mesma
crítica: “Deviam estar na escola.” Mas raramente se faz a pergunta
essencial: estudar para quê, se o futuro que nos prometem se torna cada
vez mais instável?
Na escola aprendemos o que é o aquecimento global, o efeito de estufa
e as energias renováveis. Aprendemos os dados científicos. O que quase
nunca se discute é porque, sabendo tudo isto, continuamos a assistir à
proteção de interesses económicos e ao adiamento sistemático de decisões
estruturais. Aprendemos a teoria da crise. Vivemos a prática da inação.
Fora da sala de aula, os verões tornam-se mais extremos, os incêndios
intensificam-se e a seca agrava-se. A crise climática não é um cenário
distante: é uma realidade presente. E quando essa realidade se torna
evidente, o silêncio deixa de ser neutralidade e passa a ser
cumplicidade.
Movimentos como a Greve Climática Estudantil e o Fim ao Fóssil não
surgem por moda. Surgem por coerência. Se sabemos que os combustíveis
fósseis estão no centro da crise, por que continuam a ser tratados como
inevitáveis? Se as metas climáticas são urgentes, por que são
constantemente adiadas?
Participar numa greve não é rejeitar a educação. É aplicá-la. É
transformar conhecimento em responsabilidade política. É compreender que
cidadania não se esgota no voto, mas inclui questionar decisões que
moldam o nosso futuro coletivo.
Também não é coincidência que tantas jovens liderem estas
mobilizações. Somos uma geração que aprendeu a identificar desigualdades
estruturais e a questionar sistemas que marginalizam vozes. A crise
climática é igualmente uma crise de poder: quem decide, quem beneficia e
quem suporta as consequências.
Reduzir estas mobilizações à ideia de “faltas às aulas” simplifica um
problema estrutural e desvaloriza uma geração que se recusa a aceitar a
inação como inevitável.
Se somos suficientemente crescidos para herdar as consequências,
somos também suficientemente responsáveis para participar nas decisões.
Isto não é exagero. É coerência.
Não estamos a abandonar o futuro. Estamos a exigir que ele exista.
IN "ESQUERDA" -02/03/26 .

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