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IN "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"
27/08/20
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Pais capazes
Serão os pais (homens) capazes de cuidar dos filhos? Ou, pelo menos, tão capazes como as mães? É tempo de dizer claramente que sim e que as competências para cuidar de um bebé ou uma criança não são exclusivas da mãe.
Olhamos à nossa volta e vemos inúmeras crianças acompanhadas apenas pela
mãe ou pelo pai. Sinais dos tempos, em que os divórcios apresentam
estatísticas assustadoramente elevadas.
E se, quando a criança
está com a mãe assumimos de forma automática que é bem cuidada, o mesmo
não se passa quando está com o pai. Talvez por isso tenha ouvido hoje
alguns comentários junto à piscina, como "olha o jeito que o pai
tem para acalmar o filho", "repara como o pai muda tão bem a fralda"
ou, ainda, "a paciência que aquele pai tem para as birras da filha!"
Comentários que traduzem a ideia base, ainda tão enraizada na
forma de pensar de muita gente, que cuidar de uma criança é algo inato
para as mães, mas não para os pais. Que apenas as mães sabem
acalmar um filho e cuidar dele de forma competente. E, ainda, que a
paciência da mãe é infinitamente superior à do pai.
Ideias erradas e sem fundamentação científica.
Estamos perante crenças baseadas numa conceção tradicional da
parentalidade, em que os papeis de género surgem rigidificados - o pai
"ganha pão" e provedor da subsistência da família vs a mãe
cuidadora da casa e dos filhos. Estamos, porém, em 2020, e não
poderíamos estar mais distantes desta realidade. Não só as mulheres de
hoje se assumem também como profissionais igualmente competentes,
ganhando terreno no mercado de trabalho, como os homens querem ver
reconhecidas as suas competências enquanto pais cuidadores. E
se, no que às mulheres diz respeito, enfrentam ainda muitas barreiras,
estereótipos e desigualdades enquanto profissionais, também os homens se
deparam com inúmeras dificuldades quando chega a hora de quererem
assumir sozinhos (após uma separação ou divórcio) o seu papel parental.
Assim, convém sublinhar que não existe qualquer evidência empírica de
que as mães sejam melhores cuidadoras do que os pais. As competências
parentais relacionam-se com inúmeras variáveis e o sexo do progenitor
não é uma delas. O que equivale a dizer que temos mães e pais
muito competentes para o exercício da parentalidade, da mesma forma que
temos mães e pais com fragilidades que comprometem de forma muito
significativa este mesmo exercício. Mais especificamente sobre
os estudos da vinculação e aquilo que eles nos dizem sobre a capacidade
da criança se vincular a mais do que uma figura cuidadora, ver este texto também.
Se existem diferenças na forma como as mães e os pais interagem com os seus filhos? Seguramente. Sabemos
hoje que as mães interagem sobretudo de uma forma verbal e são mais
expressivas do ponto de vista afetivo. Por seu turno, os pais interagem
de uma forma mais motora e são mais criativos nas atividades lúdicas. Falamos,
assim, de diferentes formas de estimular o bebé, que se complementam e
contribuem para um maior bem-estar. Diferenças que tendem também a
esbater-se, fruto das alterações sociais e familiares que se refletem,
naturalmente, na relação parental.
Dito isto, podemos afirmar, em abstrato, que os pais são tão capazes
como as mães a cuidar dos seus filhos. Não nos espantemos, por isso,
quando virmos um pai a brincar às bonecas, a rebolar na relva e a fazer
cócegas, a dar o banho ou a mudar a fralda. Faz parte do seu papel
parental e não é nada de extraordinário que mereça uma medalha e uma
salva de palmas.
Os pais agradecem e os miúdos também.
E as mães... se estiverem realmente centradas no bem-estar e no interesse dos seus filhos, agradecem mais ainda.
IN "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"
27/08/20
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