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a peida é um regalo ... do nariz a gente trata
Cansados de blogs bem comportados feitos por gente simples, amante da natureza e blá,blá,blá, decidimos parir este blog do non sense.Excluíremos sempre a grosseria e a calúnia, o calão a preceito, o picante serão ingredientes da criatividade. O resto... é um regalo
18/10/2026
RAFAEL BARBOSA
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Desobediência Civil
A desobediência civil não é uma anormalidade. Ao contrário, o protesto no espaço público, as palavras de ordem, a pressão da rua, não são mais do que o sinal da vitalidade e liberdade de uma sociedade. A democracia não se esgota no voto. E ainda menos no cano de esgoto em que se transformaram as redes sociais. Isso seria absurdo.
Não vivemos num país ou numa região do Mundo onde a única coisa que há a esperar da vida é uma sucessão de misérias e guerras. Mas também não vivemos no país dos contos de fadas. Não se iludam com as estatísticas e os números agradáveis da macroeconomia. A riqueza per capita pode crescer e esconder, ainda assim, uma desigualdade cada vez mais acentuada.
Há razões mais do que suficientes para protestar por não se poder pagar ou arrendar uma casa, por causa do aumento desmesurado do preço dos combustíveis e do custo de vida, pelos salários mínimos que não chegam ao fim do mês, pelas pensões miseráveis dos mais velhos.
Não é só Luís Montenegro que prefere viver num país sem turbulência. Ninguém quer ser testemunha, nas nossas cidades, do nível de violência e destruição a que assistimos em França. Mas isso não significa que os atos de desobediência civil inicial dos estudantes franceses ou o dos jovens que se juntaram na Praça de D. João I tenham de ser tratados como um ato criminoso.
Há uns anos, cruzei-me com as teorias de John Rawls e Jurgen Habermas, o primeiro por causa do liberalismo, o segundo pela democracia deliberativa. Ambos tiverem em conta o protesto e a desobediência nos seus escritos complexos mas luminosos. O primeiro definiu os pilares que a deviam sustentar: dar visibilidade a uma injustiça, ser pacífica, aceitar as consequências legais e servir como apelo ao sentido de justiça da maioria. O segundo defendeu desobediência civil como uma parte fundamental e até uma salvaguarda da democracia, por ser motor da transformação social.
Habermas recusou conceções legalistas e positivistas do direito, como as que temos ouvido por estes dias a Pedro Duarte, Luís Montenegro ou até António José Seguro. Como escreveu, "uma cultura política madura é aquela que reconhece na desobediência civil um sinal de vitalidade democrática. (...) Quando certos princípios ou direitos fundamentais estão em jogo e parecem ser seriamente contrariados pela legislação ou por um ato do Governo, a desobediência civil é legítima - mais do que isso, é desejável e necessária". Confundi-la com delinquência diminui as democracias e abre caminho ao autoritarismo.
* Jornalista. Director do "JN"
IN "JORNAL DE NOTÍCIAS"- 18/10/26.
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4558.UNIÃO

