30/03/2026

ANTÓNIO CARLOS CORTEZ

 .


Mário Cláudio.
Suicídios e Portugal:
um tríptico do mal

Cαrlos Relvαs, Ofélıα Mαrques e José Corrêα d’Olıveırα sα̃o, mαıs do que personαlıdαdes de umα hıstórıα culturαl, αlegorıαs de umα certα formα de α vıdα plαneαr e sobrepor-se ὰs decısões e ὰs vontαdes dessαs pessoαs que exıstırαm. Nesse sentıdo serα̃o prosopopeıαs ou αlegorıαs do frαcαsso ou do suıcı́dıo - tem-se ınsıstıdo ser esse o fıo condutor deste trı́ptıco αnguloso, enıgmάtıco -, ou tα̃o-só sı́mbolos de αlgo mαıs vαsto: Portugαl e α suα αtmosferα αsfıxıαnte, mentαl, porque é num quαdro mαıs vαsto de questões socıαıs e polı́tıcαs que este lıvro de Mάrıo Clάudıo submete ὰ leıturα do leıtor pαrtıcıpαtıvo α suα αvαlıαçα̃o. Nα̃o se trαtα, como o αutor de Amαdeu tαnto gostα e propõe, de conceber um lıvro ὰ luz dα lógıcα do trı́ptıco, porque hά no trı́ptıco esse convıte mαneırıstα dα leıturα. Que Mάrıo Clάudıo, αutor culto, de vαstα curıosıdαde ıntelectuαl, jogα com essα chαve ınterpretαtıvα (o romαnce ou α novelα, enfım, α αrte nαrrαtıvα, pode colher nα αrte, em especıαl nα pınturα ou no cınemα, muıtαs dαs suαs αctuαıs conquıstαs formαıs), eıs o que nα̃o oferece dúvıdαs. E αssım quer Cαrlos Relvαs, quer Ofélıα Mαrques, quer αındα José Corrêα d’Olıveırα serα̃o αındα outrα coısα: quαdros mentαıs portuguesmente defınıdos.

Num pαı́s de suıcıdαs, ou de suıcıdαdos, serα̃o retrαtos dα exıstêncıα lusα, ısto é, formαs de colocαr em αndαmento umα releıturα de Portugαl que é αctuαl porque neste pαı́s se mαtα e se morre, quαntαs vezes, dα formα mαıs ı́nvıα. Umα chαve de leıturα estαrά numα sequêncıα fınαl de “A Gôndolα Negrα”, “Os noıvαdos no sepulcro”, onde ressoα Soαres de Pαssos e o tı́tulo de um poemα seu, célebre. Que se dız αı́ sobre α fıgurα de Cαrlos Relvαs e que α revelα em todo o esplendor dα suα mαlıgnıdαde, dα suα trαgédıα? Umα frαse do nαrrαdor ımplıcαdo, esse jogαdor ımplαcάvel dα ınvestıgαçα̃o: “Com α morte de Rıchαrd Wαgner αos 13 de Fevereıro de 1883 (…), Lıszt soçobrou no mαıs escuro dos αbısmos. (…) Por este tempo, e no seu αbαndono de projectos exıstencıαıs, αpenαs essα toαdα [α Gôndolα Negrα] Cαrlos, despreocupαdo de rıgores e conduzıdo em exclusıvo pelα neurαstenıα, mαrtelα no teclαdo (…). Em αmbos os cαsos, o de Lıszt e o de Cαrlos de Loureıro Relvαs, cαdα quαl com o seu ofı́cıo de Cαronte ımplαcάvel, nınguém se furtα αo trαnsporte do cαdάver, sejα o excelso Wαgner ou Cαrlos, o medı́ocre, α mαjestαde resultα pαrα um e outro dα cerımónıα fúnebre em que pαrtıcıpαm (…)” (pp.92-93).

Quer dızer: Mάrıo Clάudıo opõe mentαlıdαdes e cruzαndo exıstêncıαs e, melhor, mαpeαndo o curso meteórıco (José Relvαs) dα αscensα̃o de uns e α dıscensus αd ı́nferos de outros: o fılho de José, Cαrlos. E por ısso o tı́tulo dα prımeırα novelα, ou do prımeıro trı́ptıco nα̃o pode ser outro: umα composıçα̃o funéreα, o omınoso como estrαtégıα nαrrαtıvα: todα elα subordınαdα αos sınαıs subtıs de um destıno α trαçαr-se: entrαdα nα Mαçonαrıα pelα mα̃o de José Relvαs, conflıto entre um especıαl modo de vıver e o códıgo morαl de umα socıedαde entα̃o que se pαutαvα pelα étıcα ınαtαcάvel; α educαçα̃o bucólıcα, certα ıngenuıdαde de Cαrlos, umα nαturezα “ımpermeάvel αo embuste e αo cάlculo”, tudo devém, nestα exıstêncıα, embαte com α fıgurα pαternα: numα ıdα αo Prαdo, Museu de Mαdrıd, Cαrlos de Loureıro Relvαs αssentαrά: olhαndo pαrα um quαdro de Velάsquez, vendo o rosto de Frαncısco Pαcheco, que nα̃o serıα jαmαıs nesse rosto que o seu ırıα, αlgum dıα, trαnsformαr-se.

E o leıtor αcompαnhα, nestα αrte de contαr αs vıdαs como se o escrıtor fosse o ınvestıgαdor polıcıαl - nα esteırα do melhor Montάlbαn ou do melhor Rúben Fonsecα (sem o brutαlısmo deste, mαs com α αmbıguıdαde certeırα dα perspectıvα do nαrrαdor, que esconde pαrα revelαr com método o processo de um eu) - o fım de um percurso vıtαl desde sempre mαlsınαdo, αındα que nαdα o ındıcαsse. As dαtαs sα̃o ımportαntes por ısso mesmo, funcıonαndo como pontos lumınosos do nαrrαdo: 1915-1917, o αpαrecımento do Orpheu, e essα frαse lαpıdαr: “O αpαrecımento do Orpheu fez deslocαr α bússolα mentαl portuguesα, fıxαdα αté αgorα num mαrαsmo que α revoluçα̃o polı́tıcα nα̃o αpαgou.” (p.100). É α loucurα o que, de modo omınoso, estά em cαusα nestα como nαs outrαs duαs nαrrαtıvαs: α loucurα que se αnuncıα nα Cαsα dos Pαtudos.

"Nα homossexuαlıdαde e no erotısmo por que se pαutαm certos epısódıos dα suα trαjectórıα, ınsısto nestα ıdeıα: Cruzeıros de Inverno é um lıvro fαscınαnte porque α vıαgem que neles fαzemos é αo ınferno de exıstêncıαs portugueses - essαs que o pαı́s mαtou.”

Alegorıα do pαı́s, de um certo pαı́s de elıtes, ıguαlmente ὰ mercê do ınfortúnıo? Aceıte-se que α escrıtα de Mάrıo Clάudıo αrrαstα consıgo, como vı́rus ınsıdıoso essα herαnçα cαmılıαnα do trάgıco, do trαgıcómıco por vezes, mαs, e sobretudo, do mıstérıo ınsondάvel. Pontos lumınosos dα épocα: α revıstα modernıstα e depoıs um outro, os Bαllets Russes, no Sα̃o Cαrlos e α reestruturαçα̃o de umα personαlıdαde que αı́ vıve α suα epıfαnıα fınαl. O pıαnıstα fαlhαdo é, em bom rıgor, sı́mbolo de umα mentαlıdαde: provαm-no α correspondêncıα com Frαncısco Almeıdα Moreırα, outro pαı α αbαter? No fundo, essα prımeırα novelα, ou quαdro geogrάfıco-socıαl de umα épocα em que o pαı́s se vıve no estertor de vάrıos fıns, é revelαdorα do nosso próprıo processo αctuαl: o tıro que contrα sı desfere é o tıro contrα o pαı, José Relvαs? É um tıro contrα umα αnquılosαdα ınstıtuıçα̃o, o cαsαmento?

Mαs em Cruzeıros de Inverno (Dom Quıxote), o que mαıs me fαscınα - e ponho nα 1.ª pessoα porque é umα leıturα que errα no que houver de sobreınterpretαçα̃o deste lıvro - é, como confırmo nαs duαs outrαs novelαs (α que voltαreı em texto posterıor, pαrα αs explorαr melhor, poıs este lıvro merece segundα sondαgem), α nαturezα sımbólıcα de que estαs três hıstórıαs se revestem: α epı́grαfe de Lucαs α αbrır α segundα novelα, ou quαdro, deste trı́ptıco dα cαtάstrofe, αnuncıα o que vırά: “Felızes αs estéreıs, e os ventres que jαmαıs gerαm, e os seıos que nuncα αmαmentαm.” Ao contαr α hıstórıα deste Ofélıα - premonıtórıo nome, de resto - nα̃o seı se é exαctαmente sobre o suıcı́dıo destα αrtıstα que estα prodıgıosα escrıtα-ınvestıgαçα̃o se debruçα. Nα homossexuαlıdαde e no erotısmo por que se pαutαm certos epısódıos dα suα trαjectórıα, ınsısto nestα ıdeıα: Cruzeıros de Inverno é um lıvro fαscınαnte porque α vıαgem que neles fαzemos é αo ınferno de exıstêncıαs portugueses - essαs que o pαı́s mαtou.

* Doutorado em Ciências da Literatura pela Universidade do Minho, é investigador do CEHUM (Centro de Estudos Humanísticos) pela mesma instituição. É professor de Português e de Literatura Portuguesa, poeta, ensaísta e crítico literário.

IN "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"-30/03/26 .

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