17/08/2013

JOANA PETIZ

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O chefe tem vida boa? Pense melhor.


E se de repente lhe dessem a chave da empresa e o poder para fazer dela tudo o que quisesse durante seis meses? Com uma condição: ao fim desse período, se tivesse conseguido mudar as coisas para melhor, seria promovido; caso contrário, iria para a rua. Aceitava?

Claro que, para tornar o exercício realista, teria de contar com uma administração omnipresente, a respirar-lhe sobre o ombro, ávida de lhe cobrar cada minuto em que a empresa não apresentasse crescimento. 
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Provavelmente, o seu primeiro passo seria fazer uma avaliação para apurar como estão as contas, que projectos há em marcha, se os recursos estão ajustados às necessidades... Seguir-se-iam as boas notícias para os colaboradores: alterações para agilizar o trabalho, cortes na burocracia e horizontalização da hierarquia, promoções e aumentos há muito merecidos, mudanças radicais para melhorar a qualidade de vida dos colaboradores. Tudo o que sempre desejou ter no seu emprego. Bolas, se a sede da Google em Zurique até um escorrega tem, não pode vir mal ao mundo se oferecer aos seus colegas uma máquina de flippers para aliviarem a tensão! Até, evidentemente, querer trabalhar e estarem todos reunidos à volta da dita a tentar bater o recorde.
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Não acredita, honestamente, que quem lidera tem uma vida santa, pois não? Há as intermináveis reuniões em que será obrigado a justificar à administração cada escolha que faça. Terá de criar e pôr em prática medidas capazes de levar a empresa a crescer. Claro que será sempre responsável por tudo quanto corra mal – mesmo que os seus planos só não tenham resultado porque o fornecedor de sempre declarou falência e fugiu na véspera do dia em que devia entregar uma encomenda vital. E terá de viver com as restrições orçamentais que lhe são impostas.
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O que nos traz às decisões difíceis a que não poderá escapar. Como obrigar a equipa a ficar a trabalhar noite dentro para cumprir um prazo. Ou impor-se aos calões que tentam diariamente passar entre os pingos da chuva enquanto os colegas se matam a trabalhar. Ou ainda, se chegar a isso, escolher quem terá de despedir.
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Conheço quem, confrontado com a ordem de listar todas as pessoas dispensáveis na empresa onde era director de recursos humanos, tenha apresentado apenas com o seu próprio nome. O administrador até sorriu, mas os despedimentos avançaram, na mesma.
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Infelizmente, nem todas as empresas podem ser como a Menlo Innovations, tecnológica americana onde não existem cargos de chefia no sentido tradicional: todas as decisões importantes, incluindo despedimentos, promoções e contratações, são tomadas depois de discussão e votação conjunta. Ou a californiana Morning Star, onde cada passo da gestão e funcionamento da operação de transformação de tomate é dado mediante decisão colectiva. 
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Num artigo da New York Magazine (The Boss Stops Here), o escritor Matthew Shaer levanta uma questão interessante sobre a ideia de uma empresa sem chefes: serão essas estruturas verdadeiramente horizontais ou sobreviverão graças à saliência natural das escolhas dos líderes orgânicos (ainda que estes não tenham um escritório e um cargo a identificá-los)? 
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Há líderes e líderes (muita) gente que nem mandar sabe. Mas ainda acha que o seu chefe tem uma vida boa?

Chefe de redacção adjunta

IN "DINHEIRO VIVO"
 12/08/13

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