sexta-feira, 7 de julho de 2017

ANA BACALHAU

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Um forte abraço perene

Sem tempo a perder: abraçar a quem queremos muito, já e sempre que possamos. O amor e só o amor pode atrasar o tempo. Os minutos baralham-se nas suas contas e andam mais vagarosamente, quando se perdem num abraço sentido.

O negro do fumo deixa antever o luto dos corações que veem o seu mundo extinguir-se para dar lugar a outro mundo, que não conhecem, que não querem conhecer. Nesse novo mundo faltam as pessoas que amam, que amaram e perderam, engolidas pelo fogo, ou pelo ódio, ou por ambos ou tantos outros perigos mortais que ameaçam fazer tombar este mundo e substituí-lo por um mundo pior e vazio.

As referências que nos davam a segurança de pertencer a algo vão desaparecendo com o passar dos anos. Chegaremos a idade vetusta tendo perdido quase todo o nosso mundo, por acidente, por maldade, por calamidade, pelo natural passar do tempo.

Ensinaremos nas escolas que foi um tempo como todos os tempos: cheio de momentos trágicos, com alguns momentos de profundo humanismo e conexão. Ao mesmo tempo, é o tempo em que vivemos e vivemos tudo pela primeira vez, na primeira pessoa.

Sem tempo a perder: abraçar a quem queremos muito, já e sempre que possamos. O amor e só o amor pode atrasar o tempo. Os minutos baralham-se nas suas contas e andam mais vagarosamente, quando se perdem num abraço sentido. Tudo se irá esfumar, porque, apesar de abrandar, nunca ninguém conseguiu parar o tempo. Mas, pelo menos, vamos conquistando algumas memórias, que serão o nosso alimento quando os pedaços amados do nosso mundo se forem embora. Nasce-se e morre-se só. Entre um evento e outro, vamos enchendo a nossa existência de pessoas. De um evento ao outro, vamos perdendo algumas, demasiadas.

E assistimos em direto enquanto outros perdem as suas pessoas mais importantes, os seus mundos se esvaziam e dói.

Que saudades do tempo de inocência, daquele tempo em que o meu mundo estava a transbordar e com nenhumas perdas a registar. Ouvia com alguma estranheza os relatos amargurados dos anciãos, contando as suas perdas, falando dos seus tempos felizes, idos para sempre.

Hoje, entendo-os bem. Um dia, vazia ou quase, irei contar o meu tempo, cheio como um balão, a uma criança que me irá escutar com a mesma incredulidade com que escutava os graúdos. Talvez nem sobreviva para contar e estarei entre as perdas de alguém.

Agarremo-nos muito enquanto podemos. Vamo-nos perder um dia, mas, para já, celebremos o nosso encontro com um forte abraço.


IN "NOTÍCIAS MAGAZINE"
04/07/17


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