21/09/2026

MARIANA GARRIDO

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Emigração: notas de

um fim de verão

A emigração portuguesa não ocorre num vazio, nem é um simples determinismo, destino ou fado da população. É, sim, consequência de sucessivas escolhas políticas.

Acabo de passar agosto em Portugal, nos lugares que viram nascer e crescer os meus avós, primeiro no litoral Norte, depois na Beira Baixa e, por fim, uns dias na cidade onde eu própria nasci, cresci e estudei, Coimbra.

São dias felizes: fazem-se sardinhadas, comem-se saladas de figos maduros, apanham-se amoras da beira da estrada, passam-se dias longos na praia e tempo com familiares de quem sinto falta o ano inteiro. Quanto aos amigos, aproveito para rever alguns, os poucos que não emigraram também, e os que, como eu, regressam nesta altura.

Em breve farei dez anos de emigração, uma saída que tomei como quase certa desde a adolescência. Embora no dia a dia esta questão não me apoquente, ano após ano faço a viagem de regresso a Bruxelas pensando como seria regressar definitivamente. Essa dúvida ou aspiração é regularmente frustrada pelo alerta de que umas férias bem passadas em Portugal não correspondem à realidade de quem vive e trabalha neste país todos os dias.

Sei bem que aproximadamente um em cada três portugueses não consegue pagar uma semana de férias fora de casa. Sei bem que o preço da habitação em Portugal, entre os mais altos da Europa, é incomportável. Sei bem que o Serviço Nacional de Saúde está a ser progressivamente desmantelado e que a educação pública é todos os dias colocada à prova.

Sei bem que em Portugal, 50% dos trabalhadores tem um salário bruto inferior a 1000 euros e que os aumentos salariais dos últimos anos praticamente não compensam a inflação. Na Bélgica, por exemplo, os salários são atualizados consoante a inflação e existe um movimento sindical forte e organizado em defesa dos trabalhadores, com cerca de 50% dos trabalhadores sindicalizados. Em Portugal ronda os 15%.

Na minha área de trabalho e na minha geração, há ainda mais um fator com grande peso na balança: em Portugal, ainda escasseiam oportunidades laborais interessantes, competitivas e com perspectivas de progressão de carreira. Uma realidade, em muitos setores de atividade, agravada pelo facto de em Portugal os trabalhadores terem mais qualificações do que os patrões.

Penso regularmente como a emigração portuguesa não corresponde às imagens simplistas e caricaturais que dela se fazem. Penso também como a emigração portuguesa não ocorre num vazio, nem é um simples determinismo, destino ou fado da população portuguesa. É, sim, consequência de sucessivas escolhas políticas.

Foi, em tempos, resposta à repressão da ditadura fascista, alternativa ao flagelo da guerra colonial, esperança para quem pudesse aspirar a mais do que sucumbir ao analfabetismo e à pobreza. Assim chegaram, muito antes de mim, muitos portugueses à Bélgica. Hoje em dia, a emigração portuguesa é ainda, e muito, fruto de condicionamentos estruturais. E tal como a debilidade do Estado Providência português se evidencia cá dentro, também a sentimos lá fora, nomeadamente na negligência em relação às comunidades portuguesas, mitigada apenas por algumas iniciativas e financiamento às organizações da diáspora.

Os portugueses que procuram melhores condições de vida e salários lá fora fazem-no porque, como cidadãos europeus, felizmente, dispõem de alternativas à falta de horizontes com que se deparam no seu país. Deve indignar-nos que essas condições continuem a ser aplicadas a quem cá vive, a quem cá ficou. Deve indignar-nos que essas circunstâncias se agravem quando se trata de comunidades imigrantes em posições mais vulneráveis a quem essas, ou piores condições, são impostas. E deve mobilizar-nos a certeza de que outro país, construído com políticas públicas mais justas, mais iguais e acolhedoras, é possível.

Quando penso no meu país, são os momentos que perdi, as paisagens que não vi, as atividades culturais a que não assisti e os pratos que não provei que ocupam o centro dos meus sentimentos. Penso também nas portas que a emigração abriu, imperfeitas, mas mais abertas do que as que encontraria em casa. Tal como a sensação que temos no final do verão, ou aquela que nos oferece uma salada de figos, também esta reflexão é agridoce. E embora esta conversa possa parecer simples nostalgia, quando discutimos emigração, é de política e de políticas públicas que falamos.

* Mestre Erasmus Mundus em Segurança, Intelligence e Estudos Estratégicos, com especialização em paz e conflitos. Trabalha com direitos humanos em Bruxelas.

IN "PÚBLICO"- 15/09/26.

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