05/10/2020

BERNARDO RODO

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Vale tudo 

 A ideia de que o eleitor é uma marioneta é vista como redutora na sociedade moderna, mas as evidências dizem o contrário. O melhor exemplo é Donald Trump, que todos os dias mostra ao mundo como é possível manipular o eleitorado com mentiras que este quer ouvir.

A propaganda política acompanha a humanidade na sua evolução civilizacional desde os tempos do Primeiro Império Persa. Uma das formas de propaganda mais antigas remonta ao período das guerras civis romanas, com as acusações públicas, de crueldade, cobardia, iliteracia e deboche, entre o Imperador Augustus e o General Marcus Antonius, que protagonizaram a transformação da República Constitucional numa República Autocrática.

A destruição retórica do carácter do adversário, através de ataques à virtude, bravura, educação, dignidade e até aspeto físico, que visavam a sua desqualificação política e afastamento da comunidade, é conhecida, no período da Roma Antiga, como invetiva romana. As invetivas podiam ter várias expressões, como discursos, poemas, ensaios ou panfletos e terão sido um dos principais motivos para que a propaganda adquirisse uma conotação negativa.

Na sua origem, a propaganda assumia a forma de boato e difamação, como um dos métodos mais eficazes para moldar a opinião pública em relação a uma ideia ou adversário político. O pressuposto, que se mantém atualmente, é o de que esta forma de comunicação serve para influenciar audiências, e não assenta em critérios objetivos, mas numa seleção de factos que visam estimular uma determinada perceção da realidade, muitas vezes alicerçada em reações emocionais.

Por este motivo, ao longo da história, a propaganda ganhou relevância em períodos conturbados de transformação política e social, como por exemplo a Revolução Francesa ou as grandes Guerras Mundiais. Os meios de massas vieram estimular a noção de que não existem limites à capacidade de conquistar o apoio popular a uma causa, e que se a mensagem for suficientemente empática as pessoas acreditam na ideia que lhe está subjacente.

Surgiram algumas vozes ao longo dos anos a exigir maior neutralidade na comunicação propagandística, que deve ser suportada por princípios éticos e morais para impedir uma deturpação deliberada da realidade, ou desinformação. Ou seja, se não existirem limites factuais e de transparência o público não compreende as intenções da propaganda, que pode provocar o descrédito das próprias instituições que visa promover.

A comunicação digital veio agravar esta preocupação, pois permite disseminar informação sem nenhuma referência à sua origem, nomeadamente através das redes sociais que se tornaram a principal plataforma das “fake news”. Com esta rápida propagação de mensagens não substanciadas em factos estão mais fragilizadas as culturas em que a parcialidade ideológica é assumida pelos media, e que está a ameaçar a sua integridade: se tudo pode ser mentira o mesmo é válido para a verdade.

Uma das matérias de estudo da psicologia social é precisamente a persuasão. Na teoria da comunicação, a persuasão está associada a fatores como credibilidade, conhecimento, confiança e atratividade. Contudo, existe um princípio designado de “avareza cognitiva” que se refere à tendência da mente humana para resolver problemas da forma simplista e que implique menos esforço, independentemente da inteligência do indivíduo. A sua aplicação ao discurso político, com uma manipulação consciente das mentes, gostos e ideias das massas, tem sido uma característica dominante da sociedade democrática.

Seja qual for o propósito da propaganda – enaltecer um líder, mobilizar uma nação, intimidar um inimigo, condicionar um eleitorado –, a sua tarefa está facilitada se a desinformação que é servida à opinião pública for do seu agrado. A ideia de que o eleitor é uma marioneta é vista como redutora na sociedade moderna, mas as evidências dizem o contrário. O melhor exemplo é Donald Trump, que todos os dias mostra ao mundo como é possível manipular o eleitorado com mentiras que este quer ouvir.

Não é relevante saber se o faz de forma consciente ou se o seu comportamento é condicionado por patologias narcisistas e despóticas. O importante é perceber que a sistematização destas narrativas falsas é propagada pela própria comunidade que por passar a “defender” a causa não vai agir contra si mesma. O contraditório é menos persuasivo quando recorre a uma base de verdade, que por definição requer um maior esforço de interpretação.

Com a opinião pública entorpecida pelas redes sociais, maioritariamente desinteressada, a manipulação está facilitada. Como se percebe pela história ao longo dos séculos, não estamos perante um impasse civilizacional ou democrático, mas em pleno combate, experimentado, impiedoso e feroz, pela opinião pública. Neste combate não existem regras, não existem limites, e a julgar pela permissividade dos eleitorados aos comportamentos grotescos dos seus candidatos, não existe memória.

IN "JORNAL DE NEGÓCIOS" - 02/09/20

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