03/03/2026

CLARA LAURENT

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Não estamos a faltar às
aulas. Estamos a recusar
um futuro em chamas

Participar numa greve não é rejeitar a educação. É aplicá-la. É transformar conhecimento em responsabilidade política. É compreender que cidadania não se esgota no voto, mas inclui questionar decisões que moldam o nosso futuro coletivo.

Sempre que há uma greve climática estudantil, ouve-se a mesma crítica: “Deviam estar na escola.” Mas raramente se faz a pergunta essencial: estudar para quê, se o futuro que nos prometem se torna cada vez mais instável?

Na escola aprendemos o que é o aquecimento global, o efeito de estufa e as energias renováveis. Aprendemos os dados científicos. O que quase nunca se discute é porque, sabendo tudo isto, continuamos a assistir à proteção de interesses económicos e ao adiamento sistemático de decisões estruturais. Aprendemos a teoria da crise. Vivemos a prática da inação.

Fora da sala de aula, os verões tornam-se mais extremos, os incêndios intensificam-se e a seca agrava-se. A crise climática não é um cenário distante: é uma realidade presente. E quando essa realidade se torna evidente, o silêncio deixa de ser neutralidade e passa a ser cumplicidade.

Movimentos como a Greve Climática Estudantil e o Fim ao Fóssil não surgem por moda. Surgem por coerência. Se sabemos que os combustíveis fósseis estão no centro da crise, por que continuam a ser tratados como inevitáveis? Se as metas climáticas são urgentes, por que são constantemente adiadas?

Participar numa greve não é rejeitar a educação. É aplicá-la. É transformar conhecimento em responsabilidade política. É compreender que cidadania não se esgota no voto, mas inclui questionar decisões que moldam o nosso futuro coletivo.

Também não é coincidência que tantas jovens liderem estas mobilizações. Somos uma geração que aprendeu a identificar desigualdades estruturais e a questionar sistemas que marginalizam vozes. A crise climática é igualmente uma crise de poder: quem decide, quem beneficia e quem suporta as consequências.

Reduzir estas mobilizações à ideia de “faltas às aulas” simplifica um problema estrutural e desvaloriza uma geração que se recusa a aceitar a inação como inevitável.

Se somos suficientemente crescidos para herdar as consequências, somos também suficientemente responsáveis para participar nas decisões.

Isto não é exagero. É coerência.

Não estamos a abandonar o futuro. Estamos a exigir que ele exista.

* Estudante luso-francesa e ativista, interessada em justiça social, política e direitos humanos.

IN "ESQUERDA" -02/03/26 .

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