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Sair sem arte
Em 2024 escrevi "A arte de saber sair". Em junho voltei ao tema com versão 2.0. Defendi que o problema não era Ronaldo continuar na Seleção, mas jogar sempre, 90 minutos, como titular indiscutível. Saber sair importa, mas saber sair a tempo importa ainda mais. Não apenas no futebol, mas em tudo na vida.
Os últimos dias acrescentaram um terceiro capítulo: sair sem arte. Ronaldo é, para mim, o melhor jogador de sempre e uma referência para milhões de jovens. Devemos-lhe uma enorme gratidão. Mas a gratidão não pode ser uma dívida eterna. Tudo o que Ronaldo nos deu não lhe garante eternamente a titularidade ou um lugar acima do selecionador.
Aquecer durante meia hora e não entrar é frustrante. Jorge Jesus poderia ter gerido melhor o momento, tendo em conta o ego de CR7. Mas Ronaldo não pode colocar essa frustração acima da Seleção. Não agradecer aos adeptos e abandonar depois o estágio é falhar no exemplo que um capitão deve dar. De alguém com a sua experiência e responsabilidade, esperava-se outra atitude.
Ao longo da vida, todos temos de sair de algum lugar: de um cargo, de um projeto, de uma relação ou de uma fase. Sair bem é compreender que o nosso valor não depende de permanecermos para sempre. É deixar espaço sem destruir o que construímos.
É nos momentos difíceis que se mede a grandeza. Saber sair não é bater com a porta quando uma decisão nos desagrada. É aceitar outro papel e proteger o legado. Servir uma instituição exige, por vezes, deixar de ser o seu centro.
Portugal deve muito a Ronaldo, mas não lhe deve tudo. Se esta foi a despedida, foi demasiado pequena para um gigante
IN "JORNAL DE NOTÍCIAS" -02/10/26 .

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