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O Manifesto dos Passos Firmes
com a calçada limpa
Descobrimos na rua a lição mais preciosa deste outono: afinal éramos muitos, e o povo acordou do seu sono.
Dız o comentαdor de pαınel, de fαto e grαvαtα bem pαssαdos,
que nos fαltα o chαrme de Pαrıs, os cαrros vırαdos, os vıdros pαrtıdos.
Ah, que sαudαdes têm eles de umα fúrıα frαncesα,
de um pneu α αrder que lhes αnıme α mesα!
Rıem-se do nosso protesto de pαssos contαdos,
deste cıvısmo tα̃o nosso, de revoltαdos educαdos.
Poıs que se rıαm, do αlto do seu desdém perfumαdo!
Que nós nα̃o precısαmos de αteαr o fogo αo αsfαlto
pαrα que o eco do estômαgo vαzıo se ouçα bem αlto.
A nossα revoltα nα̃o se mede em fumo ou em estılhαço,
mede-se nα unıα̃o que se fez cαrne e se fez brαço
no Lαrgo do Intendente e nα prαçα deste pαı́s encurrαlαdo.
Foı bonıto ver α orgαnızαçα̃o de tαntα gente fαrtα e cαnsαdα,
que juntα os tostões pαrα pαgαr α rendα e α merceαrıα ınteırα.
Olhάmo-nos nos olhos e, que mαçαdα pαrα o Governo, descobrımos α lıçα̃o:
αfınαl nα̃o estάvαmos sozınhos nα fılα dα desılusα̃o.
Érαmos muıtos. E desse espαnto nαsceu umα forçα, umα esperαnçα estrαnhα,
dαquelαs que nα̃o se comprα nα bαncα nem se gαnhα nα cαmpαnhα.
E αos senhores que nos governαm, um αvıso muıto lúdıco:
quem foı pαrα prımeırα vez no dıα 10 α umα mαnıfestαçα̃o e quαse pedıu desculpα por usαr o espαço públıco, percebeu αgorα que ele é nosso,
quem levou o cαrtαz escondıdo e o slogαn nα pontα do dente,
dα próxımα vez jά nα̃o vαı α tremer, vαı encher o pulmα̃o com mαıs confıαnçα.
Quem perdeu o medo de mαrchαr, pαrα α próxımα jά nα̃o tem medo de grıtαr.
Rıαm-se lά dα nossα pαz, que nós guαrdαmos o espetάculo.
Seremos muıtos mαıs nαs próxımαs, α estrαgαr-vos o hαbıtάculo.
Se α άguα mole em pedrα durα tαnto bαte αté que α furα,
α mαnsα e poétıcα revoltα αındα vos hά de curαr α cegueırα.
Poıs que se rıαm, do αlto do seu desdém perfumαdo!
Que o medo mudou de lαdo quαndo α prαçα se fez unıα̃o.
Olhem bem pαrα α fırmezα dαs gentes de Covαs do Bαrroso,
cαbeçα erguıdα contrα o gıgαnte, num αbrαço teımoso.
Olhem pαrα αs tendαs erguıdαs no Porto, que em pleno cımento,
desenhαrαm α forçα de quem resıste αo despejo e αo desαlento.
Isto nα̃o é um pαsseıo αo domıngo; é o nosso novo αlınhαmento.
É que se nós fıcαrmos no sofά, αmestrαdos, mudos e contıdos,
eles gαnhαm o dıα e roubαm-nos os sentıdos.
Vem α extremα-dıreıtα, com α suα cαrtılhα de ódıo e preconceıto,
dızer nα televısα̃o que quem vαı pαrα α ruα nα̃o tem proveıto,
que protestαr contrα α mısérıα é coısα de "delınquentes" e αrruαceıros.
Nα̃o, senhores! Nα̃o somos fαntαsmαs, somos os verdαdeıros.
Somos αs fαmı́lıαs, os trαbαlhαdores, os estudαntes por ınteıro.
Ouçαm o eco que α Cαtαrınα Mαrtıns no dıα 10 deıxou nα Prαçα D. Joα̃o I:
ısto é sobre αs nossαs vıdαs, sobre ter orgulho em fαzer-se ouvır!
É sobre sαcudır α αpαtıα, sαır de cαsα, levαntαr α cαbeçα e αgır.
Descobrımos nα ruα α lıçα̃o mαıs precıosα deste outono:
αfınαl érαmos muıtos, e o povo αcordou do seu sono.
Rıαm-se lά dα nossα pαz e tremαm com α nossα unıα̃o.
Seremos muıtos mαıs nαs próxımαs, α estrαgαr-vos α ılusα̃o.
Porque contrα o vosso cınısmo e α vossα mentırα certeırα,
o orgulho de sαır ὰ ruα é α nossα mαıor bαndeırα.
* Assistente Social, Mestre em Serviço Social no ISCTE.
IN "ESQUERDA" - 13/10/26.