03/07/2011

30- ILUSTRES PORTUGUESES DE SEMPRE »»» amália rodrigues



QUANDO TUDO ACONTECEU...

1920: Nasce em Lisboa no Bairro de Alcântara a 1 de Julho (data escolhida por Amália porque nos registos consta o dia 23). - 1929: Entra na Escola Oficial da Tapada da Ajuda, onde terminará a instrução primária. - 1934: Trabalha como bordadeira, engomadeira e tarefeira. - 1935: Desfila na Marcha de Alcântara e canta pela primeira vez, acompanhada à guitarra, numa festa de beneficência. - 1938: Representando o Bairro de Alcântara participa no Concurso da Primavera. - 1939: Estreia-se como fadista no Retiro da Severa. - 1944: A estada no Brasil, prevista para seis semanas, estende-se por três meses. Actua no Casino de Copacabana. - 1945: No Brasil grava os primeiros dos 170 discos (em 78 rotações) da sua carreira. - 1947: É protagonista no filme «Capas Negras», batendo todos os recordes de exibição ( 22 semanas em cartaz no Cinema Condes). - 1948: Recebe o prémio do SNI (Secretariado Nacional de Informação) para a melhor actriz, pelo seu papel em «Fado», filme de Perdigão Queiroga. - 1949: Actua pela primeira vez em Paris e Londres. - 1951: Digressão a África: Moçambique, Angola e Congo. - 1952: Actua pela primeira vez em Nova Iorque no La Vie en Rose, ficando 4 meses em cartaz. Assina contrato com a editora discográfica Valentim de Carvalho, que passa a gravar todos os seus discos. - 1953: É a primeira artista portuguesa a cantar na televisão americana no programa «Eddie Fisher Show». - 1954: Edita o primeiro LP nos Estados Unidos. Actua no Mocambo, em Hollywood. - 1955: Interpreta a «Canção do Mar» e o «Barco Negro» no filme de Henri Verneuil «Os Amantes do Tejo». Filma no México «Música de Sempre» com Edith Piaf. - 1957: Estreia-se no Olympia em Paris e começa a cantar em francês. Charles Aznavour escreve para ela «Ai, Mourrir pour Toi». - 1961: Casa no Rio de Janeiro com o engenheiro César Seabra com quem vive até à morte deste em 1997. - 1962: Lança o disco «Asas Fechadas» e «Povo que Lavas no Rio» do poeta Pedro Homem de Mello. - 1966: Actua no Lincoln Center (Nova Iorque) com uma orquestra sinfónica dirigida pelo maestro André Kostelanetz. - 1967: Recebe em Cannes, pela mãos do actor Anthony Quinn, o prémio MIDEM (Disco de Ouro) para o artista que mais discos vende no seu país, facto que se repete nos dois anos seguintes, proeza só igualada pelos Beatles. - 1970: Actua em Tóquio, Nova Iorque e Roma e recebe uma alta condecoração francesa.
 - 1975: Regressa ao Olympia em Paris. - 1976: É editado pela UNESCO o disco «Le Cadeau de la Vie» em que figura ao lado de Maria Callas e de Jonhn Lennon. - 1977: Canta no Carnegie Hall de Nova Iorque. - 1985: Volta a cantar no Olympia de Paris. Dá o primeiro concerto a solo no Coliseu dos Recreios de Lisboa. - 1989: Comemora os 50 anos de carreira com uma exposição no Museu do Teatro em Lisboa. - 1990: Dois grande espectáculos: Coliseu dos Recreios e no S. Carlos onde, pela primeira vez em 200 anos, se ouve cantar o fado. - 1994: Actua pela última vez em público no âmbito de Lisboa, Capital da Cultura. - 1995: É operada a um tumor no pulmão. Edita o seu último disco «Pela Primeira Vez». - 1998: É lançado o disco O melhor de Amália, muito aclamado pela crítica internacional. É homenageada na Expo 98. - 1999: A 6 de Outubro morre em Lisboa, na sua casa na Rua de S. Bento.

PORTUGAL: RURAL, POBRE E ATRASADO

No princípio do século XX Portugal tem cinco milhões de habitantes. 
Rua do Cais de Santarém - (1907) Foto de Joshua Benoliel ( Já em tempo mais pacifico, inicio do século XX, no "CHAFARIZ DE EL-REI" crianças aguardando a sua vez para encher as suas bilhas) in ILLUSTRAÇÃO PORTUGUESA de 25.03.1907
É um país essencialmente rural, pobre e atrasado. Quarenta mil portugueses emigram por ano. A taxa de analfabetismo ronda os 70%. A 5 de Outubro de 1910 Portugal torna-se numa das primeiras repúblicas da Europa. O novo regime mobiliza o país e apaixona a opinião pública. Escolas e educação, prioridade. A legislação consagra os novos direitos de liberdade e cidadania. A prática do exercício desses direitos engendra grandes contradições. Comportamentos restritivos e repressivos da parte do Partido Republicano no poder.
Portugal participa na I Guerra Mundial (1914 -1918). Agravamento das tensões dentro da sociedade portuguesa estão na origem da Ditadura de Sidónio Pais. Em 1917 Portugal sofre o desastre da batalha de La Lys, em França. Agudizam-se as tensões entre a sociedade urbana, em vias de industrialização e o mundo rural tradicional e arcaico. Em Fátima, três miúdos afirmam ter visto Nossa Senhora em cima de uma oliveira. Em Lisboa, na Estação do Rossio, Sidónio Pais é assassinado a 14 de Dezembro de 1918. Bento Gonçalves, dirigente anarco-sindicalista, visita a Rússia durante a revolução bolchevista. Em 1921 fundará do Partido Comunista

Em 1920 a Igreja recusa a imagem de Nossa Senhora de Fátima do escultor Teixeira Lopes pela sua sensualidade. Nas faldas da Serra da Gardunha, um tocador de cornetim é cobiçado pelas duas bandas do Fundão: «música nova» e «música velha». A vida de músico é insegura, ele tem que assegurar o sustento dos quatro filhos e da mulher novamente grávida. É sapateiro, mas por causa do cornetim, poucos sapatos fizera. Sai dos confins da Beira Interior e resolve tentar a sorte na capital. É o tempo das cerejas (Maio e Junho) e em Lisboa, na Rua Martim Vaz, a mulher dá à luz uma criança do sexo feminino: Amália da Piedade Rodrigues. A vida está má e o sapateiro-músico não arranja trabalho. Voltam todos para o Fundão mais pobres do que nunca. Excepto Amália que, com 14 meses, fica em Lisboa com os avós.

«CANTA ESSA, CANTA ESSA QUE JÁ PARARAM SEIS...»

Amália é a quinta filha de uma prole de nove irmãos. 
Vicente e Filipe, os mais velhos. A mortalidade infantil é grande e a pneumónica alastra: José e António, ainda meninos, morrem. Depois de Amália nasceram mais quatro meninas: Celeste, mais nova dois anos; Aninhas que morre aos dezasseis anos; Maria da Glória que logo morre e por fim, Maria Odete.

3 de Dezembro de 1923. Em Manhattan, bairro de Nova Iorque, nasce Maria Callas, filha de emigrantes gregos. Amália não tem brinquedos, mas sabe duas ou três cantigas. Os vizinhos pedem-lhe que cante e enchem-lhe as algibeiras do bibe com rebuçados e moedas. Duas meninas que irão pôr em causa o que há muito está estabelecido. Duas vozes singulares, dois marcos entre o «antes» e o «depois»: uma sê-lo-á na interpretação da Ópera; outra na interpretação do Fado. Enfim, duas renovadoras.

Golpe militar de 28 de Maio de 1926. A República parlamentar, derrubada. O novo regime começa por limitar a liberdade de expressão e associação – a censura! Ilegalização progressiva de partidos e sindicatos. Ascensão de Salazar - de ministro das Finanças a Presidente do Conselho. Amália é uma rapariguita tímida. A única pessoa que consegue que ela cante é o avô. Amália dentro de casa, sem ser vista, canta tangos de Carlos Gardel e muitas outras coisas. Sentado à janela o avô conta as pessoas que param para a ouvir: «Canta essa, canta essa que já pararam seis».

Amália tem quase nove anos e a avó, analfabeta, manda-a para a escola da Câmara, na Tapada da Ajuda. No caminho come figos de piteira e rouba florinhas para levar à professora. Gosta tanto da escola que nada a impede de ir, nem mesmo a sua bronquite asmática. Em casa é que não quer ficar! Adora a escola onde o tempo é dela e da sua fantasia. Ali ninguém a manda limpar o pó, nem lavar a loiça ou esfregar o chão. 
 Aprende as lições de ouvido e chamam-lhe «sabichona». Mas uma coisa não lhe entra na cabeça: Geografia! A professora insiste para que ela compre o livro – o seu primeiro livro. Quando mais tarde é obrigada a comprar outro, a avó perguntar-lhe á: «Aquele ainda está novo, para que queres outro?».
Na escola da Câmara é obrigatória a bata branca por cima do vestido. Lá vai Amália a caminho da escola e, por entre o arvoredo, o cântico dos pássaros dilata o espaço. Encontra uma rapariga toda rota, ainda mais pobre do que ela. Tira o vestido que traz por baixo da bata e dá-lho. Quando chega a casa, a avó diz-lhe para tirar a bata para lavar. Finge um ar admirado e atrapalhada diz: «Ai! Perdi o vestido!». «Olha a fidalga, a dar vestidos!» exclama a avó entre tabefes.

Faz o exame de instrução primária e, como todas as meninas, leva o seu vestido novo que lhe fica muito bem. É de crepe-da-china azul turquesa às pregas, feito pela primeira vez numa modista. Depois do exame nunca mais o há-de vestir porque ficará a aguardar uma outra ocasião importante… Entretanto cresce. Tem doze anos e para ela a escola acabou!
Como é hábito da gente pobre, grandes e pequenos contribuem para o sustento da casa. Aprender um ofício, impõe-se. Ofício de bordadeira, escolhe. Ganha dois escudos por dia. O dinheiro não chega para o bilhete do eléctrico. De manhã cedo galga ruas e ruelas a pé, da Ajuda às Escadinhas do Duque, perto do Chiado. Dias e meses a passar a ferro... Bordar? Nicles! Como nada aprende, a avó não quer que ela continue. Uma tia é encarregada numa fábrica de bolos e rebuçados, na Pampulha. Embrulham-se rebuçados, descascam-se marmelos e outras frutas. É preciso gente. Amália ganha agora seis escudos por dia e quanto mais descascar e embrulhar, mais ganha.

«NUNCA NOS REVOLTÁMOS COM A VIDA»

Tem 14 anos feitos. Resolve ir viver com os pais e irmãos que regressaram a Lisboa. Em casa da avó as coisas eram organizadas. Passa a viver numa confusão maior. Casa pequena para tanta gente, um casal e os seus cinco filhos. 
É preciso disciplina. Como é costume das gentes da Beira Baixa, as hierarquias são para se respeitar. O irmão mais velho é que quem manda, é quem bate. Bastantes bofetadas apanha por cantar na rua - ela que tanto gosta de cantar. As raparigas nada podem fazer sem a sua autorização. Amália ,como filha mais velha, tem que ajudar a mãe na lida da casa. Passa as calças e as camisas dos irmãos, tira nódoas dos fatos domingueiros. Todos os dias leva o almoço aos irmãos à tasca o “77” em Alcântara, onde eles só consomem vinho para poderem usar as mesas.
A avó, uma mulher áspera que dera à luz 16 filhos, tem agora vários netos. Junta a família toda aos Domingos. Cada um leva qualquer coisa para o almoço e jantar. Bem dispostos, os mais velhos cantam coisas da terra, cantigas da Beira Baixa. Os mais novos o fado.

O fado tem pouco mais de um século. É uma manifestação urbana dos bairros populares e operários de Lisboa. Com o advento da Rádio e do disco, as vozes das fadistas Ercília Costa, Ermelinda Vitória, entre outros, chegam directamente a um público mais vasto.

No Cais da Rocha a mãe monta uma pequena banca de fruta. Amália deixa a fábrica da Pampulha para ajudar a mãe. No meio do burburinho geral, do colorido das frutas e das hortaliças, ecoam os pregões - pequenas melodias ancestrais - memorial rural das gentes da Beira Baixa, Trás-os-Montes, Minho.

Tão pobres são que o seu grau de pobreza é para eles coisa natural. Ninguém se lamenta. É o fado da gente pobre. Se está frio, à braseira ficam. Se chove em casa, alguidares, tachos e panelas no chão espalhados, apanham a chuva. Se estão a dormir e a água cai, um último recurso é fugir para o lado, «e dentro do cobertor saltava ainda uma pulga!» - escreve nas suas memórias a própria Amália: «Mas nunca nos revoltámos com a vida. Com certeza, que havia pessoas diferentes de nós, senão não havia revoluções. Mas nuca ouvi sequer falar dessas coisas. Os privilegiados é que falam dessas coisas, não são os pobres. E no fundo entre os pobres também há diferenças de classe. Éramos gente à margem».

Aos sábados descobre o cinema nas reprises do Alcântara, que apresenta filmes muito depois de terem sido estreados nas principais salas de Lisboa. Vê a Dama das Camélias com a Greta Garbo (Camile 1937). Bebe vinagre e põe-se nas correntes de ar, para ficar tuberculosa como a sua heroína. Ser artista é o seu grande desejo. Tem dezasseis anos e a sua inseparável irmã Celeste catorze. Resolvem fugir num barco, clandestinas, mas vestidas de homens, para ninguém se meter com elas. Vestem os fatos dos irmãos. São seis da manhã…passado meia hora já estão novamente em casa.
Em 1938 representa o Bairro de Alcântara, onde vive, no Concurso da Primavera em que se disputa o título de Rainha do Fado. Canta aqui e ali, cantigas tradicionais e danças rurais, do vira ao malhão, bem como as marchas populares nas festas dos santos populares de Lisboa, organizadas pelas colectividades de Cultura e Recreio com cujo espírito se identificará sempre. Conhece o guitarrista e torneiro mecânico Francisco Cruz por quem se apaixona. Tenta o suicídio por desgosto de amor.

«PORQUE O FADO NÃO SE CANTA, ACONTECE»

Guernica é bombardeada. Península Ibérica, ditadura. Em Portugal, Salazar continua. Em Espanha, Franco começa. Hitler, a Polónia invade. O Estado Novo cria a carteira profissional de fadista, sem a qual os fadistas não se podem apresentar em público. O fado salta das ruas e vielas de Lisboa, dos retiros e casas de pasto tradicional para as chamadas «casas de fado» como o Solar da Alegria, o Retiro da Severa, o Luso destinado a um público sofisticado e burguês, com poder de compra.


É precisamente numa desta casas, o Retiro da Severa, que em 1939 Amália faz a sua estreia profissional. No ano seguinte actua no Solar da Alegria, como artista exclusiva com repertório próprio. Estreia-se no Teatro Maria Vitória, na revista «Ora vai tu» personificando a fadista vestida com xaile negro. Casa-se com Francisco Cruz, o torneiro mecânico e guitarrista amador.

A jovem Amália impressiona todos. Canta com intensidade dramática o fado porque «o que interessa é sentir o fado. Porque o fado não se canta, acontece. O fado sente-se, não se compreende, nem se explica».

Durante os anos de guerra uma parte da burguesia lisboeta vive os anos loucos. Os intelectuais, indignam-se. Democratas tomam partido dos que na Europa combatem a besta nazi. Salazar, vacilante. Espiões de ambos os lados - aliados e nazis – disputam as noites lisboetas, nos cabarés e nas casas de Fado.

Divorciada a seu pedido, Amália tem 23 anos. É independente, jovem e divertida. Ganha bem e sente-se bem em Lisboa. A vida é uma festa. Restaurantes, boites, espanholas e refugiados, cruzam-se. Quando canta ao público agrada. Canta tudo o que está na berra. Dança tudo o que está na moda: passodobles, tangos, sambas, valsas. Todos lhe fazem a corte. Leva o público das casas de fado atrás dela, de um lado para o outro, do Negresco para o Tokai, para o Nina.

Em 1943 estreia-se com grande sucesso no estrangeiro em Madrid, a convite do embaixador português. Começa o seu sucesso internacional. Em 1944 está no Brasil. Delírio! A sua estada, prevista para seis semanas, estende-se por três meses e grava, em 78 rotações, os seus primeiros discos.

Em 1945 o nazismo, derrotado. A oposição ao ditador Salazar, transgride. Reuniões, manifestos, abaixo-assinados. Surge o Movimento de Unidade Democrática. Lopes-Graça e os poetas Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, João José Cochofel (entre outros) fazem as «Heróicas» para serem cantadas nas ruas de Lisboa. A grande ilusão…
Em 1949 António Ferro é uma espécie de ministro de Salazar para a cultura. Tem o apoio artístico do sector modernista nacionalista, entre os quais se destaca Almada Negreiros. Amália já fizera grande sucesso no Brasil e em Madrid. Os seus discos são vendidos em 16 países. Pela primeira vez vai a Londres e a Paris a convite de António Ferro, que considera Amália uma grande artista e mulher inteligente. Sempre que é necessário abrilhantar as recepções governamentais pede-lhe que esteja presente para cantar e encantar: «Achava que eu era melhor toalha que tinham em casa mas nunca me ajudou a ser a Amália Rodrigues». Nunca ninguém do governo a elogiou. A única pessoa que sempre a tratou com respeito foi realmente o António Ferro. Salazar sempre que a ela se referia, chamava-lhe a criaturinha .
«Sociedade repressiva, mesquinha e tacanha!» clamam os da Oposição. As tertúlias nos cafés de Lisboa são o reduto da desobediência. A irreverência e a laracha são as grandes formas de exprimir a opinião sem rodeios sobre os estado de coisas em Portugal. Neo-realista e surrealistas confrontam-se ideologicamente. Em 1953 os surrealistas portugueses, tendo à cabeça o poeta Mário Cesariny, publicam o manifesto A Afixação Proibida. Os então neo-realistas Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira publicam respectivamente O Fogo e as Cinzas e Uma abelha na chuva.

«PODIA TER SIDO MUITA COISA 
SE NÃO FOSSE AQUILO QUE SOU»

Em 1950 organizam-se vários espectáculos de apoio ao programa económico para restaurar uma Europa em ruínas. É o célebre plano Marshall. Na cidade martirizada de Berlim, os primeiros espectáculos. Participam todos os países que aderiram a este plano americano. A escolha recai sobre cantores de música clássica, mas Portugal não tem cantores líricos de nomeada. Amália é a única artista portuguesa conhecida: «Como ouviram alguns discos meus preferiram escolher-me». Canta os poetas portugueses Pedro Homem de Mello e David Mourão Ferreira. A Irlanda, país onde a música popular tem fortes raízes, é também representada por cantores ligeiros.
Em Roma Amália quebra um tabu. Canta no Argentina, um teatro de Ópera. Neste espectáculo participa a cantora lírica Maria Caniglia, o violinista Jacques Thibault e o tenor Fiorenzo Tasso, acompanhados por uma orquestra sinfónica. O contraste é grande. Amália é a única cantora ligeira. Treme como varas verdes. Está sozinha com a guitarra portuguesa de Raul Nery e a viola de Santos Moreira: «Três gatos pingados que não sabiam nada de música a tocarem ao pé de uma orquestra sinfónica, enorme!». Quando entra no palco tem uma tal cara de medo, que nas primeiras filas pessoas olham-na com ternura: «Acho que tive o público comigo, ainda antes de começar». 
 O sucesso é grande. Sai do palco, começa a rir e a chorar ao mesmo tempo. «Tive o único chilique da minha vida. Era tudo no palco com leques, à minha roda, a dizerem. Perchè píangere? Un sucesso! Un trionfo! Perchè píangere? E eu ao mesmo tempo chorava, ria, ria. Foi um tal medo…porque os fadistas dantes tinham muito mais complexos de inferioridade do que agora. Eu é que tirei os complexos ao fado. Nessa noite, sem querer, consegui muito. Foi um espectáculo extraordinário para mim, porque as críticas foram formidáveis. À saída, toda a gente estava à minha espera, a gritar: Brava!Brava!Brava!»

Numa da sua estadas em Nova Iorque, Danny Kaye convida-a para entrar num espectáculo com ele na Broadway: «Quem sabe, se eu tivesse ido, correndo-me bem as coisas, como sempre me correram em toda a parte, talvez eu tivesse partido dali para uma coisa importante. Eu podia ter sido muita coisa se não fosse aquilo que sou. Mas nesta altura não era capaz de cantar ao lado de Kaye, embora tivéssemos ficado grandes amigos».

Em 1954 faz uma digressão pelo México. Uma jornalista famosa de Hollywood, Hedda Hopper quer que ela se vista de branco, que se decote e renuncie ao xaile preto. Quer que Amália ponha uma rosa vermelha na cabeça. Amália explica-lhe que a rosa no cabelo é para a Espanha e ela é de Portugal, de Lisboa.

O seu empresário americano, Blackstone leva-a aos estúdios de Hollywood. Assiste às filmagens de “Someone At Last”, em que Judy Garland e James Mason são os protagonistas. Acha tudo muito estranho porque uma das cenas é repetida dezassete vezes, enquanto em Portugal um actor nem sequer uma vez pode enganar-se, porque não há filme suficiente para repetir a cena. Conhece assim James Mason: «Uma portuguesa que ia comigo é que ficou a amarinhar pelas árvores por ter visto James Mason. Até pedi desculpa ao homem e disse-lhe que em Portugal não éramos todos assim» conta Amália ao seu biógrafo Victor Pavão dos Santos.
Neste período não fica nos Estados Unidos porque não quer. Em Nova Iorque canta pela primeira vez na televisão (na NBC), no programa do Eddie Fisher «patrocinado pela Coca-Cola, que tive que beber e não gostei nada». Grava um disco de fado e flamenco. Abrem-lhe uma conta no banco para ficar mais tempo e gravar dois álbuns, com canções de Cole Porter, Gershwin, Jerome Kern. Fica muito contente pelo convite, mas não aceita porque está farta da América: «Eu nunca trabalhei na minha vida e para fazer um álbum com canções americanas tinha de ficar ali a ensaiar, a trabalhar. Eu gosto de cantar sem estar a pensar que estou a cantar. Não sei cantar de outra maneira. E bastava-me a preocupação de estar a falar inglês para perder a espontaneidade».
« É uma temperamental. Uma meridional!»- clamam uns. «É a grande intérprete da alma ibérica!» - dizem outros. Quando regressa a Lisboa é novamente convidada a cantar na embaixada portuguesa em Espanha onde «me tornei “flamengueira”. Conheci as melhores gargantas de flamenco!». Canta e sente que o fado e o flamenco têm a mesma autenticidade: «De um e de outro modo, cada um tem a sua verdade». Anos mais tarde, quando grava o disco «Fado de Portugal e Flamenco de Espanha», dá corpo ao seu iberismo.

«TROVA DO VENTO QUE PASSA»

Por uns - compreendida , por outros - apupada, mas a ninguém indiferente. Decide cantar o fado-canção. Encontra uma nova postura de cantar o fado, mais desabrida. Canta com entusiasmo os fados de Frederico Valério, Raul Ferrão e de Frederico de Freitas «com uma estrutura musical mais complexa, com refrão e coplas, por oposição à simplicidade estrófica dos velhos fados castiços». (Rui V. Nery)
Amália dá ao fado um novo fulgor. Canta o repertório tradicional de uma forma diferente «subordinando o ritmo regular da melodia ao sabor da dicção poética, com suspensões inesperadas e acrescenta ornamentos novos, que foi a buscar às cantigas da Beira Baixa», escreve o mesmo musicólogo. Ultrapassa todas as fronteiras e preconceitos culturais. Amália tem a arte de sincretizar o que é urbano e rural, o que é popular e erudito através de uma voz de timbre único, prenhe de emoção sensual e musical.

Os poetas Pedro Homem de Mello e David Mourão Ferreira passam a escrever para ela. Canta os grandes poetas da língua portuguesa, dos trovadores a Camões, de Bocage aos poetas contemporâneos guiada pela sua grande intuição. Conhece o compositor luso-francês Alain Oulmain: «Um dia estava num acampamento e levaram-me Alain Oulmain, que tinha uma música a pensar em mim, o Vagamundo. Fui ouvir e gostei. Seguiram-se outras e fui contra a maré das pessoas que estavam ao pé de mim, que achavam aquilo muito complicado. Os guitarristas de facto, tiveram de aprender aquelas harmonias novas que o Alain trazia, que não tinham nada a ver com o fado porque o fado é pobre em harmonia. O Alain nasceu no Dafundo, nasceu em Portugal, apesar de ser francês. Tem uma sensibilidade grande de artista, foi criado num certo ambiente. Depois, ouviu-me cantar, sentiu que a minha sensibilidade estava muito perto da sua. Dá-me a possibilidade de voar.»
 Amália tem um humor marcadamente lisboeta, construído em Alcântara, bairro predominantemente operário onde o humor corrosivo é cultivado quase como uma forma de vida. Brinca com ela própria, com o seu próprio talento. Sobre a sua primeira aparição na televisão portuguesa em 1958 conta ela ao seu biógrafo: «Andou sempre uma mosca à minha volta. Cantou melhor a mosca do que eu. Quando havia lá moscas, e acho que havia sempre, as pessoas disfarçavam. Eu, como havia a mosca, sacudi-a. E depois só se falava na mosca». Perante situações complicadas constrói a sua coragem na capacidade da resposta pronta. Quando alguém lhe fala sobre as condecorações e outras honrarias que recebera durante a ditadura, responde: «Por mim, não me levantava do meu cadeirão. Não passei pela vida, a vida é que passou por mim».

Na década de 60, razões económicas e razões políticas levam os portugueses a emigrarem em massa para os países ricos da Europa. Em Angola rebenta a Guerra Colonial. Movimento estudantil contra a repressão salazarista. Muitos portugueses, opositores ao regime são obrigados ao exílio. Em Argel o poeta-exilado Manuel Alegre recebe uma carta do seu amigo Alain Oulmain pedindo-lhe autorização para Amália interpretar «Trova do vento que passa» poema que era já uma referência para a resistência anti-fascista portuguesa na voz de Adriano Correia de Oliveira. A nova versão surge no disco da Amália «Com que Voz» (1970)

Em 1962 aparece o primeiro disco com músicas de Alain Oulmain e que é muito bem aceite por um público de uma elite cultural. Para alguns não é fado. Os próprios guitarristas quando tocam as coisas de Oulmain, vêem-se à nora. José Nunes dizia sempre: «Vamos às óperas».
 A sua grande sensibilidade artística e intuição faz com que o fado Povo que lavas no rio, um poema que Amália escolhe não sabe bem porquê, de Pedro Homem de Mello, tenha uma dimensão política. O mesmo se passa com um antigo fado do Armandinho que se torna num hino aos que se encontram presos em Peniche e que se passou a ser conhecido como o «fado de Peniche». O disco foi proibido. Para Amália quando «o cantei, aquilo era uma tristeza de amor, que é um sentimento muito mais bonito e muito mais dorido que uma ideia revolucionária. Não me passavam pela cabeça prisões.»

Em 1966 está novamente nos Estados Unidos. Canta em salas normalmente vedadas à participação de cantores de música ligeira como no Lincoln Center e no Hollywood Bowl. Recebe um telefonema de Lisboa a dizer que Alain Oulmain foi preso pela PIDE. Amália dá todo o seu apoio ao amigo e tudo faz para que seja liberto e posto na fronteira.

Em 1967 o Papa Paulo VI visita o santuário de Fátima, a irmã Lúcia e condecora o director da PIDE. Fotos, factos, fados…

Amália continua a cantar os poetas esquerda: Ary dos Santos, Manuel Alegre, O’Neill, David Mourão-Ferreira. Em 1968 o ditador Salazar cai da cadeira de lona em que descansava. Incapacitado é substituído pelo professor universitário Marcelo Caetano. A PIDE encerra temporariamente o Instituto superior Técnico. Em 1969 eleições em que concorrem pela primeira vez os movimentos democráticos MDP/CDE e CEUD que representam as duas facções mais importantes dos opositores ao regime. Fraude eleitoral. Deputados da chamada Ala Liberal são eleitos para a nova Assembleia Nacional. Onda de greves em todo o país. Em 1969 Amália é condecorada por Marcelo Caetano na Exposição Mundial de Bruxelas. Início de uma grande digressão à antiga União Soviética. Mais uma vez a sua voz peculiar, deslumbra.

Amália nunca fica maravilhada com o que lhe acontece. É sempre igual a si mesma. Terá sempre uma atitude displicente em relação aos seus êxitos e ao seu talento. Nunca guardará nada relacionada com a sua carreira artística: «Passei a minha vida a surpreender-me com o que me aconteceu, mas nunca lutei, como nunca sofri para conseguir fazer alguma coisa, para o que se chama vencer, talvez não tenha gozado bem as coisas por que passei. Embora saiba que a única artista portuguesa conhecida no estrangeiro seja eu».

1971: Zeca Afonso grava para a editora Arnaldo Trindade o disco Cantigas de Maio que inclui Grândola, Vila Morena. Em Paris Amália visita Alain Oulmain e conhece pessoalmente Manuel Alegre que, convalescente de uma doença, encontra-se escondido em casa do seu amigo. Início de uma grande amizade e colaboração. Manuel Alegre confessa que ficou um pouco atrapalhado. No exílio, em Argel, ouvia os seus discos e «sentia um bocado de Portugal comigo, porque no fundo, ninguém como ela exprime o que defino por a nossa atlanticidade, essa forma melancólica e nostálgica que é a saudade.»
Quando se emociona, canta de modo tão intenso que chora. «Uma vez num barco, em Vila Franca, à noite cantei aquela música do Fado Cravo que as pessoas se ajoelharam aos meus pés. Ajoelharam-se porquê? Porque senti uma emoção muito grande. (…) Nem sei como chamar a isto. Talvez eu não seja criadora, mas quando canto estou a inventar. E, para inventar, preciso de música. O fado quando comecei era amarrado como se tivesse uma só divisão e a minha maneira de cantar deu-lhe mais duas casas. Porque nada dentro daquela divisão me deixava fugir. A minha voz queria fugir dali, mas batia na porta. Tive que cantar à minha maneira.»

«AI LUCIDEZ QUE ME DOI»

Nos anos 60 o Turismo foi uma das industrias mais agressivas em Portugal. Exportava a imagem de um país de brandos costumes (embora há anos em guerra) do Avril au Portugal - país do sol (embora em Abril águas mil), do Fado, o Futebol e Fátima. São estes os Fs que sustentam o Fascismo salazarento.
Amália é assim conotada com um dos Fs e, por isso, mal tratada por alguns militantes da esquerda mais radical (alguns deles emigrarão mais tarde para partidos de direita). Muitos desconhecem a sua generosidade e até a sua contribuição para a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos durante o fascismo, «da mesma forma apaixonada e talvez ingénua com a qual agradeceu aos donatários salazaristas que lhe proporcionaram, a ela, rapariga do povo, os palcos, os microfones» escreve o deputado comunista Rubens de Carvalho.
Amália volta a cantar Mãe Negra, embalando o filho branco do senhor…, que cantara nos anos sessenta em Angola e Moçambique. Incluída na lista de canções malquistas pelos censores do regime de Salazar, esta canção faz parte do cancioneiro da resistência ao regime. Já durante a revolução democrática e nacional do 25 de Abril canta o Fado de Peniche. No Teatro Vasco Santana participa com o actor, advogado e comunista Morais e Castro, em sessões de esclarecimento sobre o 25 de Abril sobre a situação dos artistas de espectáculo.
A democracia portuguesa acaba por lhe prestar as maiores e mais sinceras homenagens. Em 1980 é condecorada com o grau de oficial da Ordem do Infante D. Henrique pelo então presidente da República Mário Soares que a considera «uma mulher conservadora, crente e naturalmente apolítica mas que soube conviver bem com a Revolução dos Cravos». Ela própria lhe disse que a diferença entre «vocês e os de antigamente, é que vocês sentam-me à vossa mesa. Os outros recebiam-me muito bem, gostavam muito de mim e de me ouvir cantar, mas era diferente, só era recebida no fim, para cantar».

Sempre gostou de fazer versos: «coisas que sentia», reconhecendo que não é poeta. Lança o disco com poemas seus Gostava de Ser Quem Era. Em 1997 edita o Livro Versos, confirmando a sua veia poética: «Ai minha infância dorida/ Ai o meu bem que não foi/ Ai minha vida perdida/ Ai lucidez que me dói» Os seus versos são ecos empolgantes da sua voz, única, remanescente popular da poética eivada de lirismo e da atracção pela morte: «Vem morte que tanto tardas / Ai como dói / A solidão quase loucura». É homenageada pela Câmara Municipal de Lisboa. Lança um disco de inéditos Segredo. Vive com dificuldades económicas, o que a obriga a desfazer-se de algum do seu património imobiliário.
Morre a sua grande amiga a pintora Maluda 1999. Fica profundamente pesarosa. Já antes vira desaparecer o seu marido César Seabra, o seu compositor Alain Oulmain e o seu poeta David Mourão-Ferreira que a considerava como «a voz da diáspora e voz do terroir (chão), voz da distância e da intimidade, com a amplitude das mais altas vagas e a tocante descrição de recolhidos santuários».

«QUANDO CANTO, ESCUTO-ME...»

Amália Rodrigues, a última viagem. Olhos vidrados de lágrimas das pessoas simples, do povo, com as vozes embargadas, acompanham o cortejo fúnebre
São Bento é um bairro antigo de Lisboa em que se misturam odores tradicionais com outros vindos de paragens mais distantes, de Cabo Verde. Do alto das escadarias, guardadas por dois leões, ergue-se um edifício de traços clássicos, o Parlamento. Seguindo rua acima, do lado esquerdo mora Amália numa casa pombalina de sorridentes e floridas balaustradas. Quando ela passa com aquele ar melancólico que a caracteriza, o seu sorriso contagiante ilumina todos. Amália gosta de cantar na rua: «Quando canto escuto-me, e quando me escuto acabo a chorar». O mercado, a padaria e o comércio tradicional, são pontos de encontro das gentes simples. Uma vizinha fala da sincera preocupação de Amália para com os mais necessitados: «chegou a atravessar problemas financeiros de tanto dar».
Agora na casa amarela de S. Bento mora o silêncio. Na varanda encontra-se ainda pendurada uma toalha branca, símbolo solidário com o povo de Timor. Em todas as janelas e varandas, à passagem do féretro, de S. Bento à Estrela, toalhas brancas, estendidas.
O coração de Lisboa chora. Flores, lenços brancos acenam. Nas ruas, nos carros, nas lojas, por todo o lado o fado de Amália. Dor e saudade, o âmago alfacinha, trespassam. Seis da tarde. Suave melancolia, Lisboa. Largo da Estrela, a grande Basílica prevalece. Centenas de pessoas, as escadarias ocupam. Tocam os sinos. O féretro da Amália chega. Emoção geral. Nunca a multidão à solta teve tanta grandeza. Homens, mulheres, crianças, imagens sobrepostas, redondas e volumosas, dissolvem. Caras lampejadas, cabeças reluzentes, cabelos de cor nem loira nem escura, na Basílica entram. Não se distingue o novo do velho, o bonito do feio. A idade e o gesto, afirmam. Tudo se neutraliza: tempo, pessoas, coisas. Na nave central, Amália. Tudo perde o seu relevo, tudo entra em nós…

Uma mulher e um ramo de margaridas brancas, esperam. O adeus à «melhor embaixadora de Portugal no mundo». Uma outra pesarosa, sussurra: «É uma parte da nossa vida que está ali. Ela é a referência da nossa mocidade». Apesar do frio que se faz sentir ao fim da noite, há quem não arrede pé. Aguarda-se pacientemente a sua vez para chegar junto ao caixão. Choro miudinho de mulheres. Espuma dos dias, milhares de pessoas, adeus à «diva do fado». Fuga ao olhar atento da polícia: o último beijo, o último toque. Um jovem diz que não gosta de fado, «mas ouvi-la cantar arrepia-me». Amália descansa na paz do Senhor «mesmo que ele não exista, eu acredito nele».

Outono de 2000. Luminosidade morna das tardes de Lisboa. Jardim do Príncipe Real. O Grande Cedro exala aromas. Velhos reformados jogam às cartas. Velhas alcoviteiras, dormitam. Crianças brincam. Mulheres de pálpebras semicerradas, vigiam. Num ramo pendurado está um rádio tal qual pássaro feito. Ouve-se a voz de Amália: «Estranha forma de vida».


IN "VIDAS LUSÓFONAS"
Autora "LEONOR LAÍNS"
OLIVEIRA DO BAIRRO

DISTRITO DE AVEIRO




TERRITÓRIO

Oliveira do Bairro é um concelho situado na Região Centro, no Baixo Vouga, pertencendo ao distrito de Aveiro. É limitado a Norte pelo município de Aveiro, a Nordeste pelo de Águeda, a Sueste pelo de Anadia, a Sul pelo de Cantanhede e a Oeste pelo de Vagos. 

Biblioteca
O concelho ocupa 86.6 Km2 distribuídos por seis freguesias: Oliveira do Bairro, Oiã, Bustos, Troviscal, Palhaça e Mamarrosa. A sede do concelho está situada em Oliveira do Bairro, freguesia que se tornou cidade a 26 de Agosto de 2003. O concelho integra a CIRA - Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro, Baixo Vouga.




LOCALIZAÇÃO

Oliveira do Bairro encontra-se numa situação geográfica privilegiada, uma vez que se trata de um lugar de passagem entre o litoral e o interior, e entre o norte e o sul.
O concelho fica situado na província da Beira Litoral, inserido numa região tradicionalmente conhecida por Bairrada, pertencente ao distrito de Aveiro.

Gentílico Oliveirense
Área 87,28 km²
População 23 504 hab. (2008[1])
Densidade populacional 269 hab./km²
N.º de freguesias 6
Presidente da
Câmara Municipal
Não disponível
Fundação do município
(ou foral)
1514
Região (NUTS II) Centro
Sub-região (NUTS III) Baixo Vouga
Distrito Aveiro
Antiga província Beira Litoral
Orago São Miguel
Feriado municipal Quinta-feira de Ascensão
Código postal 3770 Oliveira do Bairro
Endereço dos
Paços do Concelho
Não disponível
Sítio oficial Não disponível
Endereço de
correio electrónico

CARACTERIZAÇÃO ECONÓMICA

Classificado como concelho rural de 2ª ordem, Oliveira do Bairro consegue conjugar na perfeição a agricultura tradicional com a indústria extractiva onde os Barreiros assumem um lugar de destaque.
A vitivinícola é a actividade agrícola mais conhecida do concelho, com a produção do típico vinho da Bairrada, mas não é a única. A agricultura de subsistência é ainda uma prática vulgar neste município. Nos últimos anos assumiu particular importância a cultura do Kiwi na região.

A localização privilegiada do concelho promoveu o crescimento de zonas industriais, em várias freguesias. Contam-se mais de 400 empresas, especialmente vocacionadas para a indústria cerâmica de grande dimensão e para a metalo-mecânica, constituindo as mesmas grandes fontes empregadoras. Quanto ao sector terciário, representado pelo comércio e serviços, engloba quatro franjas de actividade; a administração pública (funcionários municipais, do tribunal de competência genérica, 1º acesso dos registos e notariado, da fazenda pública das finanças, pessoal docente e não docente das escolas e serviços sociais), serviço local da segurança social, bancos, companhias de seguros, gabinetes de desenho, consultadoria e fiscalidade, e, por fim, as mais diversas actividades comerciais.

História

Existem registos no concelho anteriores à formação de Portugal. Vestígios de povos Celtas e pré-Celtas são possíveis de encontrar na freguesia da Mamarrosa. Nas freguesias de Bustos e Palhaça é possível encontrar vestígios dos Romanos. Logo por aqui se pode notar que esta era uma zona já privilegiada para o homem se estabelecer. Segundo um documento encontrado na Biblioteca Nacional Torre do Tombo já no longínquo ano de 957 d.C. (séc. X) existia aqui, nestas paragens, uma vila com o nome de Ulvária, e que seria delimitada por Barriôlo (Barrô), Aqualada (Aguada de Baixo), Sancta Eolália (Aguada de Cima) e Sangálios (Sangalhos). Contudo, Oliveira do Bairro só recebeu foral no ano de 1514 pelo rei D. Manuel I que a elevava a vila. Já no séc. XVI, Oliveira do Bairro estava rodeada pelos aglomerados populacionais, que ainda hoje existem, de Póvoa do Cercal, Póvoa do Repolão, Amoreira, Bairro de Mogo, Pedella (Vila Verde), Lavandeira e Póvoa da Lavandeira.
Câmara Municipal

O concelho de Oliveira do Bairro foi formado em 1836. Mas, devido ao seu óptimo posicionamento geoestratégico, Oliveira do Bairro sempre foi cobiçado pelos concelhos limítrofes de Aveiro, Águeda e Anadia, levando mesmo à extinção do concelho em 1895 e respectiva anexação das freguesias por estes concelhos limítrofes. Esta extinção foi “sol de pouca dura”, uma vez que, para bem destas gentes bairradinas, foi novamente formado o concelho em 1898 tal qual como se conhece hoje, excepção feita para a freguesia de Bustos que só foi formada em 1919.


Património

Oliveira do Bairro é dona de uma natureza ímpar com as suas cegonhas-brancas na zona do Vale do Cértima.

Vale a pena ver o espectáculo que estas aves dão, quer estejam a pairar no ar, quer estejam no ninho a cuidar das crias, quer estejam nas marinhas de arroz existentes a pescar. É também comum ver-se nas marinhas de arroz bandos de cegonhas-brancas juntamente com garças-reais, garças-brancas, garças-vermelhas, como se estivessem todas numa “amena cavaqueira”. É óbvio que em tamanha concentração tem de haver segurança. E existem águias-sapeiras e milhafres-pretos que pairam no ar como se estivessem alerta aos predadores típicos destas aves.
Aparte este espectáculo vivo, as marinhas de arroz, verdadeiros mantos verdejantes que ondulam ao sabor do vento, vinhas a perder de vista, matas e eucaliptais são outros atractivos da natureza. Existem também vários parques de merendas espalhados pelo concelho, cada um com a sua beleza e história, sempre integrados na natureza circundante.
Como esta é uma zona de agricultores, existem espalhados pelo concelho vários moinhos de água que serviam para moer vários tipos de cereais, além dos lagares de azeite.
A religião, fé e crenças estão muito presentes no concelho e têm forma nas várias igrejas, capelas e alminhas que existem. Realce para a Igreja Matriz da Mamarrosa, datada do séc. XVII, e a Igreja Matriz de Oiã, datada do séc. XIX, com a sua talhada dourada. Pelourinhos e cruzeiros de várias épocas também são visíveis nos caminhos do concelho.
Não esquecer o Museu de Arte Sacra de S. Pedro da Palhaça na antiga Igreja de S. Pedro da Palhaça, com um vasto espólio de Arte Sacra e Arquivo Histórico Regional. Há também, o Museu de Etnomúsica da Bairrada no Troviscal, com sua colecção de instrumentos, partituras, gravações, documentação variada e depoimentos sempre com o elo da música a unir a Bairrada.

ESPAÇOS VERDES / LÚDICOS

Entre as margens do Cértima, o curso do Levira e as valas e ribeiros que cruzam o concelho, Oliveira do Bairro goza de uma ambiência privilegiada. São várias as opções oferecidas pelas seis freguesias que compõem o concelho no que aos espaços verdes diz respeito. Na sede do concelho, para além do Parques dos Atómicos, tem o privilégio de poder observar vários ninhos de cegonhas no Vale do Cercal. De referir que, se encontra em fase de elaboração, um percurso pela Rota das cegonhas no concelho. Por estas bandas poderá ainda desfrutar de cerca de 16 parques de lazer espalhados por todo o território do município, alguns deles excepcionalmente situados junto dos cursos de água que banham o concelho. 

De fora não pode ficar a paisagem rural, que apresenta aspectos de rara beleza, como são exemplo os arrozais do rio Cértima e as tradicionais vinhas. No Verão, o concelho ganha ar um estival com as cinco piscinas ao ar livre, algumas em parques de lazer, outras inseridas em equipamentos de associações.




Artesanato

O concelho de Oliveira do Bairro é rico em artesanato popular, apresentando uma grande variedade de formas, na sua maior parte ligado às actividades rurais.
As actividades artesanais mais relevantes são a cestaria, a fabricação de esteiras de bunho, a latoaria, o empalhamento de garrafões, tapetes de farrapos, rodilhas, cerâmica e pintura em azulejo.
A arte de tecer, outrora muito usual, tem vindo a decair. Hoje são muito poucas as mulheres que possuem tear rústico e se dedicam a esta tarefa. A tecedeira tece cobertas de trapos ou de farrapos, passadeiras e pequenos tapetes, com os novelos de farrapos de várias cores, feitos dos tecidos de roupas velhas, lavados e rasgados, muitas vezes em momentos de descanso ou em trabalhos ao serão nas longas noites de Inverno.
A esteira, nascida da habilidade das artesãs e que pode ter até dois metros de comprimento por um e meio de largo, feita com bunho, uma espécie de junco e tabua, colhidos nos pântanos, já teve os seus dias grandes nas camas de gente humilde e trabalhadora ou cobrindo montes de milho madeiro pelas eiras.
O visitante encontrará no concelho de Oliveira do Bairro estas peças artesanais e em alguns lugares do concelho poderá ainda observar os artesãos a trabalhar.

Actividades Artesanais

Em cada aldeia do concelho foram-se instalando as pequenas oficinas de actividades muito variadas, um complemento absolutamente necessário para qualquer dos trabalhos agrícolas.

Junto às margens do Cértima e da Pateira, onde crescia o bonho ou bunho e florescia a tabua também conhecida por espadana, desenvolveu-se a fabricação caseira e artesanal de esteiras e de esteiralhos, executada por mulheres, cujo produto era vendido em toda a região.
Em qualquer aldeia, havia também a manufactura dos cestos necessários para as tarefas dos campos. Na sua confecção, era utilizado o vime ou verga com casca e os cesteiros faziam os oblongos cestos canastros, de duas asas, muito usados nas vindimas; o cesto de aro, para as utilizações individuais mais variadas; o cesto poceiro, redondo e mais fundo, também usado na vindima - e, no Troviscal, por alturas da festa de São Bartolomeu, sempre se realizou a chamada feira dos cestos ou dos poceiros, a 24 de Agosto. Actualmente, o cesteiro, de simpática actividade, desapareceu praticamente.

O latoeiro, que animava certas ruas das povoações com o som do bater a lata na bigorna, calou os seus ruídos habituais, porque o produto do trabalho saído das suas mãos passou a ser fabricado noutros lugares e com outros materiais mais leves e mais duradoiros. Deixaram de se ver muitos utensílios antigamente indispensáveis, como as candeias de azeite e de petróleo; desapareceram os regadores e os baldes de folha, os cântaros para os trabalhos de adega, os cabaços para a rega, os púcaros de rabo para a cozinha, os alcatruzes para os poços e tantos outros objectos que foram utilíssimos e, normalmente, eram pendurados à porta das oficinas para exposição.
O tamanqueiro que, aproveitando o cabedal dos tamancos e das chancas já gastos pelo uso, substituía os paus limados pelo contacto de tanto andar.

O ferreiro, em cuja oficina se mantinha a forja sempre acesa, fabricava carros de bois, carroças e carros-de-mão, engenhos de ferro para tirarem água dos poços, charruas, charruecos, arados e grades; aí também se fabricavam as peças para o arranjo de qualquer alfaia agrícola. Em zona de vinho, cada lavrador possuía a sua adega, com tonéis, pipas, quartolas, barris, etc. Era, pois, lógico, que pequenas tanoarias por aqui se instalassem. Na verdade, houve tanoeiros que não só fabricavam o vasilhame - tonéis, pipas, quartos - as dornas e as tinas, como se dedicavam ao arranjo de outras quando necessitavam de aros ou da substituição de velhas aduelas e de tampos carcomidos pelo vinho e pelo caruncho de muitos anos de utilização. Além disso, e enquanto não foram substituídos por funis de folha, faziam-nos de pequenas aduelas de madeira apertadas com arcos de ferro.

Numa ou noutra pequena oficina, trabalhava-se o barro. O oleiro possuía a sua roda, também chamada jaulo, que movimentava com o pé, enquanto as mãos, em plano superior, davam forma a recipientes utilitários tradicionais, os quais eram utilizados em larga escala nas cozinhas da aldeia: panelas de barro, caçoilos, pingadeiras, bacias, malgas, jarras, cântaras e quejandos - que, depois eram levados a cozer em rudimentares fornos metidos na terra mas devidamente preparados para o efeito. 

 Estes artífices, porém, também eram convidados para construírem os grandes bojos dos fornos de barro, cuja boca dava para a lareira da cozinha e nos quais mais frequentemente se cozia a broa ou boroa, a bola, o pão-trigo caseiro como as padas e as fogaças; aí se assavam também várias peças de carne em dias mais festivos.
Ora, tanto o latoeiro como o oleiro quase vieram a desaparecer porque os objectos que produziam com materiais deterioráveis têm sido substituídos por outros similares de alumínio, de esmalte e sobretudo de plástico, que passou a estar presente em todas as actividades que o exigem.

Em algumas aldeias do concelho, sempre houve casas rurais que possuíram o seu tear, em cujas tarefas de tecelagem, a mulher - avó, mãe, filhas - ocupava grande parte do seu tempo, aquele que não era destinado a outros trabalhos. Teceu-se o linho mourisco que outrora se cultivou e preparou, a lã enquanto manteve rebanhos de ovelhas, sendo apoiada pelos pisões movidos a água; após o seu declínio, a mulher dedicou-se à tecelagem de mantas e passadeiras de tiras de trapos, urdidas com fios de algodão. Há ainda um outro caso que resistiu, mas que avança para o desaparecimento inevitável, ainda que as Casas do Povo e as colectividades de tipo Recreativo e Cultural, mostrando interesse pelo seu ressurgimento, tenham reactivado essas actividades artesanais e tradicionais. A tecedeira continua a ser uma figura simpática que enriquece os nossos quadros aldeãos, de tipo etnográfico e ambiental.

Terra de vinho e pão; terras de videiras e de cereais. Era natural que os moinhos da mais variada espécie e os respectivos moleiros dessem colorido e vida à paisagem do nosso concelho. E assim foi. Era necessário farinar para o fabrico do pão. Os moinhos, particularmente os movidos a água, abundavam à beira das nossas correntes, exercendo a sua função secular de reduzir o grão a farinha para alimento das respectivas populações. 

Mas os nossos moinhos e os respectivos moleiros também foram levados na voragem dos tempos, arrastados e absorvidos pelos novos processos tecnológicos. Raras excepções teimam em persistir ou por uma questão de tradição familiar ou por meros motivos de carácter cultural.

O sapateiro remendão foi uma outra figura presente nos nossos povoados e ainda resiste. Se outrora era ele quem fazia sapatos e botas por medida, além dos arranjos do calçado em geral, hoje, quase se limita a fazer consertos, cosendo e pondo meias-solas. O calçado é caro e, quando as solas se gastam, ainda vale a pena mandá-lo consertar. É por isso que ainda o vamos encontrando nas nossas aldeias.
O trabalho privado da costureira ainda se vai mantendo entre nós, nas freguesias rurais. É uma figura que passa a vida na confecção do vestuário por medida para a mulher ou para a rapariga do campo: as saias, as blusas, os corpetes e outras peças mais delicadas saíam e saem das suas mãos. A matéria-prima era normalmente adquirida nas feiras da região e numa ou noutra casa de venda de tecidos: peças de chita, de algodão, de lã, etc, das cores mais variadas, conforme os gostos e as intenções do próprio uso.

Se a costureira ainda existe, não é menos verdade que o alfaiate da aldeia, fazendo também fatos por medida para o homem, prevalece nas nossas povoações. Se hoje, a maior parte das pessoas adquire roupa já feita nas lojas de moda, por toda a parte instaladas - vestidos, saias, blusas, fatos completos, calças e casacos, para homem e mulher - não podemos esquecer aqueles que nunca aderiram ao fato feito e têm o seu alfaiate ou a sua costureira privativos, de há longos anos, a quem encomendam toda a sua roupa. Além disso, já existem fábricas de confecção em série, como é o caso de "Canto Novo", na freguesia da Palhaça, e das confecções "Trovisco", na freguesia de Bustos.
Em quase todas as povoações, surgiram, mais ou menos amplas, as oficinas de serração de madeiras. Era natural que assim acontecesse num território propício ao crescimento de vastas matas de pinheiros e de eucaliptos.
E as carpintarias e as marcenarias mecânicas também por cá se foram estabelecendo, onde foi possível associar as nossas próprias madeiras e as madeiras mais rijas e duráveis importadas do estrangeiro.
Esta nova preparação das madeiras corresponde a um surto notável de modernas construções habitacionais e dos próprios móveis que constituem os seus recheios. Outrora, os proprietários contratavam para suas casas marceneiros que trabalhavam individualmente e faziam a preparação de toda a madeira necessária à construção: portas, janelas, etc. Eram os chamados mestres e eram-no de facto na execução do produto da sua própria profissão. E, para a serração de barrotes, de grandes pranchas, de tabuões, etc, chamavam os reconhecidos serradores ambulantes que transportavam os seus pontais para fazer a burra, e a sua grande serra sempre manejada por dois indivíduos.

Também em cada aldeia se instalavam pequenas serralharias com funções especiais, pois foram e ainda são de extrema utilidade na montagem e arranjos, em particular das bicicletas que, durante muito tempo, se tornaram o principal meio de locomoção mais rápido, para se vencerem distâncias mais ou menos longas entre os vários povoados. Com efeito, sendo o território do nosso concelho permanentemente ondulado e sem ladeiras muito íngremes, como, aliás, acontece em toda a Bairrada, a bicicleta foi o meio de transporte individual preferido por todas as pessoas e, conforme os elementos de família, em cada casa, havia sempre mais do que um exemplar de portas adentro.

Mas serralharias orientadas para o conserto e fabricação de outros objectos de carácter indefinido, sempre necessários na casa dos lavradores, existiram e existem ainda entre nós, abarcando um leque bastante largo de utilidades.
Preparando as nossas populações vastas porções de terrenos aráveis para o cultivo dos cereais, era natural que, além da cozedura do pão em cada casa em particular, tivesse surgido um certo número de mulheres, algumas das quais ainda existem, que, especializando-se na utilização das nossas próprias farinhas, fizeram das suas casas pequenas padarias artesanais, onde fabricavam um pão de trigo de sabor inigualável - as conhecidas padas de pão-trigo e as fogaças - que não só vendiam na sua própria casa mas também levavam, para venda, em grandes cestadas, às feiras e aos mercados da região. Sempre sobressaiu, em cada aldeia, o pão de uma ou de outra. Porém, com a vasta instalação das padarias de tipo moderno por todo o lado e com as novas medidas de limpeza que são exigidas a nível superior, em muitos casos, foram obrigadas a fechar as suas portas, o que consideramos uma grande perda, quanto à qualidade. Talvez os processos de fiscalização, exigindo maior limpeza, pudessem ter sido orientados de outro modo, concedendo certa liberdade para podermos usufruir da continuação deste bem perdido ou a perder totalmente.
É que nem sempre as modernas padarias, apesar de tudo o que lhe é exigido, fabricam o alvo pão a que estivémos habituados - nunca semelhante ao das velhas padeiras; é muitas vezes um pão agradável mas onde o fermento especial impera, o que não está nas nossas tradições e talvez não seja tão saudável.

IN "SITE DO MUNICÍPIO"

7 - VULTOS DA CULTURA DA TERCEIRA REPÚBLICA »»» alexandre o'neill


Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 - Lisboa, 21 de Agosto de 1986), ou simplesmente Alexandre O'Neill, descendente de irlandeses, foi um importante poeta do movimento surrealista.

Autodidacta, O’Neill foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. É nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens A Ampola Miraculosa, mas o grupo rapidamente se desdobra e acaba. As influências surrealistas permanecem visíveis nas obras dele, que além dos livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias. Não conseguindo viver apenas da sua arte, o autor alargou a sua acção à publicidade. É da sua autoria o lema publicitário «Há mar e mar, há ir e voltar». Foi várias vezes preso pela polícia política, a PIDE.

Biografia

 Os começos

Em 1943, com dezassete anos, publicou os primeiros versos num jornal de Amarante, o Flor do Tâmega. Apesar de ter recebido prémios literários no Colégio Valsassina, esta actividade não foi grandemente incentivada pela família.[1]
Datam do ano de 1947 duas cartas de O'Neill que demonstram o seu interesse pelo surrealismo, dizendo numa delas (de Outubro) possuir já os manifestos de Breton e a Histoire du Surrealisme de M. Nadeau. Nesse mesmo ano, O'Neill, Mário Cesariny e Mário Domingues começam a fazer experiências a nível da linguagem, na linha do surrealismo, sobretudo com os seus Cadáveres Esquisitos e Diálogos Automáticos, que conduziam ao desmembramento do sentido lógico dos textos e à pluralidade de sentidos.[2]
Por volta de 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José-Augusto França, António Domingues, Fernando Azevedo, Moniz Pereira, António Pedro e Vespeira. As posições antineorealistas eram frontais e provocatórias, tal como as atitudes contra o regime: em Abril, o Grupo retira a sua colaboração da III Exposição Geral de Artes Plásticas, por recusar a censura prévia que a comissão organizadora decidira impor. Com a saída de Cesariny, em Agosto de 1948, o grupo cindiu-se em dois, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente (que integrou, além do próprio Cesariny, personalidades como António Maria Lisboa e Pedro Oom).
Em 1949, tiveram lugar as principais manifestações do movimento surrealista em Portugal, como a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa (em Janeiro), onde expuseram Alexandre O'Neill, António Dacosta, António Pedro, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto França e Vespeira. Nessa ocasião, Alexandre O'Neill publicou A Ampola Miraculosa como um dos primeiros números dos Cadernos Surrealistas. A obra, constituída por 15 imagens e respectivas legendas, sem nenhum nexo lógico entre a imagem e legenda, poderá ser considerada paradigmática do surrealismo português.

A estreia

Depois de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos surrealistas (1950-52) e a extinção de ambos os grupos, o surrealismo continuou a manifestar-se na produção individual de alguns autores, incluindo o próprio Alexandre O'Neill. Em 1951, no "Pequeno Aviso do Autor ao Leitor", inserido em Tempo de Fantasmas, ele demarcou-se como surrealista. Nessa mesma obra, sobretudo na primeira parte, Exercícios de Estilo (1947-49), a influência deste corrente manifesta-se em poemas como "Diálogos Falhados", "Inventário" ou "A Central das Frases" e na insistência em motivos comuns a muitos poetas surrealistas, como a bicicleta e a máquina de costura.

  Política

Neste primeiro livro de poesia inclui o poema que o tornou célebre, "Um Adeus Português", originado num episódio biográfico que o próprio viria a contar, muitos anos mais tarde: no início de 1950, estivera em Lisboa Nora Mitrani, enviada do Surrealismo francês para fazer uma conferência. Conheceu O’Neill e apaixonaram-se. Meses mais tarde, querendo juntar-se-lhe em Paris, O’Neill foi chamado à PIDE e interrogado. Por pressão de uma pessoa da família, foi-lhe negado o passaporte. Coagido a ficar em Portugal, não voltaria a ver Nora Mitrani.
Alexandre O'Neill

Não foi, de resto, a única vez que Alexandre O’Neill foi confrontado com a polícia política. Em 1953, esteve preso vinte e um dias no Estabelecimento Prisional de Caxias, por ter ido esperar Maria Lamas, regressada do Congresso Mundial da Paz em Viena. A partir desta data, passou a ser vigiado pela PIDE. No entanto, sendo um oposicionista, não militou em nenhum partido político, nem durante o Estado Novo, nem a seguir ao 25 de Abril – conhece-se-lhe uma breve ligação ao MUD juvenil, na altura em que abandona o Grupo Surrealista de Lisboa. A partir desta época, O’Neill foi-se distanciando de grupos ou tertúlias, demasiado irónico e cioso do seu individualismo para se envolver seriamente em qualquer militância partidária.

 A obra literária

Em 1958, com a edição de No Reino da Dinamarca, Alexandre O’Neill viu-se reconhecido como poeta. Na década de 1960, provavelmente a mais produtiva literariamente, foi publicando livros de poesia, antologias de outros poetas e traduções.
A poesia de Alexandre O'Neill concilia uma atitude de vanguarda, (surrealismo e experiências próximas do concretismo) — que se manifesta no carácter lúdico do seu jogo com as palavras, no seu bestiário, que evidencia o lado surreal do real, ou nos típicos «inventários» surrealistas — com a influência da tradição literária (de autores como Nicolau Tolentino e o abade de Jazente, por exemplo).[2]
Os seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira a Portugal e aos portugueses, destruindo a imagem de um proletariado heróico criada pelo neorealismo, a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, vista no entanto sem dramatismos, ironicamente, numa alternância entre a constatação do absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor.
Temas como a solidão, o amor, o sonho, a passagem do tempo ou a morte, conduzem ao medo (veja-se "O Poema Pouco Original do Medo", com a sua figuração simbólica do rato) e/ou à revolta, de que o homem só poderá libertar-se através do humor, contrabalançado por vezes por um tom discretamente sentimental, revelador de um certo desespero perante o marasmo do país — "meu remorso, meu remorso de todos nós". Este humor é, muitas vezes, manifestado numa linguagem que parodia discursos estereotipados, como os discursos oficiais ou publicitários, ou que reflecte a própria organização social, pela integração nela operada do calão, da gíria, de lugares-comuns pequeno-burgueses, de onomatopeias ou de neologismos inventados pelo autor.

A vida privada e profissional

Alexandre O’Neill, apesar de nunca ter sido um escritor profissional, viveu sempre da sua escrita ou de trabalhos relacionados com livros. Em 1946, tornou-se escriturário, na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio. Permaneceu neste emprego até 1952. A partir de 1957, começou a escrever para os jornais, primeiro esporadicamente, depois, nas décadas seguintes, assinando colunas regulares no Diário de Lisboa, n’ A Capital e, nos anos 1980, no Jornal de Letras, escrevendo indiferentemente prosa e poesia, que reeditava mais tarde em livro, à maneira dos folhetinistas do século XIX.[1]
Em 1959 iniciou-se como redactor de publicidade, actividade que se tornaria definitivamente o seu ganha-pão. Ficaram famosos no meio alguns slogans publicitários da sua autoria, e um houve que se converteu em provérbio: "Há mar e mar, há ir e voltar". Tinha entretanto abandonado definitivamente a casa dos pais, casando com Noémia Delgado, de quem teve um filho, Alexandre. Nesta época, instalou-se no Príncipe Real, bairro lisboeta onde haveria de decorrer grande parte da sua vida, e que levaria para a sua escrita. Neste bairro, encontraria Pamela Ineichen, com quem manteve uma relação amorosa durante a década de 1960. Mais tarde, em 1971, casará com Teresa Gouveia, mãe do seu segundo filho, Afonso, nascido em 1976.[4]
Fez ainda parte da redacção da revista Almanaque (1959-61), publicação arrojada com grafismo de Sebastião Rodrigues onde colaboravam, entre outros, José Cardoso Pires, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira e João Abel Manta.
A sua atracção por outros meios de comunicação, que não a palavra escrita, é testemunhada pela letra do fado "Gaivota" destinada à voz de Amália, com música de Alain Oulman, tal como a colaboração, nos anos 1970, em programas televisivos (fora, aliás, crítico de televisão sob o pseudónimo de A. Jazente), ou em guiões de filmes e em peças de teatro. Em 1982 recebeu o prémio da Associação de Críticos Literários.
Mas a doença começava a atormentá-lo. Em 1976, sofre um ataque cardíaco, que o poeta admitiu dever-se à vida desregrada que sempre tinha sido a sua, e que, apesar de algum esforço em contrário, continuou a ser. No início dos anos 1980, já divorciado de Teresa Gouveia, repartia o seu tempo entre a casa da Rua da Escola Politécnica e a vila de Constância. Em 1984, sofreu um acidente vascular cerebral, antecipatório daquele que, em Abril de 1986, o levaria ao internamento prolongado no hospital. Morreu em Lisboa a 21 de Agosto desse ano. Avo de Celestino Andrade

 Obras

Poesia

Edições originais
  • 1948 – A Ampola Miraculosa, Lisboa, Cadernos Surrealistas.
  • 1951 – Tempo de Fantasmas, Cadernos de Poesia, nº11.
  • 1958 – No Reino da Dinamarca, Lisboa, Guimarães.
  • 1960 – Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães.
  • 1962 – Poemas com Endereço, Lisboa, Moraes.
  • 1965 – Feira Cabisbaixa, Lisboa, Ulisseia.
  • 1969 – De Ombro na Ombreira, Lisboa, Dom Quixote.
  • 1972 – Entre a Cortina e a Vidraça, Lisboa, Estúdios Cor.
  • 1979 – A Saca de Orelhas, Lisboa, Sá da Costa.
  • 1981 - As Horas Já de Números Vestidas (Em Poesias Completas (1951-1981))
  • 1983 - Dezanove Poemas (Em Poesias Completas (1951-1983))
Antologias feitas na vida
  • 1967 – No Reino da Dinamarca – Obra Poética (1951-1965), 2.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Guimarães.
  • 1974 – No Reino da Dinamarca – Obra Poética (1951-1969), 3.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Guimarães.
  • 1981 – Poesias Completas (1951-1981), Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982.
  • 1983 – Poesias Completas (1951-1983), 2.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984.
  • 1986 – O Princípio de Utopia, O Princípio de Realidade seguidos de Ana Brites, Balada tão ao Gosto Popular Potuguês & Vários Outros Poemas, Lisboa, Moraes.
Antologias póstumas
  • 2000 – Poesias Completas, com inclusão de dispersos, Lisboa, Assírio & Alvim.
  • 2005 – anos 1970. Poemas Dispersos, Lisboa, Assírio & Alvim.

Prosa

  • 1970 - As Andorinhas Não Têm Restaurante, Lisboa, Dom Quixote.
  • 1980 - Uma Coisa em Forma de Assim, Lisboa, EDIC.
  • 1980 - Uma Coisa em Forma de Assim, 2ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Presença.

 Traduções feitas pelo O'Neil

  • 1950 – Nora Mitrani, A Razão Ardente (Do Romantismo ao Surrealismo), Cadernos Surrealistas, Lisboa.
  • 1959 – Maiakovski, O Percevejo, Lisboa, Editorial Gleba.
  • 1960 – Dostoievski, O Jogador, Lisboa, Guimarães.
  • 1961-63 – Bertolt Brecht, Teatro I e II, (em colaboração com Ilse Losa), Lisboa, Portugália Editora.
  • 1962 – Alfred Jarry, Mestre Ubu, (em colaboração com Luís de Lima), Lisboa, Minotauro

 Antologias feitas por O’Neill

  • 1959 – Gomes Leal – Antologia Poética (em colaboração com F. da Cunha Leão), Lisboa, Guimarães.
  • 1962 – Teixeira de Pascoaes – Antologia Poética (em colaboração com F. da Cunha Leão), Lisboa, Guimarães.
  • 1962 – Carl Sandburg – Antologia Poética, Lisboa, Edições Tempo.
  • 1963 – João Cabral de Melo Neto – Poemas Escolhidos, Lisboa, Portugália.
  • 1969 – Vinicius de Moraes – O Poeta Apresenta o Poeta, Lisboa, D. Quixote.
  • 1977 – Poesía Portuguesa Contemporánea / Poesia Portuguesa Contemporânea (em colaboração com a Secção de Literatura da Direcção Geral de Acção Cultural), edição bilingue, Lisboa, Secretaria de Estado da Cultura.

 Discos de poesia

  • Alexandre O’Neill diz poemas da sua autoria – colecção «A Voz e o Texto», Discos Decca, PEP 1010.
  • Os Bichos também são gente – colecção «A Voz e o Texto», Discos Decca, PEP 1278.

 Filmografia

Guionista
  • 1962 – Dom Roberto
  • 1963 – Pássaros de Asas Cortadas
  • 1967 – Sete Balas Para Selma
  • 1969 – Águas Vivas
  • 1970 – A Grande Roda
  • 1975 – Schweik na Segunda Guerra Mundial (TV)
  • 1976 – Cantigamente (3 episódios da série)
  • 1978 – Nós por cá Todos Bem
  • 1979 - Ninguém (TV)
  • 1979 - Lisboa (TV)
Actor (Narrador)
  • 1933 – Las Hurdes, tierra sin pan
  • 1969 – Águas Vivas
  • 1971 – Sever do Vouga. Uma Experiência
  • 1976 – Máscaras

WIKIPÉDIA

7- LISBOA   ANTIGA






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