segunda-feira, 10 de julho de 2017

JOÃO PEREIRA COUTINHO

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Férias, espancamentos 
e esmolas

Costa concluiu, com inteira razão, que estar ou não estar aos comandos é igual ao litro. As últimas semanas, com o seu rol de mortos, feridos e roubalheiras militares épicas, demonstram-no

António costa foi de férias. Alguns não gostaram. Parece-me injusto. Uma pessoa assalta o poder depois de ter perdido as eleições. O plano era simpático: calar a extrema-esquerda, herdar os frutos do governo anterior e tirar retratos sorridentes com o défice e o crescimento económico. Ninguém lhe tinha dito que governar o País significava velar pela segurança dos portugueses. Costa, com admirável espírito infantil, amuou e saiu do recreio. Se era para isto, mais valia estar na Quadratura do Círculo.

O gesto revela, em primeiro lugar, que o nosso primeiro-ministro é um caso ímpar de humildade. Sei que a palavra não combina com os modos do senhor. Ilusório: Costa concluiu, com inteira razão, que estar ou não estar aos comandos é igual ao litro. As últimas semanas, com o seu rol de mortos, feridos e roubalheiras militares épicas, demonstram-no. Entre o País ou a família, Costa sabe que faz mais falta à família.

Até porque o País, segundo consta, não se importa grandemente com a deliquescência do Estado. Antes de ir de férias, o português sensato liga os alarmes. Costa fez o mesmo: encomendou um estudo de opinião para ver se ainda estava nas graças dos desgraçados portugueses. Estes responderam afirmativamente, talvez por constatarem que vivem em Portugal e ainda estão vivos.

DONALD TRUMP NÃO PÁRA. Agora, partilhou um vídeo – um meme, para usar a linguagem apropriada – onde surge a agredir um lutador de wrestling que tem na cabeça o logo da CNN. Os jornalistas horrorizaram-se com a cena. O mundo também. Apesar de tudo, eu considero um progresso. Nos saudosos tempos de Theodore Roosevelt, a luta não era a fingir: o Presidente gostava de boxe (sempre um bom sinal), praticava o desporto desde os tempos juvenis e chegou a promover combates em plena Casa Branca. Nem sempre correram bem: cegou de um olho depois de um jab bem metido. Foi um dos segredos mais bem guardados da sua Presidência. Mas divago. Porque o meu ponto é outro: Emmanuel Macron. O leitor leu muito sobre Trump. Mas será que o informaram que Macron, quebrando a tradição, não tenciona conceder a habitual entrevista do Dia da Bastilha?

Os assessores explicaram porquê: o pensamento elaborado de Macron não se adapta aos maniqueísmos da pergunta-resposta. "É demasiado complexo", disseram. Por outras palavras: na sua obsessão paranóica e grotesca com os jornalistas, Donald Trump concede-lhes uma importância obviamente desproporcionada. Importância e, sejamos honestos, uma fonte permanente de falatório e receitas. Macron, pelo contrário, não espanca jornalistas. Limita-se a passar-lhes um atestado de imbecilidade intelectual. Se eu fosse jornalista, preferia apanhar.

UM CONHECIDO MEU, rapaz com estudos e carreira profissional confortável, vive em Oeiras e vai votar Isaltino. Quando ouvi a confissão, saltei da cadeira e tentei salvar a sua alma. Ele sorriu, disse o óbvio (sim, os crimes, etc.) mas acrescentou o óbvio também: "O que me interessa é que eles trabalhem." Lógica exemplar: é indiferente se o autarca tem a ficha suja; não é indiferente saber se ele fez um trabalho limpo.

Imagino que esta lógica esteja presente no resto do País: segundo um estudo recente, metade dos portugueses aceita a corrupção autárquica. Os especialistas debruçam-se sobre os números, lamentam a falta de "sensibilidade cívica" e pedem mais educação para a democracia.

Percebo os especialistas. Choro com eles. Mas não é difícil explicar a tolerância do nosso povo: quando olham para Lisboa, sobretudo em lugarejos distantes, o que existe é desprezo, desconfiança ou até medo. Um sentimento perfeitamente compreensível à luz das tragédias recentes.

O autarca, quando é corrupto, pelo menos é um deles: uma espécie de coronel de novela que distribui as esmolas. Meter a mão na caixa só seria grave se não houvesse partilha respectiva. Em muitas autarquias do País, não houve propriamente eleições nos últimos anos. O que existiu foi uma espécie de parceria público-privada com vantagens para ambas as partes. Em Outubro será diferente?


IN "SÁBADO"
08/07/17


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