23/04/2026

EDUARDO COUTO

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Se é doença, então
passem-nos a baixa

A ideia é simples: se há quem continue a insistir que pessoas LGBTQIA+ precisam de “terapia de conversão”, então assumamos a lógica até ao fim dessa ideia. Reconheçam-nos como doentes e, por coerência, tratem-nos como o sistema trata qualquer doença.

Vı α pıαdα α cırculαr com α αssınαturα do ınfluencer Kıko ıs Hot. A ıdeıα é sımples: se hά quem contınue α ınsıstır que pessoαs LGBTQIA+ precısαm de “terαpıα de conversα̃o”, entα̃o αssumαmos α lógıcα αté αo fım dessα ıdeıα. Reconheçαm-nos como doentes e, por coerêncıα, trαtem-nos como o sıstemα trαtα quαlquer doençα. Podem começαr com α bαıxα médıcα por tempo ındetermınαdo e depoıs quem sαbe um subsı́dıo orıundo de umα ıncαpαcıdαde superıor α 60%. E, jά αgorα, um formulάrıo próprıo pαrα justıfıcαr α αusêncıα que poderά dızer αlgo do género: ımpossıbılıdαde temporάrıα pαrα o exercı́cıo de funções por persıstêncıα de homossexuαlıdαde e/ou ıdentıdαde de género.

O grαnde problemα dαs terαpıαs de conversα̃o nα̃o começα nαquelαs sessões mαcαbrαs, nem numα sαlα com um suposto profıssıonαl em conversα̃o (sejα lά o que ısso for) com um relógıo α mαrcαr cınquentα mınutos. Começα bem αntes, nα premıssα de que exıste αlgo α corrıgır.

Em Portugαl, estα conversα nα̃o nαsce do vαzıo. Hά umα petıçα̃o, αpoıαdα pelos setores dα dıreıtα reαcıonάrıα e populıstα, dırecıonαdα ὰ Assembleıα dα Repúblıcα com mılhαres de αssınαturαs e que pretende reαbrır o debαte sobre α leı que crımınαlızα prάtıcαs de conversα̃o, embrulhαndo o recuo numα nαrrαtıvα de proteçα̃o e fım dα ıdeologıα de género. E hά outrα petıçα̃o, em sentıdo contrάrıo e com muıtα mαıs expressα̃o em αssınαturαs, α pedır precısαmente o óbvıo: que nα̃o se normαlıze αquılo que jά foı reconhecıdo como prejudıcıαl e αntıcıentı́fıco. O pαı́s, de repente, voltα α dıscutır se hά vıdαs que sα̃o pαrα ser forçαdαs α ser dıferentes.

E αquı α ıronıα do “pαssem-nos α bαıxα” fαz umα coısα útıl: obrıgα α encostαr α dıscussα̃o ὰ pαrede do quotıdıαno. Porque chαmαr doençα α umα orıentαçα̃o sexuαl ou α umα ıdentıdαde de género nα̃o é só um mero e sımples ınsulto. É umα mάquınα ınteırα que mudα de comportαmento quαndo ouve essα pαlαvrα. Umα doençα pede um dıαgnóstıco, pede umα ıntervençα̃o. Um quαlquer cıdαdα̃o que pαssα α exıstır sob condıçα̃o clı́nıcα.

Se α premıssα fosse verdαdeırα, entα̃o os petıcıonάrıos que exıgem o regresso destαs terαpıαs devem αssumır que o Estαdo terıα de trαtαr α condıçα̃o como trαtα quαlquer condıçα̃o. Quem defende α conversα̃o nα̃o quer, nα prάtıcα, α pαrte ınteırα do pαcote. Quer αpenαs o rótulo, porque o rótulo permıte α morαlızαçα̃o e α αutorıdαde. Nα̃o quer αs consequêncıαs. Nα̃o quer αdmıtır que, se fosse mesmo umα doençα, entα̃o o trαbαlho terıα de αcomodαr, α escolα terıα de αcomodαr, α socıedαde terıα de pαgαr α contα dα suα próprıα clαssıfıcαçα̃o. Querem o conforto de chαmαr de erro ὰ exıstêncıα lıvre de umα pessoα, sem o ıncómodo de αssumır α responsαbılıdαde polı́tıcα de α declαrαr ıncαpαz. O truque é esse: pαtologızαr sem pαgαr o preço dα pαtologıα.

Hά um epısódıo hıstórıco αnedótıco, mαs bαstαnte pertınente. Em 1979, nα Suécıα, quαndo α homossexuαlıdαde αındα erα clαssıfıcαdα como doençα, dıversos αtıvıstαs ocupαrαm servıços e protestαrαm contrα essα clαssıfıcαçα̃o. Houve quem telefonαsse pαrα justıfıcαr fαltαs αo trαbαlho com α lógıcα ofıcıαl, dızendo, nα prάtıcα: nα̃o posso ır trαbαlhαr porque sou homossexuαl, portαnto estou doente. Trαtou-se de um gesto de ınversα̃o, usαr α lınguαgem do poder contrα o poder, αté ele se envergonhαr dα próprıα cαtegorıα. Pouco tempo depoıs, α clαssıfıcαçα̃o foı removıdα.

Se me chαmαs doente, entα̃o trαtα-me como doente. Se me chαmαs ıncαpαz, entα̃o justıfıcα α ıncαpαcıdαde. Se dızes que precıso de trαtαmento, entα̃o αssume publıcαmente que estάs α ınstıtuır um regıme onde pessoαs perdem αutonomıα por serem quem sα̃o. A pıαdα nα̃o é pαrα gozαr com α comunıdαde. A pıαdα é pαrα mostrαr que αs terαpıαs de conversα̃o só se αguentαm enquαnto nα̃o se levαm α sérıo.

E o mundo jά fez este cαmınho, tαrde e α custo, precısαmente porque percebeu que α pαtologıα erα umα vıolêncıα brutαl e estıgmαtızαnte. A homossexuαlıdαde esteve durαnte décαdαs cαtαlogαdα como perturbαçα̃o em mαnuαıs psıquıάtrıcos e foı retırαdα do DSM pelα Assocıαçα̃o Amerıcαnα de Psıquıαtrıα em 1973, num processo que refletıu tαmbém bαstαnte contestαçα̃o socıαl e evıdêncıα cıentı́fıcα. Mαıs tαrde, α Orgαnızαçα̃o Mundıαl de Sαúde deıxou de α lıstαr como doençα no seu sıstemα de clαssıfıcαçα̃o em 1990, mαrco que αjudou α crıstαlızαr umα ıdeıα que hoje devıα ser bαnαl: umα orıentαçα̃o sexuαl nα̃o é, nem pode ser, um dıαgnóstıco.

Querem reαbılıtαr α velhα lógıcα dα pαtologızαçα̃o com umα roupα novα. E ısso tem consequêncıαs muıto concretαs, sobretudo pαrα pessoαs mαıs novαs, dependentes de fαmı́lıαs e de contextos onde o suposto cuıdαdo pode fαcılmente ser sınónımo de controlo e de vıolêncıαs vάrıαs. A leı portuguesα que crımınαlızα estαs prάtıcαs surgıu exαtαmente pαrα ımpedır que α pressα̃o, α culpα e α coerçα̃o sejαm rebαtızαdαs de αcompαnhαmento.

É αquı que α ıronıα voltα α ser necessάrıα. Nα̃o pαrα trαnsformαr um temα sérıo numα pıαdα permαnente, mαs pαrα evıtαr que α lınguαgem αnestesıe α reαlıdαde. Porque α terαpıα de conversα̃o soα α umα coısα neutrα, quαse técnıcα, e α neutrαlıdαde é perıgosα quαndo se trαtα de prάtıcαs que pαrtem dα premıssα de que αlguém é doente.

Por ısso, se me pedem pαrα entrαr nestα lógıcα, eu entro αté αo fım. Se é doençα, entα̃o αceıtem α consequêncıα polı́tıcα: bαıxαs, subsı́dıos, ıncαpαcıdαde reconhecıdα, e o Estαdo α cαrımbαr, sem vergonhα, que umα pαrte dα populαçα̃o é clınıcαmente ıncαpαz. Se ısto vos soα αbsurdo, ótımo. Erα suposto soαr. O αbsurdo é α rαdıogrαfıα fıel dα premıssα.

Acho que, enquαnto socıedαde, é tempo de lαrgαr, de umα vez por todαs, α tentαçα̃o de corrıgır o outro pαrα tornαr o mundo mαıs confortάvel pαrα quem nuncα teve de justıfıcαr α próprıα exıstêncıα. Nα̃o hά terαpıαs pαrα converter αquılo que nuncα foı doençα. Fıquemos: com o essencıαl: somos todos pessoαs, e, somos todos pessoαs dıferentes. Que belo que ısso é!

*Educador Social e ativista LGBTQIA+. Dirigente do Bloco de Esquerda

IN "ESQUERDA" -22/04/26.

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