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O medo de se ser mulher
Margaret Atwood escreveu: “Os homens têm medo de que as mulheres se riam deles; as mulheres têm medo de que os homens as matem.” Os números da violência contra mulheres e meninas mostram que este não é um exagero retórico. É uma realidade estatística.
No domingo, 8 de fevereiro, as mulheres votaram maioritariamente mais à esquerda do que à direita. O dado merece reflexão. Quando se anunciam revisões de direitos adquiridos, como a interrupção Voluntária da Gravidez, a pergunta surge com naturalidade: para onde querem mandar as mulheres? Para trás ou para um futuro que consolide direitos e igualdade?
A frase frequentemente atribuída a Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam postos em causa”, não aparece assim formulada na sua obra, mas traduz uma ideia central do seu pensamento: em tempos de crise, os direitos das mulheres são sempre os primeiros a vacilar.
Transformar direitos fundamentais em “ideologia”, relativizar a igualdade ou reduzir a discussão de género a um excesso identitário é uma forma eficaz de despolitizar aquilo que é estrutural. O efeito é conhecido: o papel das mulheres é novamente remetido para a esfera privada, vigiado, limitado ou desvalorizado.
Partimos de lugares diferentes. As mulheres continuam a deter menos poder económico, enfrentam constrangimentos culturais e educativos que incentivam o silêncio, são excluídas de espaços religiosos, onde a autoridade permanece masculina, e nos contextos empresariais continuam a ser avaliadas pelo corpo antes de serem reconhecidas pela competência. Sobre elas recai ainda o peso desproporcionado do cuidado e a responsabilidade pelos falhanços coletivos.
Quando se fala em rever direitos, quando se relativiza a autonomia sobre o próprio corpo, não se trata de um debate abstrato. Trata-se de poder. Trata-se de segurança. Trata-se de vida.
Pensar que Portugal está imune a estas dinâmicas é um erro confortável. A violência no namoro, a normalização do controlo e das proibições, a culpabilização das vítimas e a indulgência social perante agressores mostram que o problema não é exógeno. É estrutural.
Alguns monstros têm nome e rosto. Outros beneficiam de uma cumplicidade silenciosa que os protege.
As mulheres continuam a viver com medo. E o medo, quando é sistemático, não é uma emoção, é uma condição política.
* Jornalista e escritora portuguesa. Estudou História e é mestre em Ciências da Religião. Começou a carreira no semanário O Independente. Tem uma vasta carreira literária que inclui romances, biografias e livros infanto-juvenis. É a editora e curadora da Revista Egoísta
IN "DIÁRIO DE NOTÍCIAS" - 17/02/26 .


