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E se Estaline não tivesse
apoiado a partição da
Palestina em 1947?
É impossível responder à pergunta que empresta o título a este artigo. Mas pelo menos podemos dizer que se a votação da resolução 181 tivesse sido diferente, a partição da Palestina não teria sido legal de acordo com a ONU.
O movimento de solidariedade com a Palestina conhece bem a data de 29 de Novembro de 1947, dia em que a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução 181 que consagra a partição da Palestina em dois estados: um estado judaico ocupando 54% do território e um estado árabe com os restantes 46%. O resto da história é bem conhecida: em 1948 o estado de Israel autoproclamou-se e até agora não há estado palestiniano.
Mas do que quase nunca se fala é do processo que culminou nessa votação. A ONU tinha na altura 57 membros: 33 votaram a favor da resolução, 13 votaram contra e os restantes abstiveram-se. Lembrar-se-á quem nos lê que entre os países que votaram a favor estavam a URSS, a Ucrânia, a Bielorrússia, a Polónia e a Checoslováquia, ou seja, a URSS e os países sob sua influência, (à exceção da Jugoslávia que optou pela abstenção)?
Vale a pena acrescentar que essa votação requeria uma maioria de dois terços, ou seja, os votos da URSS e dos seus aliados foram determinantes para a consagração da partilha da Palestina. No ano seguinte, a URSS foi o primeiro país a reconhecer o estado de Israel.
Quem se habituou a ver os partidos comunistas como parte integrante e ativa do movimento pró-Palestina em Portugal e um pouco por todo o mundo, raramente suspeita que nem sempre foi assim. Quem nos lê perguntará: como foi possível Moscovo apoiar a criação do Estado de Israel? E poderá ainda interrogar-se: o que é que isso interessa, se antes e depois, durante décadas, a URSS apoiou a Palestina (tinha inclusive apoiado a grande greve geral de 1936)?
Se é verdade que Estaline ficou bem conhecido pelo taticismo e pelos ziguezagues em matéria de política internacional, esta votação não resultou de um impulso de última hora. Esta história é longa, intrincada e sórdida. Relembrá-la, ainda que brevemente, não é um ajuste de contas, mas sim um exercício útil de memória e de análise. Pare conhecer melhor o passado, evidentemente. Mas sobretudo para perceber e desmontar as armadilhas do campismo.
Tal como o pacto germano-soviético de que nos fala um outro artigo deste número, os efeitos de uma tal decisão tiveram efeitos imediatos e outros de muito longo prazo.
Os judeus, a Rússia e a União Soviética
O império russo e o leste europeu foram pródigos em episódios de antissemitismo durante séculos. A revolução russa de 1917 estabeleceu leis de igualdade de direitos para todos os povos, nações e culturas. Os bolcheviques manifestaram-se sempre contra o projeto sionista e pela igualdades de direitos dos judeus em todos os lugares em que viviam. E apesar da degenerescência da Revolução Russa sob Estaline (retrocesso de direitos e banalização de episódios de antissemitismo declarado, fomentado até pela cúpula dirigente), não se pode dizer que a direção do PCUS se tenha convertido ideologicamente ao sionismo. Aliás, começou por defender a solução de um só estado democrático para a Palestina, com igualdade de direitos nacionais. Por isso, argumento que a deriva do apoio à partilha da Palestina e à criação do estado de Israel terá de ser vista tanto à luz do abandono do internacionalismo, como à de um taticismo em que Estaline era mestre.
Uma lógica campista
Esta história é longa e só poderá aqui ser abreviada. A explicação mais vezes avançada tem sido a geopolítica: a URSS não tinha qualquer influência política na região do Médio Oriente (partilhada sobretudo entre a França e a Grã-Bretanha) e a liderança soviética esperava que a formação de um estado judaico pudesse servir de contrapeso às monarquias regionais (Jordânia, Iraque e Egito), à época ainda alinhadas com o seu inimigo principal, o império britânico. Uma posição tipicamente campista: se o sionismo se opunha à Grã-Bretanha e a URSS também, então a lógica seria fazer uma aliança com os inimigos dos inimigos.
Os contactos (no início secretos) entre o movimento sionista internacional e a direção soviética começaram na realidade pouco depois da assinatura do pacto germano-soviético. Estaline achava que a guerra iria acabar rapidamente e sonhava com o futuro da URSS no pós-guerra. Com a anexação do leste da Polónia, da Bessarábia e dos Estados Bálticos, a população judaica a viver sob domínio soviético passou de cerca de 3 milhões em 1939 para quase 5 milhões em 1940, a que se somavam os cerca de 300 mil refugiados vindos de outros países entretanto ocupados pela Alemanha (Polónia, Roménia e Checoslováquia). Mas tudo se intensificou após a invasão alemã da URSS. Numa altura em que esta se debatia com a necessidade de afirmação diplomática na cena internacional e de angariação de meios para o esforço de guerra, a diplomacia sionista não se poupou a esforços junto da sua congénere soviética para a convencer que seria possível angariar esse apoio nos EUA, através de contributos nomeadamente de judeus americanos, em troca da autorização da migração de judeus do leste europeu para a Palestina. Ivan Maisky, embaixador russo em Londres, foi crucial nesse processo, no qual participou também ativamente Chaim Weizmann, figura central da organização sionista mundial e futuro presidente de Israel. Entre 1948 e 1951, cerca de 300 mil judeus da Europa Oriental (sob controlo soviético) migraram para a Palestina, correspondendo a mais de metade do total de migrantes nesse mesmo período. &
O volte-face da posição soviética é apresentado ao mundo
Com o fim da guerra, aproxima-se também o prazo do fim do mandato britânico na Palestina. A Grã-Bretanha delega na ONU a decisão sobre o futuro. Numa sessão a 14 de maio de 1947, Gromyko, (representante da URSS na ONU) fez um inesperado discurso em que evocou “a desgraça e o sofrimento extraordinário” do povo judeu. “A experiência do passado e sobretudo da Segunda Guerra Mundial demonstra que nenhum país da Europa Ocidental foi capaz de dar ao povo judeu a ajuda necessária para a defesa dos seus direitos, nem sequer a proteção da sua existência”. E acrescenta “isto explica a aspiração dos judeus à criação de um Estado para eles”. Por isso, anuncia que a URSS é favorável “a criação de um estado judaico-árabe unificado”. Mas, acrescenta ”se se demonstrar que as relações entre os judeus e os árabes da Palestina são tão tensas que se torne impossível assegurar a coexistência pacífica entre eles”, então Moscovo apoiará a partição da Palestina em dois estados.
Entre Maio e Novembro de 1947, e depois desta data, a ofensiva sionista na Palestina recrudesceu e as milícias armadas sionistas aterrorizavam a população árabe, levando à Nakba em 1948. A cereja em cima do bolo: uma parte muito significativa das armas usadas pelos sionistas foram fornecidas pela Checoslováquia, obviamente com o beneplácito de Moscovo. Curiosamente, os EUA tinham decretado um embargo de armas a Israel. A partir de finais de 1947 e até 1951, é estabelecida uma ponte aérea entre a Checoslováquia e Israel com vários voos diários fazendo o transporte de armas e munições.
Os efeitos devastadores da posição soviética sobre os partidos comunistas
O Partido Comunista da Palestina, fundado nos anos 1920, tinha uma militância e uma direção política mista árabe e judia e preconizava a existência de um estado democrático com igualdade de direitos para todos os que ali viviam. A dissolução da Internacional Comunista, em 1943, levou à cisão com formação de dois grupos, um grupo árabe e outro judeu. O grupo árabe (NLL-National Liberation League) ficou literalmente em choque com as posições da URSS em relação à partilha da Palestina. Ainda tentou protestar junto de Moscovo, nomeadamente através de cartas, mas foi em vão.
O impacto fez-se ainda sentir em outras latitudes. O Partido Comunista Italiano, por exemplo, que era um partido de massas e o segundo maior partido de Itália, no pós Segunda Guerra Mundial, passou a defender a existência de Israel.
Algumas notas
A história da posição da URSS em relação à Palestina ilustra bem algumas das características do campismo: o abandono do internacionalismo, da defesa dos mais oprimidos e do seu direito à auto-determinação, trocando-os por lógicas taticistas. A Grã-Bretanha era à época a grande potência imperialista na região do Médio-Oriente. Para ganhar influência na região e combater o imperialismo britânico, Estaline optou por se aliar ao sionismo, já que este era a única força capaz de fazer frente e derrotar os britânicos, acabando por ser conivente com a subjugação do povo palestiniano. Numa altura em que as lutas anticoloniais começavam a despontar ou a ser mais visíveis em todo o mundo, Israel estabeleceu-se, a contracorrente, como um colonialismo de povoamento e de limpeza étnica.
É impossível responder à pergunta que empresta o título a este artigo. Mas pelo menos podemos dizer que se a votação da resolução 181 tivesse sido diferente, a partição da Palestina não teria sido legal de acordo com a ONU. Não foram precisos muitos anos para que Moscovo percebesse que afinal Israel iria alinhar com os EUA e com as outras potências ocidentais: o primeiro embate foi a guerra da Coreia em 1950. Mas já não era possível voltar atrás. Os interesses imediatos da direção soviética em 1947 fazem-se ainda sentir 80 anos depois.
IN "Anticapitalista"-Setembro 2026 .

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