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“Deixar um bebé sozinho a chorar
durante a noite é como abandoná-lo”
Helen Ball é antropóloga e especialista em sono do bebé. Nesta entrevista, explica a importância de os pais saberem que é normal os bebés acordarem durante a noite e como é mau não atender ao choro.
Como se interessou pelo sono dos bebés?
Comecei a interessar-me quando era estudante universitária.
Quando tive os meus filhos tudo começou a fazer mais sentido, porque não
pensamos nestas coisas até de facto termos filhos. Quando fiz o meu PHD
estudava macacos em Porto Rico, depois de ir trabalhar para a
Universidade de Durham, o meu campo de trabalho estava tão longe e tinha
as crianças pequenas, decidi que tinha de mudar para estudar algo que
pudesse estudar em casa, perto de casa.
Qual foi a sua premissa?
Estava interessada no comportamento das famílias durante a
noite, em estudar o que as mães e os bebés faziam durante a noite.
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Como
era o seu ambiente de sono, como eram as suas interações durante a
noite, como era a amamentação durante a noite, quão distantes estavam,
como faziam com que tudo isto resultasse para eles, como conseguiam as
mães amamentar frequentemente os bebés e dormir. Eu sabia como eu fazia:
trazia o bebé para a minha cama. Mas, nessa altura, as pessoas
desdenhavam a partilha a cama com os bebés. Pensavam que a maioria das
mulheres não o fazia e eu não acreditava nisso. Aliás, eu achava que a
maioria das mulheres, provavelmente, o fazia e queria descobrir se era
verdade.
E então? O que descobriu?
Que a maioria das mães que amamenta traz os seus filhos para as
suas camas e eles dormem muito nas suas camas. As mães que não
amamentam trazem os bebés para as suas camas menos frequentemente. No
Reino Unido, em média, metade dos bebés acaba na cama dos pais a certa
altura da noite. Mas a amamentação é mesmo distintiva destes padrões.
Estes estudos são uma combinação de dados qualitativos e quantitativos.
No início baseavam-se sobretudo nos relatos dos pais sobre o que estava a
acontecer. Depois, com o equipamento vídeo, pudemos observar o que se
passava no quarto e também trouxemos alguns pais ao laboratório do sono
para medir os batimentos cardíacos, etc.
Mais recentemente os estudos tornaram-se outra vez mais qualitativos e
começámos a perguntar às mães o que fazem durante a noite e porquê o
fazem. Quais são as suas expectativas, que género de desfasamento existe
entre as suas expectativas e a realidade.
Quando se tem
um bebé, uma das perguntas que se ouve é: já dorme a noite toda? Isto
combinado com aqueles casos de bebés que dormem desde muito cedo uma
noite seguida cria falsas expectativas? Porque um bebé que dorme a noite
toda é a exceção e não a regra, certo?
Claro. Creio que é muito interessante esta obsessão cultural
que existe no ocidente; uma obsessão das pessoas que querem saber se os
bebés das outras dormem a noite toda. Mas porque são tão intrometidos?
Porque querem tanto saber isso? No outro diz estava a falar com uma
colega minha que é antropóloga social e estávamos a comentar que os
bebés têm de passar por uma série de ritos para se formarem enquanto
pessoas, adultos por inteiro.
Uma das coisas que eles têm de aprender é,
por exemplo, a controlar os seus órgãos internos, e isso é feito
naturalmente. Ora outra das coisas que tem de ser controlada é o sono. E
parece que estamos a tentar transformar esta coisa, que é muito
biológica, que tem tudo a ver com natureza, numa coisa dominada pela
cultura. Foi esta transição do natural para o cultural que fez com que o
sono seja algo em que toda a gente tem de se meter, ainda que as
pessoas o estejam a fazer da maneira certa e que os seus bebés estejam a
corresponder e a crescer de forma saudável. O que me parece é que
estamos a tentar que os nossos bebés façam isto mais cedo do que é
suposto, e cada vez mais cedo, mais cedo, mais cedo…
Mas
porque acha que isto acontece com o sono? Porque ninguém diz: ah, vou
treinar o meu bebé para ele conseguir andar mais depressa ou mais cedo…
Ah!, mas as pessoas gostam que os seus bebés estejam quietos,
por isso não os vão incentivar a andar mais cedo, porque eles ficam
menos controláveis. O problema é esta ideia de que são os bebés que têm
de se adaptar e integrar nas rotinas dos adultos.
Uma das mães que nós
entrevistámos disse: os meus bebés sempre se adaptaram aos meus horários
e às minhas rotinas. Portanto, existe esta ideia de que os bebés não
devem incomodar os pais, não devem interferir na vida dos pais,
alterando-a… Mas temos outros pais que dizem: os bebés dormem quando
dormem e nós temos de nos moldar e adaptar-nos a isso. Portanto, há
visões muito divergentes sobre este tema.
Mas a corrente
do treino do sono ainda tem peso e está ativa. Cada mês que passa sai um
livro que diz: 10 maneiras de pôr o seu bebé a dormir, faça isto e ele
dorme numa semana, treine o seu bebé em duas semanas.
Acho que aqui no Reino Unido tínhamos isso há uns dez anos.
Havia muitos livros sobre o tema, mas creio que isso agora já acabou e
há pessoas que defendem que os bebés não devem ser treinados para
dormir, porque estas coisas terão consequências traumáticas. Portanto
creio que é capaz de estar pior nuns países que noutros.
Mas o que diria aos pais que estão tentados a experimentar o treino?
A primeira pergunta que eu lhes colocaria é esta: porque pensam
que têm de o fazer? O que se passa com o sono do seu bebé, que os está a
incomodar tanto que eles acham que precisam de fazer o seu bebé passar
por este processo traumático? Porque é traumático para o bebé. E muitas
vezes é traumático para os pais também. Estão a fazer isto porque
precisam de dormir mais, ou porque foram pressionados por outras pessoas
a fazê-lo? Portanto, eu acho que, antes de mais, quereria saber qual a
razão por detrás dessa vontade de treinar o sono do bebé.
Há pais que
são muito vulneráveis às interrupções do sono e que precisam de conter e
controlar o sono dos seus bebés. Mas eu acho que há outras formas de o
fazer, em vez de treinar o bebé. Em vez de ser uma batalha, em que um
lado ou o outro tem de ganhar, pode ser algo que una os interesses dos
pais e dos bebés, fazendo com que se aproximem, harmoniosamente,
tentando encontrar estratégias que funcionem para ambos.
Por exemplo?
Bom, para já, acho que devíamos falar com os pais sobre este
tema antes de os bebés nascerem. Essa é a parte difícil, porque assim
que os pais entram num padrão de treinar o bebé é difícil mudar-lhes as
ideias, mas acho que se falarmos com eles antes de o bebé nascer, sobre
quais são as suas expectativas, sobre o que eles acham que vão ser as
suas noites, assim eles podem pensar quais são as necessidades dos seu
bebé e as suas necessidades e como podem lidar com essas necessidades
antes de os bebés ficarem completamente desesperados e com fome e
desatarem aos gritos.
Depois perceber de que forma podem lidar com as
noites da maneira mais fácil possível para eles, por exemplo, evitando
coisas como ter de descer escadas e fazer biberões a meio da noite e ter
de acordar completamente. Ou seja, fazê-los pensar quais serão as suas
estratégias durante noite, quem o vai fazer, quanto tempo demorarão a
fazê-lo, como vão responder aos sinais do seu bebé, como aprendem a
detetar os sinais do bebé antecipadamente, de forma a que lhe respondam e
que ele vá dormir imediatamente em vez de entrarem numa situação em que
o bebé chora desesperadamente e toda a gente tem de acordar… Creio que
tudo gira em termos de saber reconhecer os sinais do bebé, saber quais
as suas necessidades e saber como responder. Pensar por antecipação.
E talvez baixar as expectativas, não?
Sim, ter expectativas diferentes, expectativas realistas!
Que expectativas realistas devem ter? O que sabemos sobre o sono dos bebés? O que é que acontece habitualmente?
Sabemos que o bebé não vai dormir a noite toda aos três meses.
Isso é certo. E, se por milagre, temos um bebé que dorme a noite toda
aos três meses é altamente provável que ele comece a acordar aos quatro
meses. O sono dos bebés não progride de forma linear, o bebé não vai
dormindo cada vez mais e mais e mais. Às vezes ele dorme, outras vezes
não. O sono do bebé, enquanto ser individual, varia de mês para mês e
comparar o nosso bebé com o bebé de outra pessoa não serve de
absolutamente nada. Porque eles são muito diferentes uns dos outros….
Então temos bebés que dormem 20 horas por dia até bebés que dormem 8
horas por dia. Não há um objetivo comum que devamos ansiar para um bebé
de dois ou três meses. Mas todos os bebés, eventualmente, começam a
dormir durante períodos mais longos. Mas muitos não dormem uma noite
inteira até aos 12 meses.
Ou mais….
Sim. (risos)
É importante aceitar que é assim,
não? Ou seja, ter a tal expectativa realista… É importante dizer às
pessoas que o normal é isto, é os bebés acordarem várias vezes durante a
noite?
Sim, mas mais que isso. Os adultos têm esta ideia de que uma
boa noite de sono envolve ir para a cama, adormecer, ficar a dormir e
não ser perturbado durante a noite. E que só se tiverem um longo período
de sono não interrompido é que tiveram uma boa noite de sono. Mas isso
não é, de facto, verdade. Porque nós podemos dormir o suficiente em
períodos mais curtos, com interrupções, mas achamos que não.
Ajustar
as expectativas é fundamental e se, de facto, nós medirmos o sono de
uma pessoa e lhe perguntarmos quanto tempo ela dormiu normalmente
subestimam a quantidade de sono que tiveram, mas em larga medida!
Especialmente as mães de primeiro filho, subestimam muito o sono que
tiveram.
Portanto, é completamente claro para si que o treino do sono é mau…
Temos de ver o que é isso do treino do sono, porque ele vem em
embalagens bem diferentes. Algumas são muito duras e outras são o que se
chama de gentle sleep training. Acho que aquele treino em que
deixamos o bebé sozinho a chorar, ou o deixamos sozinho durante longos
períodos e não voltamos, e não o confortamos, é muito mau. Porque é como
abandonar um bebé, sendo que o bebé não sabe que não foi abandonado. E,
por isso, os seus níveis de stress vão subir imensamente.
Agora,
se a mãe e o pai acham necessário treinar o bebé para que não acorde
tantas vezes durante a noite — e é importante saber que fazer isso terá
impacto na amamentação — se acham que têm mesmo de fazer isso pela sua
sanidade, ou outra coisa qualquer, então seria bom saberem que há outras
variantes do treino do sono onde os pais ficam ao pé do bebé, confortam
o bebé em vez de saírem do quarto, não o pegam ao colo, mas tocam nele,
acalmam-no. Ou pegam-lhes ao colo, acalmam-nos e depois deitam-nos
outra vez. Há uma panóplia de coisas.
Outro dos temas do sono dos bebés é: onde dorme o bebé?
Mas porque razão isso é sequer um tema? Alguém tem alguma coisa a ver com isso?
Isto é algo muito cultural, não é?
A maioria das pessoas no Reino Unido têm os bebés no seu quarto
nos primeiros meses. Uma boa parte delas não os deixam até aos seis
meses, ao contrário do que é altamente aconselhável, que eles fiquem no
quarto dos pais pelo menos até aos seis meses. Muitos mudam os bebés por
volta dos três meses, porque acham ou que o bebé os incomoda, ou porque
já é grande demais, acham que seis meses é muito tempo, ou porque
simplesmente montaram um lindo quarto e querem usá-lo.
Os pais, os
homens, são os primeiros a insistir que o bebé tem de sair do quarto.
Costumo falar nas minhas palestras sobre os bebés humanos, sobre quão
pouco desenvolvidos os bebés humanos são quando nascem. E, na verdade,
durante os primeiros três ou quatro meses é como se eles estivessem a
terminar a gestação.
É o chamado quarto trimestre da gravidez…
Sim. Portanto, colocar o bebé num quarto separado significa pôr
completamente de lado, ignorar, esta ideia de que eles ainda são
incapazes de manter a sua termorregulação, o seu ritmo cardíaco… A sua
fisiologia ainda não se desenvolveu o suficiente para que eles estejam
no ponto de serem independentes. Portante, parece-me muito duro, muito
severo, colocá-los num quarto separado durante a noite, durante oito
horas, e esperar que eles consigam lidar com isso.
E o co-sleeping? O que acha disso?
Bom, creio que se não é daquelas pessoas que tem comportamentos
de risco então o co-sleeping é uma coisa completamente normal e o seu
bebé não vai estar em risco por estar a fazer isso. Há uma pequena
percentagem de pessoas e bebés para as quais o co-sleeping é um risco.
Sabemos quais são esses riscos e eles têm a ver com o comportamento
parental.
Por exemplo?
Fumar durante a gravidez, fumar quando se tem um bebé, beber
álcool e adormecer com o bebé e dormir com o bebé em sofás. Há também
alguns bebés que têm vulnerabilidades que desaconselham o co-sleeping,
como bebés prematuros, alguns bebés que têm problemas cerebrais. Mas é
uma percentagem mínima, a grande maioria dos bebés lida muito bem com o
co-sleeping. Eles estão desenhados para estarem em contacto com as suas
mães.
Há pessoas que têm receio de se virarem durante a
noite e caírem em cima do bebé e por causa disso dizem que não dormem
bem com o bebé na sua cama…
Não dormem? Aposto que dormem bem. E aposto que não vão rolar.
E o que responde aos argumentos de que o co-sleeping vai afetar a autonomia das crianças?
Onde estão esses estudos que dizem que colocar um bebé a dormir
sozinho o vai tornar mais autónomo? Acho que não há nenhum. Não há
evidência cientifica, é um mito. Não há evidência de que os bebés que
dormem sozinhos são mais independentes ou mais autónomos quando crescem
do que bebés que dormiram com os seus pais.
Instintivamente todas as mães querem os bebés junto delas, não?
Sim, instintivamente o que queremos é proteger o nosso bebé.
Portanto, queremos que ele esteja onde o possamos ver e o possamos tocar
para sabermos que ele está seguro.
A ideia que eu tenho é
que, quando falamos com as pessoas que conhecemos e que têm bebés, elas
fazem disto quase um segredo. Porque se formos ver, toda a gente dorme
com os bebés na cama, pelo menos de vez em quando, ou metade da noite…
Sim, completamente. É estranho, porque parece que é algo que toda a gente sente que deve esconder.
Mas porquê? Não seria mais fácil assumir isso como algo normal, em vez de achar que é normal os bebés dormirem a noite inteira?
Sim, é verdade.
Como é que chegámos a este ponto, aqui no ocidente?
Eu creio que, se analisarmos isto do ponto de vista cínico, tem a ver
com o sistema patriarcal. Com os homens terem de assumir controlo sobre
tudo.
Acha mesmo?
(risos) Começou nos anos 20. Houve alguns pediatras homens e
psicológicos do comportamento que pensavam que sabiam tudo sobre
parentalidade e decidiram que iriam ensinar as mulheres a criar os seus
bebés. Foi quando começaram a aparecer os guias para pais. É a
supremacia do macho, é a sociedade patriarcal na qual as mulheres
precisam de ser ensinadas a não serem demasiado indulgentes, não serem
tão emocionais em relação aos bebés. Foi um esforço de controlo sobre as
mulheres e sobre as crianças. Do ponto de vista sociológico é tudo
sobre poder, tudo gira em torno do poder.
Há uma altura em que de facto as crianças deviam dormir a noite toda?
Depende de cada criança, mas a maioria parece começar a dormir a
noite inteira por volta dos seis meses, uma ou outra noite, não todas
as noites. Vai depender se mamam, se os dentes estão a nascer… Há tantas
coisas que são disruptivas do sono no primeiro ano ou nos primeiros
dois anos…
A ideia de que, quando eles começam a fazê-lo, vão continuar a
fazê-lo, e não pararão e nunca mais vão acordar durante a noite, é
completamente irrealista, porque há muita coisa a acontecer nos seus
corpos e no seu cérebro que os vai fazer acordar a meio da noite. Ao
longo do tempo, gradualmente, eles vão dormir mais e mais, quando mais
nada estiver a acontecer. Mas, quando algo está a acontecer, isso vai
fazê-los acordar. Temos de aceitar que, durante os primeiros dois ou
três anos, acordar durante a noite faz parte da paternidade. Faz parte.
Quando eles tiverem 15 anos vamos ficar aborrecidos com o tanto que eles
dormem!
Também há aquelas crianças que, apesar de
dormirem a noite toda, têm dificuldade em adormecer, querem que o pai ou
a mãe estejam ao seu lado. Como devemos lidar com isto? Ficamos lá?
Sim, isso é o que eu fazia, ficava lá. Esperava que eles
entrassem num sono profundo e depois saía devagarinho. Se eles
precisavam que eu estivesse lá para relaxarem o suficiente, de forma a
adormecerem tranquilamente, então eu ficava lá. Não vejo qualquer razão
para que tivesse de os forçar, de que forma seja, a adormecerem
sozinhos, para ficarem aterrorizados e depois dormirem mal, porque não
conseguiram relaxar e adormecer. Há todo o tipo de coisas estranhas a
acontecer na cabeça das crianças pequenas. Eles veem monstros em todo o
lado, por exemplo, portanto, se eles precisam do nosso conforto, isso
faz parte do nosso trabalho enquanto pais, dar-lhes esse conforto.
* Quem sabe, sabe, pais aprendam.
IN "OBSERVADOR"
19/10/16
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