domingo, 23 de julho de 2017

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ESTA SEMANA NA 
"SÁBADO"

Precariedade chega à medicina 
com ofertas de 800 euros

Uma clínica de Braga oferece 800 euros mensais a um médico. O bastonário da Ordem dos Médicos considera ser "um valor inaceitável"

Um anúncio de emprego que circula há três semanas no portal de emprego Linkedin, colocado por uma clínica de Braga, oferece 800 euros a um médico. "Admite-se Médico /a especialista em Medicina Geral e Familiar. Em horário: das 10h às 16h30 com uma folga semanal rotativa. Condições iniciais: 800 euros mensais", lê-se.
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"É um valor inaceitável", disse Miguel Guimarães, o bastonário da Ordem dos Médicos, ao Diário de Notícias. Contudo, os jovens médicos não fazem estas denúncias aos sindicatos.

"Os médicos em Portugal têm um nível de remuneração que não corresponde à responsabilidade que têm, isso é facilmente avaliável pelo que já existe em jurisprudência, sobre as indemnizações que os médicos têm que pagar por erros cometidos ou por complicações. O volume a pagar é completamente desproporcional àquilo que são as remunerações habituais dos médicos a nível do serviço público. Temos dos valores mais baixos da Europa. Só nos países de leste é que há remunerações abaixo", explicou Miguel Guimarães.

A remuneração na área da medicina, que varia consoante o grau na carreira, chegando a atingir os 60 euros por hora, é um dos factores que leva os médicos a afastarem-se do Serviço Nacional de Saúde (SNS). "Com os cortes nos últimos anos, também há médicos que chegam a ganhar valores na casa dos cinco/ seis euros por hora, o que é inaceitável para a responsabilidade que têm no exercício da sua profissão", explica o bastonário. 

Um elevado número de médicos opta por não continuar no SNS, preferindo o privado onde as condições de trabalho se mostram mais justas. "Outros optam pela emigração", garante Miguel Guimarães.

Na opinião do bastonário, melhorar as condições de trabalho é a única solução para inverter esta situação. "O primeiro tem a ver com respeito do poder político - desde as estruturas do Governo às de direcção hospitalar, ARS. Porque as condições são más. Por exemplo, no acesso à formação, muitos vão fazê-la quando têm o apoio da indústria farmacêutica, quando não têm são eles a pagar. Depois fazem cada vez mais horas extraordinárias para tapar buracos no Serviço Nacional de Saúde. É evidente que um médico nessa perspectiva olha para fora e sai. E infelizmente para o nosso SNS, uma parte significativa dos médicos está a sair", explicou ao referido jornal.

Para tentar que os médicos não abandonem o País, Miguel Guimarães acredita que os dias de férias são um bom começo. "Em França fizeram isso muito bem, deram mais 10 dias de férias aos médicos. Chegam aos 45 dias, enquanto cá têm 22 ou 23".

"O Estado dá vários dias por ano para formação, mas não a patrocina. E a formação médica é muito cara. Num congresso nacional ou internacional, em que estão as pessoas com mais conhecimento, as inscrições infelizmente são muito elevadas. Um congresso chega a custar 1500 euros, só a inscrição. Conheço médicos que enviaram trabalhos, foram aceites por congressos internacionais e acabaram por não ir apresentar porque não tinham apoio", afirmou.

* Uma proposta vergonhosa.

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