01/05/2018

RUTH MANUS

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Não se esqueça que você
 é apenas a madrasta

Os pais têm aquela tal garantia eterna do amor incondicional. Mas à madrasta, resta-lhe entregar-se aos filhos da pessoa com quem vive, sem saber se um dia, lá na frente, esse afeto será reconhecido.

Você vai aprender a amar uma criaturinha que não é sua. Vai passar as mãos pelos seus cabelos enquanto ela se encosta sutilmente ao seu braço. Você vai sentir a falta dela nos dias em que não está e vai mudar uma parte gigantesca dos seus planos em virtude dessa pequena pessoa. Mas não se esqueça, você é apenas a madrasta.

Na sua bolsa vai haver resto de bolacha, suco de caixinha, brinquedos espalhados, lenços para o nariz escorrendo. Nas suas compras do supermercado vai haver muito leite, as frutas preferidas deles, um xampu que não arde nos olhos, um docinho para mimar. Mas não se esqueça, você é apenas a madrasta.

Você vai buscar na escola, vai chamar os amigos deles pelo nome, vai carregar mochila, lancheira, casaco, vai cumprimentar os professores, vai cumprimentar as outras mães. Não, calma. Ato falho. Outras mães, não. As mães. Porque você não é mãe, você é apenas a madrasta.

Você vai estudar com eles, vai ter que relembrar como somar frações, vai ler dezenas de livros infantis. Você vai assistir filmes da Disney, da Pixar, na Universal. Vai assistir Disney Junior, Disney Chanel, Discovery Kids e boa parte da seleção infantil da Netflix. Vai saber exatamente a qual filme se referem os brinquedos do mês no Mc Donald’s. Mas não se esqueça, você é apenas a madrasta.

Suas madrugadas serão interrompidas. Pesadelos, dores de barriga, febre. E você nem terá tempo de pensar no seu incômodo, porque o sofrimento deles te fará fechar os olhos para todo o resto. E a dor deles vai doer em você também. Mesmo que você seja apenas a madrasta.

Você vai lavar seus cabelos, enxugar os vãos dos dedos do pé, espalhar filtro solar com cuidado. Você vai forrar o vaso sanitário e vai tentar lavar bumbum em pia de banheiro de shopping center. Vai pingar remédio no nariz e escolher bem os agasalhos. Vai lembrar de pegar o casaco deles e vai esquecer do seu. Mas não queira decidir muito. Você é apenas a madrasta.

Você vai precisar das broncas. Vai ser inevitável. E você vai ter medo. Porque os pais têm aquela tal garantia eterna do amor incondicional. Mas você não tem. E vai dar medo de acharem que você exagerou e do afeto dos pequenos por você se ver relativizado. Mas você vai ter que dar a bronca, não tem jeito. Sem nunca, nunca esquecer que você é apenas a madrasta.

E todos vão poder surtar um dia ou outro. O pai. A avó. Os tios. A mãe. O avô. Mas você, você não. Porque você é a madrasta. E você passou muito tempo explicando para as pessoas que você não era a madrasta má dos contos de fadas. Que você era apenas uma pessoa normal que se apaixonou por alguém que já tinha um filho, que você acolheu sem restrições. Então você não tem o direito de surtar e colocar tudo a perder. Porque você é apenas a madrasta.

Você vai amar sem se colocar limites. Vai alterar muitas rotas da sua vida. Você vai abrir mão de noites de sexta e de manhãs preguiçosas de sábado. Você vai se entregar, mesmo sem saber se um dia, lá na frente, esse afeto será reconhecido. Você vai ser o melhor que você pode. Mesmo que o melhor possível seja ser apenas uma madrasta.

IN "OBSERVADOR"
28/04/18


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