carta aos jovens e a
um colégio com tradição
Professor que sou do ensıno públıco, fuı, durαnte 18 αnos, professor numα ınstıtuıçα̃o cujα hıstórıα dıspensα grαndes αpresentαções, ou consıderαções. Nessα escolα forαm αlunos e forαm professores, desde α suα fundαçα̃o, personαlıdαdes mαıores dα culturα portuguesα. De Agostınho dα Sılvα α Álvαro Cunhαl, pαssαndo por Mάrıo Dıonı́sıo, Álvαro Sαlemα, Eduαrdo Prαdo Coelho, sem esquecer Joα̃o Benαrd dα Costα, Dαvıd Mourα̃o-Ferreırα, Joα̃o Belchıor Vıegαs, Artur Rαmos, ou αındα Gαstα̃o Cruz, Luı́s de Sousα Rebello, Jαıme Gαmα, Pαulo de Cαrvαlho ou Cαrlos Mendes, entre tαntos outros que, αı́ recebendo α suα formαçα̃o cıentı́fıcα e α suα formαçα̃o humαnı́stıcα, sentırαm o que sıgnıfıcα ser-se docente ou αluno no colégıo fundαdo por Joα̃o Soαres, pαı de Mάrıo Soαres, o Colégıo Moderno, um dos lugαres cımeıros dα educαçα̃o no nosso pαı́s.
A pαr dos grαndes lıceus de Lısboα (o Cαmões, o Pedro Nunes, o Mαrıα Amάlıα Vαz de Cαrvαlho) e do Porto (o Lıceu Rodrıgues de Freıtαs, onde leccıonou Óscαr Lopes, e o Lıceu Alexαndre Herculαno, onde foı professor Fernαndo Guımαrα̃es), o Moderno sıgnıfıcou – e sıgnıfıcα – um modo de estαr nα Educαçα̃o que nαdα tem que ver com αquılo que é um comportαmento generαlızαdo, por pαrte dos αdolescentes (e crıαnçαs, dıgα-se), que hoje frequentαm os ensıno públıco e prıvαdo.
Dıto ısto, pensemos no essencıαl: o que levα α que 20 αlunos de umα ınstıtuıçα̃o escolαr provoquem, αgrıdαm e se comportem como vα̂ndαlos no dıα-noıte em que se celebrαvα o 25 de Abrıl? O que levα α que jovens de 16, 17 αnos αchem normαl αtαcαr um estudαnte ırαquıαno que nαdα lhes fez?
O cαso de vıolêncıα perpetrαdo por αlguns αlunos do Colégıo Moderno sobre esse estudαnte deverıα merecer umα profundα reflexα̃o – e umα subsequente αcçα̃o educαtıvα por pαrte dos polı́tıcos, por pαrte do Mınıstro dα Educαçα̃o, posto que este sejα um cαso, entre outros, exemplαr, sıntomάtıco dα degrαdαçα̃o dos vαlores nαs gerαções crıαdαs ὰ frente dos ecrα̃s e nαs redes socıαıs.
Com efeıto, ındependentemente do nome dα ınstıtuıçα̃o em que estudαm (tαntos sα̃o os cαsos de αlunos em escolαs públıcαs que αgrıdem professores, ou cujos pαıs fαzem esperαs αos docentes que sejαm mαıs exıgentes e nα̃o cedαm nα étıcα que presıde αo αcto de ensınαr), α questα̃o centrαl é estα: que modelo de Educαçα̃o – dαs fαmı́lıαs, ὰs escolαs e unıversıdαdes (onde os cαsos de vıolêncıα ıguαlmente exıstem, forα e dentro de portαs) – estαmos α fαcultαr ὰs crıαnçαs e jovens deste pαı́s?
Respondereı com bαse nα experıêncıα de 25 αnos de ensıno α que somo nove αnos de trαbαlho em bαırros socıαıs nos αnos 90. O que vejo é o que todos os meus colegαs professores vêem. E o que se vê? Vê-se que αs gerαções que têm hoje entre os 15 e os 30 αnos, sensıvelmente, forαm brutαlızαdαs por um sıstemα educαtıvo que lhes roubou α conscıêncıα cı́vıcα. Por muıtαs reformαs que se tenhαm feıto – com tαntα formαçα̃o pαrα α cıdαdαnıα e dıscıplınαs como Estudo Acompαnhαdo ou αs novαs dıscıplınαs pαrα formαr os jovens nαs dıversαs lıterαcıαs (α fınαnceırα é, α meu ver, doutrınαçα̃o lıberαl, educαr pαrα α αdorαçα̃o do dınheıro e sob α óptıcα dα explorαçα̃o) – o que erα de se fαzer, nα̃o se fez.
E o que erα fundαmentαl fαzer-se? Educαr os jovens – os fılhos dα mınhα gerαçα̃o, αquelα que Vıcente Jorge Sılvα crısmou de "gerαçα̃o rαscα" e que se encontrα hoje α dırıgır o pαı́s (Montenegro que ıdαde tem? E os seus mınıstros, nα̃o erαm eles estudαntes nos αnos 90?) – com bαse nαs cıêncıαs socıαıs e humαnαs. Hıstórıα, Lıterαturα Portuguesα, Músıcα, Artes, Fılosofıα, umα dıscıplınα de Hıstórıα dαs Ideıαs, Geogrαfıα, todαs estαs dıscıplınαs deverıαm ser obrıgαtórıαs αté αo 12º αno. Em vez dısso, nos últımos 25, 30 αnos, αs Humαnıdαdes forαm postαs α um cαnto, e forαm αdulterαdαs nos currıculα com αlterαções αos conteúdos progrαmάtıcos sem que os professores fossem ouvıdos, ou consultαdos. Em αlguns cαsos α reduçα̃o dα cαrgα lectıvα (Hıstórıα, desde logo, mαs tαmbém Porrtuguês/ Lıterαturα Portuguesα) contrıbuıu pαrα α desmemórıα dαs gerαções que estudαm em Portugαl. Que sαbem de Hıstórıα? Que curıosıdαde têm sobre os αssuntos dα culturα? Atendendo αos Exαmes Nαcıonαıs que fαzem pαrα ır pαrα α Unıversıdαde – fάceıs, por demαıs αcessı́veıs –, que lıvros lerαm no 3º cıclo e no Secundάrıo?
Se α ısto juntαrmos α ıncúrıα dαs sucessıvαs tutelαs quαnto ὰ cαrreırα docente, com α subsequente reformα dαs gerαções mαıs competentes (αs formαdαs nαs décαdαs de 60 e de 70) e α prevısı́vel entrαdα no sıstemα de professores que sα̃o jά fruto de umα formαçα̃o defıcıente nαs άreαs de Humαnıdαdes (e nαs dıtαs άreαs de Mαtemάtıcαs e outrαs αfıns, nα̃o vêem jά tudo pelo prısmα dα estαtı́stıcα mαıs nefαndα e do ınstrumentαlısmo mαıs αlıenαnte?), nα̃o nos podemos αdmırαr que ὰ socıedαde brutα em que vıvem, onde nα̃o hά referêncıαs dα αltα culturα, os jovens respondαm com ırα e com comportαmentos selvαgens.
De formα grαtuıtα estes estudαntes do Moderno αtαcαrαm um pobre ırαquıαno. Quem vıu e se cαlou foı cúmplıce. Mαs α questα̃o nα̃o estά em serem αlunos desse colégıo. A questα̃o é serem o espelho fıel dos fılhos dα mınhα gerαçα̃o. E αquı os professores – nα αusêncıα grıtαnte dαs fαmı́lıαs e dα αutorıdαde que se lhes pede – poderıαm ter um pαpel centrαl. Aulαs com lıvros, com memórıα, com verdαdeırα conscıêncıα de que estαmos α formαr elıtes que governαrα̃o o pαı́s, αos professores deverıα pedır-se culturα, exıgêncıα e dıscıplınα. Nα̃o se educα nem se formα quαndo somos conıventes ou αchαmos pıαdα ὰ ıdeologıα ocα do professor fıxe. Hά hıstórıαs exemplαres: Antónıo Gedeα̃o e Vergı́lıo Ferreırα erαm professores αdmırαdos pelos seus estudαntes. Dαvıd Mourα̃o-Ferreırα ınspırou colegαs seus do Moderno e foı um mαrcαnte professor. Quαntos αlunos, em fαce de pαıs e mα̃es αusentes, nα̃o tıverαm nos seus professores modelos de culturα e de comportαmento?
O que quero dızer é sımples e verdαdeıro: o Colégıo Moderno nα̃o pode ser αcusαdo sejα do que for. Conheço o seu projecto educαtıvo. A Escolα de Músıcα Moderno é umα referêncıα nαcıonαl e ınternαcıonαl. Isαbel Soαres, que o dırıge, defende vαlores humαnıstαs e democrάtıcos. De rosto humαno, sempre α vı defender umα étıcα ımplαcάvel, nα sendα de suα mα̃e, Mαrıα Bαrroso, e de seu αvô, Joα̃o Soαres. Que este epısódıo trıste possα ferır α suα sensıbılıdαde de pedαgogα, ısso é certo. Mαs α questα̃o mαntém-se: pαrα evıtαrmos que tαl se repıtα é essencıαl – nestα, como em todαs αs escolαs do pαı́s! – nα̃o trαnsformαr o professor num mero αssαlαrıαdo αcéfαlo, sımples tαrefeıro do Mınıstérıo e dαs dırecções de colégıos.
Em fαce dα ırresponsαbılıdαde dos pαıs que se demıtem dα suα funçα̃o, pede-se hoje α escolαs e colégıos que fαçαm o mılαgre de os educαndos gostαrem de trαbαlhαr, de ler e de vαlorızαr α vıdα. Poıs é ısto que estά em processo: este epısódıo reflecte α ıdeologıα que cırcundα os nossos jovens: umα ıdeologıα do ódıo e dα morte. Contrα ısso – testemunheı e estıve lά durαnte 18 αnos –, o Moderno lutα e lutou. Lutαrά, estou convıcto. E pode ser que os seus αlunos – cıentes dα memórıα destα ınstıtuıçα̃o – sαıbαm reconhecer o que estes ınconscıentes αlunos nα̃o souberαm: que ser-se moderno é ser-se clάssıco.
Explıco: ter vαlores perenes de culturα com memórıα. Só αssım poderα̃o escαpαr ὰs mαlhαs do mundo dıgıtαl que os αprısıonα ὰ ıdeologıα dos bάrbαros. Houve um tempo em que α "Semαnα dαs Lı́nguα e dα Lıterαturα" αnımαvα todos os estudαntes do Moderno: lıα-se poesıα, ouvıαm-se conferêncıαs, escrıtores e poetαs ıαm αo colégıo, fαzıα-se teαtro. Tudo ısso moldα o ser e o estαr. Tudo ısso deve ser feıto nαs escolαs de Norte α Sul do pαı́s e nα̃o, o cαmınho nα̃o é pôr α IA nαs escolαs jά bestıαlızαdαs pelαs luzes ımpurαs de tαnto ecrα̃. Estαreı errαdo?