domingo, 6 de agosto de 2017

CATARINA CARVALHO

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Matias Damásio 
une Portugal a Angola 
com as palavras de Camões

É possível que um verso de uma canção tenha feito mais pela renovação de mentalidades em Portugal do que muitos discursos. Já todos o ouvimos, anda, ainda, a tocar milhares de vezes na rádio e tem mais de 30 milhões de visualizações no YouTube. É o primeiro verso da canção Loucos, aquela com que o cantor angolano Matias Damásio entrou definitivamente no mercado português. É assim: «Camões não inventou palavras para exprimir esse momento…»

A batida é forte, não engana, soa a kizomba, e dali a pouco Damásio vai passar a usar formas verbais que mostram toda a africanidade do seu som, além de vogais mais surdas, claro. Mas lá está, a homenagem ao poeta maior da língua portuguesa, a abrir a canção. E a mudar o mundo. O nosso mundo.

É o próprio Matias Damásio quem dá conta disto. Quando lhe perguntaram que melhor elogio lhe fizeram em Portugal, ele conta a história curiosa de uma mulher de uns 70 anos que lhe disse: «Filho, não gosto de música africana nem de kizomba mas quando ouvi um preto a falar “Camões não inventou palavras” descobri que era um preto que tínhamos de seguir.»

E está lá tudo, nesta frase. É comovente e encantadora, dramática e cómica. E mostra-nos o mundo como ele é. Sem pieguices, sem parvoíces, sem ideologias e preconceitos a ensombrar o pensamento. Com ela cai por terra a discussão do racismo latente que anda por aí – ou andava, que na rapidez internética, já passou, já passou. Anulam-se as diferenças. E vem ao de cima aquilo a que Matias Damásio há de voltar a referir-se nesta entrevista – o que nos une, além e aquém do que nos separa.
Matias Damásio não é sociólogo nem político, é um artista. Sim, é verdade, é um artista que sabe o que neste momento vale para ele o mercado português. Mas é também nessa sua condição que o que ele conta ganha tal importância. No mundo real em que as suas canções são ouvidas, as coisas são diferentes da realidade que aparece nos jornais. Gente que as ouve e trauteia e, nessa simplicidade, adota um mundo que fala português e vai além das fronteiras. E gente que repara que é um angolano que homenageia Camões.

Matias irá dar mais dados para esta tese ao contar da sua infância em Benguela, cidade mestiça da costa angolana: «Sou de uma geração em que já havia, de novo, muitos portugueses em Angola. Portugal era o sonho. Amigos que tinham vindo para Portugal mandavam fotografias tiradas em pontes, roupa e ténis muito bonitos e essas eram as referências que tínhamos. Referências de sonho.»

E remata, com realismo. «Mas uma das coisas mais bonitas que aconteceu ao meu país foi essa capacidade de recomeçar, sem medo de errar. E sem nunca se render. Termos tirado os portugueses do nosso caminho para recomeçarmos foi muito bom.» Teríamos tanto a aprender ouvindo mais Matias Damásio e menos discursos inflamados e artificialmente ideologizados.

IN "NOTÍCIAS MAGAZINE"
31/07/17

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