segunda-feira, 29 de maio de 2017

VÍTOR SOUSA

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Lenços de seda

Uma resposta que mereceu o louvor da professora porque, disse com propriedade, "efectivamente, as leis da física ditam a vitória, numa prova de gravidade, de uma perna maciça, como a do Valdemiro, sobre um antebraço ou qualquer outro membro mais pequeno e leve". Ninguém suspeitou daquele suspiro

Treinava-se muito na recruta dos heróis, essa brincadeira de crianças habituadas a acordar com notícias sobre o avanço das tropas. Cabinda, Nambuangongo, mata do Maiombe, Chimbete, Kwanza, Angola é nossa, turras, palavras ainda distantes das crianças de 61, a grande reserva de mortos do Império. 11, 12, 13 no máximo, toda a vida pela frente quando se julgava que para trás ficava o jardim do infantário e à frente as grandes expedições do adultério. Somos muitos, basta ver naquelas romarias até ao cais quantos levam o Vera Cruz, o Santa Maria e as criancinhas a infernizar as mães - quero ser grande e ir para a guerra, quero ser grande e ir para a guerra -, sem saberem que, por maior que fosse o homem, gastavam-se fortunas para emoldurar o trabalho do retratista, uma fotografia de corpo inteiro antes que o Estado fizesse do bastardo meio irmão, meio filho, meio corpo, meia pensão.

Mães, avós, tias, primas, namoradas, noivas, amantes e os soldadinhos, alguns que nunca privaram muito com mar, ilhéus que só sabem afogar-se, prontos para a despedida. Há deles instruídos pela família, pelo cruel silêncio da família, pelo abraço do pai porque é o próximo da fila, a deixarem-se ficar para que sobre pão na mesa. Um filho útil, pelo menos um, que obrigue o Cerejeira a bater-me continência com a mesma reverência que me paralisou o braço direito e forçou-me a educar a canhota para educar esta cambada. Se não for pedir muito, filhinho querido, que o Cónego Roseira ainda esteja capaz de celebrar o teu funeral. Foram muitos anos a engolir aquelas boquinhas na missa, do bla bla que a mão direita não saiba o que faz a esquerda. Hão-de pagar todos, justiça me faças.

Regressavam os rapazes a casa, 62, 63, e continuávamos a ganhar a guerra. Numa ou noutra ocasião solene, o carteiro trazia notícias de um primo que antes ajudava no tpc e continuou a ser muito útil quando a professora tinha a palmatória pronta para quem não cumprisse os requisitos da hipérbole. "O meu primo Valdemiro é paraquedista e aterrou, ao mesmo tempo, em imensos lugares num raio de mil metros, sensivelmente". Uma resposta que mereceu o louvor da professora porque, disse com propriedade, "efectivamente, as leis da física ditam a vitória, numa prova de gravidade, de uma perna maciça, como a do Valdemiro, sobre um antebraço ou qualquer outro membro mais pequeno e leve". Ninguém suspeitou daquele suspiro, muito menos da escusa por indisposição súbita, mas a professora recordava-se demasiado bem da emergência com que o Valdemiro aterrava na educação visual e se empenhava no estudo do meio.

Foi-se o Valdemiro, ganhou-se um aluno que foi progredindo na escola até aprender a detectar a imprecisão dos matemáticos do Ultramar que davam todos por esquartejados, quando não era líquido que o Napalm só dividisse alguém em quatro. 66 e os magriços, Torres de atalaia, o Simões a sentá-los, Coluna de um Império que não se verga, que marcha contra os bretões até que uma rádio entra nos descontos como se o Eusébio rematasse do Minho até Timor. 67, 68, ai de nós sem Salazar, mas a nossa vitória é contínua e os rapazes agora de barba e outras coisas rijas a amadurecerem para a vindima da Pátria. 69 e já se sabe que isto dá muitas voltas, amor, mas vem aí 70, a recruta para ser o melhor a amar-te em desespero, a desaparecer sem deixar rasto, recordista do lançamento do pulmão. 71 a 73 vai ser de perder a cabeça por ti, desgraçado poeta do óbvio, rapaz educado que deixou à namorada um lenço de seda. – O que é isto? – , surpreendida por ver no lenço uma gota de sangue. – É o mapa de Angola, meu amor.

Uma questão de tempo até à capitulação deles, diziam uns e outros. É só esperar um pouco mais até à rendição absoluta, ajude-nos o vento. Esvoaça a ridícula bandeira vermelha que fora branca, retirada à pressa de um qualquer sítio por onde não devia sair o almoço. A miopia, o daltonismo, razões legítimas para não o inimigo não distinguir a assinatura inimitável de um homem que tinha bom interior, agora estragado numa bandeira que era branca. Não arrancava o vento, o que só piorava a situação de quem estudou com zelo as regras da guerra. Há regras para matar, para dosear o sal e atenuantes para quem mata de novo os mortos, habituado que estava a ouvir o morto gritar "morri" no recreio da escola.

Nem bandeira era, antes um lenço que alguém levou para manter a educação de casa em qualquer situação. Nunca se sabe das horas do corpo, filho. Um espirro seguido de perdão, um perdão seguido de santinho, um santinho seguido de grito, de gritos, de pânico, médico, médico, médicooooo porra, socorro, o coro da companhia que ainda há pouco entoava o hino, mão no peito e agora demasiadas mãos para o pouco tronco do camarada, o camarada mais educado de todos que envergonha a Mãe sem um lenço para acomodar o espirro do estômago, a rajada do ventre, a pressa de um coração que tem o desplante de se abrir ao mundo como se cumprisse a metáfora gasta dos maus poetas. A julgar pelo esguicho, a jugular deu de si, mas ainda há força para golfar uns bocábulos – no bolso das calças, no bolso das calç –, e corre um camarada para trazer a perna – não é essa, não é – e corre outro camarada que encontra a perna certa por exclusão de partes, mas já é quase tarde quando alguém encontra os lenços de seda bordados pela Mãe e pouco mais há a fazer do que cosê-los, formar uma bandeira que passe por branca, esperar que o vento nos ajude. E que aquele sacana veja bem como se debruçam os camaradas sobre um rapaz que sussurra "digam à minha Mãe que o nariz esteve sempre limpo."

- Os alvos estão imóveis. Abrir fogo e siga para casa porque hoje é sexta-feira santa.

IN "SÁBADO"
23/05/17

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