sexta-feira, 28 de julho de 2017

FRANCISCO MENDES DA SILVA

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A lógica do mestre André

Ventura não anda na política para ajudar ninguém, mas só para ganhar votos. E, para esse objectivo, qualquer táctica serve.

A propósito de uma entrevista que André Ventura deu ao jornal i, com considerações polémicas sobre a comunidade cigana, alguns jornais repescaram um artigo que o candidato do PSD à Câmara de Loures (entretanto o CDS retirou-lhe o apoio) escrevera no Correio da Manhã sobre o atentado de Nice, no ano passado. Para Ventura, no combate ao terrorismo islâmico "é fundamental reduzir drasticamente a presença e a dimensão das comunidades islâmicas dentro da União Europeia", porque "qualquer um, de raízes muçulmanas ou convertido, se torna uma potencial ameaça".

Uma vez que o autor não explicou como é que essa "redução drástica" se faria, o leitor fica na dúvida: ou Ventura se está nas tintas para resolver o que quer que seja ou acha que os países europeus deveriam iniciar um processo de perseguição e deportação em massa de muçulmanos, mesmo se cidadãos cumpridores das leis (porque "qualquer um" é "uma potencial ameaça"), e que isso, por algum milagre ou acaso, traria paz e redenção civilizacional à Europa.

Aposto na primeira hipótese: Ventura não anda na política para ajudar ninguém, mas só para ganhar votos. E, para esse objectivo, qualquer táctica serve. Foi por isso que criou a figura do "tipo que diz as verdades", "aquilo que toda a gente pensa e ninguém tem coragem de dizer". É a velha manha populista de espicaçar os ressentimentos e inseguranças do eleitorado, passando por cima da complexidade dos problemas e prometendo soluções finais que não são solução para nada. Quem aprecia a táctica pode ver como está a correr a presidência de Donald Trump, a mais inútil e desastrada de que há memória.

Ventura é uma figura célebre na tagarelice sobre os não-assuntos do futebol, essa quinta dimensão alucinada do nosso espaço público. É uma arte que pratica com dedicação mercenária, imperturbado pela realidade e com a tranquilidade de quem, aconteça o que acontecer, acaba por ver tudo sempre para o mesmo lado.

Quando passa para a política, vem acompanhado dos mesmos princípios de jogo. Disso a entrevista ao i é esclarecedora: Ventura não se mostra excessivamente interessado em separar os planos, diz que fala de bola com 90% das pessoas que o abordam em campanha e que, apesar de recear que "um sportinguista do PSD" não vote nele, "também pode acontecer um comunista ou um socialista dizer que este ano vota no PSD". Portanto, o que define o Ventura político é o Ventura adepto de futebol. A honestidade é sempre bem-vinda.

Sobre os ciganos, o candidato recorre ao mesmo simplismo: pega num problema real (o modo de vida anti-social de muitos elementos da comunidade cigana) e, em vez de propor qualquer via de acção minimamente plausível, atira-se à "etnia cigana" como um todo, definindo-a como o inimigo (aqueles que "se acham acima das regras do Estado de Direito").

Ao contrário do que muitas vezes se diz, a polémica em torno dos populistas não é sobre as causas; é sobre as soluções. Não é sobre a existência ou não de barris de pólvora sociais; é sobre se queremos um pirómano a guardar os barris de pólvora.

No fundo, a discussão é sobre se, na encruzilhada política actual, os partidos moderados tradicionais querem permanecer instrumentos racionais do bem comum ou ceder a políticos que subvertem a lógica da conversação democrática, transformando os partidos em meros megafones do descontentamento, num jogo de soma zero.

O CDS, ao abandonar a coligação de Loures, já fez a sua escolha. O PSD, quero acreditar, apenas perdeu uma boa oportunidade.

Advogado

IN "JORNAL DE NEGÓCIOS"
25/07/17

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