19/08/2015

ROSÁRIO GAMBOA

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"Quanto custou a dívida grega 
aos contribuintes europeus?"

Foi com esta interrogação que a Euronews de sexta-feira passada introduziu o comentário de Gregory Claeys, economista belga, à mesma questão colocada no Utalk. E se a pergunta era clara, a resposta também o foi: nada! Até hoje a dívida grega não teve nenhum custo para os contribuintes europeus.

As ajudas financeiras à Grécia foram realizadas por empréstimos contraídos aos diversos parceiros europeus através de idas ao mercado. Algumas destas entidades "até têm tido lucros nesses empréstimos, porque os juros que cobram à Grécia são maiores do que os que se pagam no mercado".

Esta segunda-feira, um estudo do Instituto de Investigação Económica Leibniz, citado neste jornal, demonstrava que a Alemanha "beneficiou claramente com a crise grega, desde 2010," em mais de 100 mil milhões de euros (cerca de 3% do seu PIB).

A fuga, por insegurança, dos investidores de alguns mercados promove a atratividade em outros. Neste balancear inocente, segundo o citado estudo, "as taxas de juro das obrigações do Governo alemão desciam" a cada desaire grego, ou subiam a cada notícia positiva. O equilíbrio orçamental alemão "só foi possível graças às poupanças em taxas de juro por causa da crise de dívida grega". E outros países europeus beneficiaram igualmente desta "crise"...

O mais estranho de toda esta realidade é que tudo parece acontecer em esferas paralelas e não como dois lados da mesma moeda ou sistema. A política financeira procura apresentar-se como a mais singela lógica natural, onde os equilíbrios são consequências ideologicamente inócuas, segundo uma necessidade tão precisa e neutra como a física determinística.

Mas não é assim. Por mais que a dimensão política recue nos discursos tecnocratas que governam a Europa, por mais que se negue a si mesmo como político, o sistema financeiro é uma construção política.

São políticos os muros, as barreiras policiais que procuram conter os milhares de imigrantes que fogem de uma guerra na qual a Europa tem responsabilidades. São políticas as opções de silêncio, o encolher de ombros fatalista, a desculpa da impotência pessoal face à esmagadora grandeza do sistema.

O que a dívida grega custou aos contribuintes europeus não se traduz em euros, mas na perda de dignidade moral do sistema financeiro que implica todos e cada um dos contribuintes!

*PRESIDENTE DO INSTITUTO POLITÉCNICO DO PORTO

IN "JORNAL DE NOTÍCIAS"
14/08/15

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