07/03/2018

CARLOS FIOLHAIS E DAVID MARÇAL

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Ainda as terapias alternativas: 
um cachimbo é um cachimbo

Cada um tem direito a acreditar no que quiser, inclusivamente em estranhos poderes da mente, não pode é chamar ciência ao que não o é.

Na sequência do nosso artigo “Terapias alternativas: quando as portarias substituem as provas”, surgiu uma resposta de Leonor Nazaré (LN), curadora de arte contemporânea. Nós defendemos que as terapias alternativas, ao contrário do que dizem os seus prosélitos, não têm fundamento científico.

E que o Governo devia exigir provas de eficácia e segurança de todos os tratamentos, em vez de publicar legislação que define conteúdos programáticos de licenciaturas em pseudociências, cujo fito é dar cédulas profissionais a praticantes de terapias fantasiosas. É o equivalente a criar licenciaturas em dragonologia para conferir autentificação profissional a amestradores de dragões. Um tal absurdo contribui para enganar os cidadãos, levando-os a crer que certas práticas têm um fundamento científico que não têm. Se prosseguir pela actual via, o poder político tornar-se-á cúmplice de uma fraude.

O artigo de LN é um catálogo de clichês anti-ciência. A começar pelo relativismo, ou seja, a ideia de que o conteúdo da ciência depende de factores culturais, implicando que verdades incompatíveis oriundas de diferentes culturas seriam igualmente válidas. Para os relativistas, a concordância de cada convicção particular com as observações na Natureza é irrelevante, pois ela deve sempre ser entendida e aceite no seu contexto sociológico. Nessa visão não interessam as provas, não há verdade nem mentira, tudo é relativo.

O matemático e filósofo Bertrand Russell encontrou-se em 1911 com Ludwig Wittgenstein, um influente filósofo do relativismo. Russell tentou que Wittgenstein concordasse com a seguinte frase: “Não há, nesta sala, neste momento, um hipopótamo.” Mas Wittgenstein recusou-se a concordar, mesmo depois de Russell ter espreitado debaixo de todos os móveis. As leis da natureza são as mesmas em todo o Universo e não dependem de quem as propõe, mas sim das provas apresentadas em seu abono.

A divisa da Royal Society, a mais antiga sociedade científica do mundo, ilustra bem o que é a ciência: nullius in verba, que significa “A verdade não está na palavra do mestre”. É por não aceitarem a palavra das autoridades que os cientistas observam e experimentam. E é com base nesse seu trabalho que é possível fabricar telemóveis, aviões e medicamentos.
 
LN evoca a física quântica, que há mais de cem anos tem descrito o mundo à escala das moléculas, átomos e partículas subatómicas. Junta-se assim a Deepak Chopra, Rupert Sheldrake e outros gurus do movimento Nova Era (de Aquário, na lógica astrológica) que usam algumas ideias da física quântica em metáforas nos seus livros de auto-ajuda. LN acredita nessas autoridades.

Os deturpadores da teoria quântica ignoram que, apesar de existirem electrões nos seres vivos, a sua descrição não chega para explicar a vida, cujos fenómenos decorrem noutra escala. Os princípios que regem um electrão não se aplicam ao João! Os ditos gurus fazem extrapolações abusivas, como a possibilidade de se criar realidade apenas com a nossa consciência ou de curar o cancro com o poder da mente. No limite, se morrer de cancro a culpa é sua. Nada disso é física quântica, é palavreado com um ar científico usado sem qualquer significado. Cada um tem direito a acreditar no que quiser, inclusivamente em estranhos poderes da mente, não pode é chamar ciência ao que não o é.

LN saca, sem surpresa, de outro cliché anti-ciência: a quimiofobia. Só que um produto natural é necessariamente um produto químico, e o facto de uma substância existir na natureza não a torna necessariamente segura. Basta pensar no ácido aristolóquico, presente em plantas medicinais usadas há séculos na China, mas que causa insuficiência renal e cancro. Ou, reciprocamente, nos medicamentos sintéticos que todos os dias salvam inúmeras vidas.

Por último, a ciência não é a única das dimensões humanas. O facto de sermos cientistas não nos impede de apreciar a arte. Há pontes a realçar, designadamente o facto de em ciência também existirem critérios estéticos. Hermann Weyl, matemático que ajudou a desenvolver a teoria quântica, afirmou: “O meu trabalho sempre tentou unir o verdadeiro e o belo, mas quando tive de escolher entre um e o outro, escolhi normalmente o belo.” Contudo, há uma diferença essencial entre ciência e arte: a ciência descreve o mundo real de que somos parte, que é só um e cujas leis não dependem da nossa vontade, ao passo que a arte pode criar mundos, que são tantos quantas as obras de arte (Wassily Kandinsky: “criar uma obra de arte é criar um mundo”). Em ciência um cachimbo é um cachimbo, mas em arte não é necessariamente assim. É errado aplicar o pensamento da curadoria da arte à epistemologia da ciência.

*Cientistas e divulgadores científicos, autores do recente livro A Ciência e os seus Inimigos


IN "PÚBLICO"
06/03/18

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