Há uma coisa que aprendemos muito antes de aprendermos o que é feminismo: aprendemos a ter medo dos homens.
Aprendemos a olhar para trás quando caminhamos sozinhas. A mandar uma mensagem quando chegamos a casa. A partilhar a localização. A não aceitar bebidas de desconhecidos. A pensar duas vezes antes de entrar num carro. A reparar quem está atrás de nós no caminho para casa.
Chamam-lhe prudência.
Mas há uma pergunta que raramente fazemos: porque somos nós que temos de aprender a sobreviver?
Porque somos nós que aprendemos a prevenir a violência, enquanto a sociedade continua a falhar na educação de quem a pratica?
É impossível olhar para o caso que envolve uma estudante da Universidade de Cornell sem fazer esta pergunta.
Em outubro de 2024, uma estudante de 20 anos denunciou uma agressão sexual relacionada com uma noite numa fraternidade Chi Phi. Numa ação judicial apresentada em setembro de 2026, acusa sete homens de violência sexual durante várias horas. Os acusados negam as alegações. A investigação criminal foi entretanto reaberta pelo Ministério Público do condado de Tompkins, que pretende apresentar as provas perante um grande júri.
Não cabe a nós substituir os tribunais.
Mas cabe-nos perguntar por que razão continuamos a viver numa sociedade onde uma mulher pode ser colocada numa situação de extrema vulnerabilidade e, depois, ter de lutar contra uma segunda violência: a violência da dúvida, do silêncio e da burocracia.
O problema não são apenas “sete homens”.
Seria confortável olhar para este caso e pensar que estamos perante sete indivíduos excecionais.
Não estamos.
O problema é muito maior.
Em 2025, 35% das estudantes universitárias que responderam ao inquérito de Cornell disseram ter experienciado contacto sexual não consentido durante o seu percurso na universidade. Entre estudantes ligadas a organizações Greek, a percentagem chegou aos 52%.
Mais de uma em cada três.
Não são números abstratos.
São mulheres.
São estudantes.
São amigas.
São irmãs.
Somos nós.
E quando uma em cada três mulheres relata uma experiência de contacto sexual não consentido, chamar-lhe simplesmente “um problema de alguns homens” é uma maneira conveniente de não olhar para o sistema que permite que estes comportamentos continuem.
A violência sexual não nasce apenas no momento da agressão.
Nasce muito antes.
Nasce numa cultura que banaliza a insistência masculina.
Que transforma a conquista numa competição.
Que ensina aos rapazes que o “não” pode ser negociado.
Que transforma a embriaguez de uma mulher numa oportunidade.
Que pergunta a uma vítima quanto bebeu antes de perguntar ao agressor por que razão não respeitou o consentimento.
Nasce de uma sociedade que durante séculos ensinou às mulheres a serem desejáveis e aos homens a desejá-las.
E depois fingimos surpresa quando o desejo masculino é colocado acima da autonomia feminina.
A nossa liberdade vem sempre com condições.
Existe uma violência particularmente silenciosa que começa muito antes de qualquer agressão.
É a violência de crescermos sabendo que precisamos de ter cuidado.
“Não vás sozinha.”
“Não bebas demasiado.”
“Não aceites a bebida.”
“Não uses aquela roupa.”
“Não voltes tarde.”
“Liga-me quando chegares.”
Quantas vezes ouvimos estas frases?
E quantas vezes ouvimos:
“Ensina os rapazes a respeitar o consentimento.”
“Ensina-os que um corpo não lhes pertence.”
“Ensina-os que insistir depois de um não não é romantismo.”
“Ensina-os que uma mulher inconsciente, intoxicada ou assustada não está a consentir.”
É aqui que o feminismo é indispensável.
Porque o feminismo recusa a ideia de que a violência contra as mulheres seja uma fatalidade individual.
Não queremos apenas aprender a sobreviver melhor.
Queremos deixar de viver num mundo que nos obriga a sobreviver.
Não somos responsáveis pela violência que sofremos.
É uma das mentiras mais antigas do patriarcado: fazer a mulher acreditar que a violência que sofreu poderia ter sido evitada se tivesse feito tudo corretamente.
Se tivesse bebido menos.
Se tivesse ido embora mais cedo.
Se tivesse dito não com mais força.
Se tivesse gritado.
Se tivesse desconfiado.
Se tivesse vestido outra coisa.
Se não tivesse ficado sozinha.
A lista é infinita.
Porque a culpa pode sempre ser deslocada para a mulher quando a sociedade não quer enfrentar o homem.
Mas existe uma verdade muito simples:
A responsabilidade pela violência pertence a quem a pratica.
Não à roupa.
Não ao álcool.
Não à hora.
Não à festa.
Não ao passado sexual.
Não ao comportamento da vítima.
Ao agressor.
E dizer isto não é radicalismo.
É o mínimo.
E as instituições?
É aqui que Cornell se torna também uma questão feminista.
A universidade afirma ter conduzido uma investigação interna e aplicado sanções, incluindo suspensões e expulsões. A ação judicial da estudante apresenta uma versão diferente sobre algumas das medidas aplicadas. Essas diferenças terão de ser avaliadas através dos processos próprios.
Mas existe algo maior do que a disputa sobre cada sanção.
Uma instituição não pode limitar-se a perguntar:
“Qual foi a regra violada?”
Tem de perguntar:
“Que cultura permitiu que isto acontecesse?”
Porque podemos expulsar estudantes.
Podemos fechar fraternidades.
Podemos criar comissões.
Podemos escrever relatórios.
Mas se continuarmos a educar mulheres para evitar a violência em vez de educar homens para não a exercer, estaremos apenas a remendar as consequências de um problema que continuamos a produzir.
O patriarcado não é apenas violência física.
É também a normalização.
É a piada que ninguém interrompe.
É o amigo que diz “ela estava a dar confiança”.
É o grupo de rapazes que transforma mulheres em pontuações.
É a ideia de que insistir é romântico.
É a cultura de fraternidades onde a masculinidade pode ser construída através da humilhação ou objetificação das mulheres.
É o medo que faz uma rapariga mudar de passeio.
É a mãe que entrega à filha as mesmas regras que recebeu da sua própria mãe.
É a menina que cresce a ouvir “tem cuidado com os homens” antes sequer de saber porquê.
O patriarcado não vive apenas nas grandes instituições.
Vive nas pequenas coisas que aprendemos a considerar normais.
E é precisamente por isso que combatê-lo exige mais do que punir indivíduos depois da violência.
Exige mudar aquilo que ensinamos antes dela.
Não queremos proteção paternalista. Queremos liberdade.
Não queremos que os homens “nos protejam”.
Não precisamos de mais homens a dizer-nos para termos cuidado.
Não precisamos de mais pais a acompanhar filhas até à porta.
Não precisamos de mais mulheres a andar com as chaves entre os dedos.
Queremos poder andar sozinhas.
Queremos poder beber sem que isso seja interpretado como consentimento.
Queremos poder vestir o que quisermos.
Queremos poder estar numa festa.
Queremos poder confiar.
Queremos poder dizer não.
Queremos poder dizer sim.
E queremos que ambas as coisas tenham exatamente o mesmo valor.
Isso é liberdade.
E liberdade feminina não significa aprender a circular com segurança dentro de um mundo patriarcal.
Significa transformar esse mundo.
Somos mais do que estatísticas.
Por trás dos 35% estão mulheres que continuam a estudar.
Mulheres que continuam a trabalhar.
Mulheres que continuam a rir.
Mulheres que continuam a apaixonar-se.
Mulheres que continuam a existir.
Mas algumas carregam consigo uma experiência que nunca escolheram.
Algumas nunca contaram.
Algumas contaram e não foram acreditadas.
Algumas denunciaram.
Algumas desistiram.
E algumas ainda estão a tentar encontrar palavras para aquilo que lhes aconteceu.
É por elas que não podemos aceitar o silêncio.
Não porque todas as mulheres tenham de falar.
Mas porque nenhuma mulher deveria ser obrigada ao silêncio para conseguir continuar a viver.
Não nos peçam para sermos menos livres.
Durante demasiado tempo, disseram-nos que o feminismo era exagerado.
Que já tínhamos direitos.
Que as mulheres já eram livres.
Que o problema estava resolvido.
Mas uma sociedade não é verdadeiramente livre quando metade da população cresce a aprender regras para evitar a violência da outra metade.
Não é liberdade dizer a uma rapariga:
“Podes fazer tudo o que quiseres, desde que tenhas cuidado.”
Isso não é liberdade.
É liberdade condicionada.
E nós queremos mais.
Queremos uma sociedade onde uma mulher possa atravessar uma rua à noite sem transformar cada sombra numa ameaça.
Onde uma estudante possa entrar numa festa sem pensar que a sua segurança depende de estar permanentemente alerta.
Onde o consentimento seja tão básico que não precise de ser negociado.
Onde a masculinidade não seja construída sobre poder, conquista e domínio.
Onde a palavra de uma mulher não seja automaticamente colocada sob suspeita.
Onde as instituições não protejam primeiro a sua reputação.
Onde a dignidade de uma mulher não seja uma questão administrativa.
Não queremos aprender a sobreviver melhor.
Queremos viver.
E talvez seja essa a exigência mais radical que o feminismo pode fazer.
Não queremos ser mais cuidadosas.
Não queremos ser mais silenciosas.
Não queremos ocupar menos espaço.
Não queremos baixar a voz.
Não queremos viver com medo.
Queremos a liberdade que nos prometeram.
Inteira.
Sem condições.
Sem asteriscos.
Sem medo.
Porque o nosso corpo não é um território de conquista.
A nossa liberdade não é uma concessão.
O nosso “não” não é o início de uma negociação.
E a violência contra as mulheres não é o preço inevitável de viver numa sociedade.
O patriarcado não é inevitável.
A impunidade não é inevitável.
O medo não é inevitável.
E nós não vamos continuar a ser educadas para aceitar nenhum dos três.