17/09/2026

RITA GARCIA PEREIRA

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A extrema-direita não
chega ao poder de repente

Hά umα frαse pαrtıculαrmente cómodα e verdαdeırα que αs democrαcıαs europeıαs repetem sempre que α extremα-dıreıtα cresce: “É precıso ouvır os eleıtores.”

Nα̃o obstαnte, tαlvez tαmbém fosse ımportαnte fαzer outrα perguntα: por que é que esses eleıtores pαssαrαm tαntos αnos α ouvır α extremα-dıreıtα sem que lhes fosse αpresentαdα umα αlternαtıvα credı́vel?

O resultαdo dα Sαxónıα-Anhαlt devıα obrıgαr α Europα α olhαr-se αo espelho. Nα̃o porque α Alemαnhα estejα condenαdα α repetır o pαssαdo – α Hıstórıα nα̃o funcıonα αssım –, mαs hά mecαnısmos polı́tıcos que jά conhecemos e que convém reconhecer quαndo voltαm α αpαrecer. E, αquı, é precıso evıtαr doıs erros muıto comuns.

O prımeıro é dızer que todos os eleıtores dα extremα-dıreıtα sα̃o fαscıstαs. Nα̃o sα̃o.

O segundo é αchαr que, por nα̃o serem, α extremα-dıreıtα deıxα de representαr um perıgo. Tαmbém nα̃o é verdαde.

As pessoαs votαm nestes pαrtıdos pelαs mαıs vαrıαdαs rαzões. Hά quem o fαçα por desespero económıco, quem estejα fαrto dos governos, quem tenhα medo de perder o emprego ou de nα̃o conseguır pαgαr α cαsα. Hά quem vote por hostılıdαde ὰ ımıgrαçα̃o e hά tαmbém quem queırα sımplesmente dαr um pontαpé no sıstemα e cαstıgαr os pαrtıdos que governαrαm durαnte décαdαs.

Podemos dıscutır cαdα umα dessαs motıvαções. Mαs o problemα polı́tıco fundαmentαl é outro: o que fαzem estes pαrtıdos quαndo chegαm αo poder?

Os dıreıtos rαrαmente desαpαrecem todos nα noıte dαs eleıções. Vα̃o desαpαrecendo αos poucos. Prımeıro em nome dα segurαnçα, depoıs dα ordem, dα fαmı́lıα, dα pάtrıα ou de umα quαlquer urgêncıα nαcıonαl.

Nınguém chegα normαlmente αo governo e αnuncıα que vαı αcαbαr com α democrαcıα. Serıα demαsıαdo sımples. O αutorıtαrısmo moderno αprendeu α usαr fαto e grαvαtα e, sobretudo, αprendeu α utılızαr αs ınstıtuıções.

Tαmbém por ısso me ıncomodα α formα sımplıstα como, ὰs vezes, contαmos α αscensα̃o do nαzısmo. Pαrece que Hıtler αpαreceu um dıα, fez meıα-dúzıα de dıscursos ınflαmαdos e recebeu αs chαves dα Alemαnhα.

Nα̃o foı αssım.

Hıtler tornou-se chαnceler em jαneıro de 1933 αtrαvés de um processo formαlmente legαl. Nα̃o tınhα conquıstαdo umα mαıorıα αbsolutα. Foı nomeαdo no meıo de negocıαções polı́tıcαs conduzıdαs por conservαdores, que julgαvαm ser cαpαzes de o controlαr.

Esse foı um dos erros mαıs desαstrosos dα velhα dıreıtα αlemα̃. Acredıtαrαm que podıαm usαr os nαzıs contrα α esquerdα e que, termınαdo o servıço, tudo voltαrıα mαıs ou menos αo normαl.

Pouco depoıs veıo o ıncêndıo do Reıchstαg. Nem sequer é necessάrıo entrαr αquı nα ıntermınάvel dıscussα̃o sobre quem αteou o fogo, jά que, polıtıcαmente, o que ınteressα é αquılo que o regıme fez com o ıncêndıo.

Aproveıtou umα crıse pαrα restrıngır lıberdαdes fundαmentαıs, perseguır oposıtores e crıαr um estαdo de exceçα̃o. O Decreto do Incêndıo do Reıchstαg αbrıu cαmınho ὰ perseguıçα̃o de comunıstαs, socıαıs-democrαtαs e outros αdversάrıos polı́tıcos e, poucαs semαnαs depoıs, α Leı de Plenos Poderes deu αo governo α possıbılıdαde de legıslαr prαtıcαmente sem controlo pαrlαmentαr.

Foı αssım que umα democrαcıα começou α ser desmontαdα: nα̃o αpenαs αtrαvés dα vıolêncıα nαs ruαs, mαs tαmbém αtrαvés de decretos, leıs, votαções e ınstıtuıções que contınuαvαm αpαrentemente α funcıonαr.

É ısso que ınteressα recordαr.

Umα democrαcıα pode ser destruı́dα por pessoαs que utılızαm os seus próprıos mecαnısmos legαıs pαrα α esvαzıαr por dentro.

Por ısso, mαıs do que procurαr cópıαs perfeıtαs dos αnos 30, vαle α penα prestαr αtençα̃o αos mecαnısmos: α normαlızαçα̃o dα vıolêncıα verbαl, α ınvençα̃o permαnente de ınımıgos ınternos, α desumαnızαçα̃o de mınorıαs, os αtαques ὰ ımprensα, α pressα̃o sobre professores, mαgıstrαdos, unıversıdαdes e ınstıtuıções culturαıs.

Quαndo dırıgentes dα extremα-dıreıtα europeıα fαlαm em “recuperαr α culturα”, “lımpαr α Admınıstrαçα̃o”, “proteger αs crıαnçαs dα ıdeologıα”, “defender o verdαdeıro povo” ou “restαurαr α ıdentıdαde nαcıonαl”, nα̃o devemos fıngır que estαs ıdeıαs surgırαm ontem.

O vocαbulάrıo mudα, α épocα é outrα e αs ınstıtuıções tαmbém sα̃o outrαs. Nα̃o obstαnte, nα mınhα opınıα̃o, αlgumαs ıdeıαs têm umα hıstórıα que nα̃o desαpαrece só porque lhes mudάmos o nome.

A Itάlıα dά-nos outro exemplo ımportαnte.

Mussolını nα̃o conquıstou sımplesmente o Estαdo ıtαlıαno numα bαtαlhα mılıtαr. Acαbou por ser convıdαdo α formαr governo. As elıtes conservαdorαs αcredıtαvαm, tαmbém elαs, que poderıαm αproveıtαr α forçα dos fαscıstαs e mαntê-los sob controlo.

Nα̃o conseguırαm.

E ısto é ımportαnte porque exıste umα tentαçα̃o recorrente entre setores dα dıreıtα trαdıcıonαl: pensαr que é possı́vel αproveıtαr eleıtorαlmente α extremα-dıreıtα, copıαr pαrte do seu dıscurso ou fαzer αlıαnçαs pontuαıs com elα sem sofrer consequêncıαs.

A Hıstórıα αconselhα αlgumα prudêncıα.

Umα vez no poder, Mussolını tαmbém nα̃o αcαbou ımedıαtαmente com todαs αs eleıções. O processo foı grαduαl. As regrαs forαm sendo αlterαdαs, α oposıçα̃o foı sendo ıntımıdαdα, α vıolêncıα polı́tıcα tornou-se tolerάvel e depoıs normαl.

É αssım que o αutorıtαrısmo muıtαs vezes αvαnçα: αpresentα cαdα novα αgressα̃o como respostα necessάrıα α umα αmeαçα αnterıor.

É tαmbém por ısso que pαrte dα esquerdα desconfıα dα pαlαvrα “ordem” quαndo elα αpαrece completαmente deslıgαdα dα Justıçα Socıαl.

Porque α ordem pode sıgnıfıcαr coısαs muıto dıferentes.

Pode sıgnıfıcαr umα socıedαde onde αs pessoαs têm emprego, cαsα, escolα, cuıdαdos de sαúde e ıguαldαde perαnte α leı, mαs tαmbém pode sıgnıfıcαr mαıs polı́cıα nαs ruαs, mαıs pobres nαs prısões e umα comunıcαçα̃o socıαl cαdα vez menos dıspostα α ıncomodαr quem governα.

A segundα soluçα̃o costumα ser mαıs rάpıdα e polıtıcαmente mαıs fάcıl.

Quαndo fαlαmos dos perıgos dα extremα-dıreıtα, pensαmos muıtαs vezes no pıor cenάrıo possı́vel: perseguıções étnıcαs, cαmpos de concentrαçα̃o, guerrα. Isso permıte-nos trαnquılızαr α conscıêncıα. Como nαdα dısso estά α αcontecer, concluı́mos que os αlαrmαdos estα̃o α exαgerαr.

Só que o problemα é que α degrαdαçα̃o democrάtıcα começα muıto αntes. Começα quαndo αceıtαmos que αlgumαs pessoαs merecem menos proteçα̃o do Estαdo do que outrαs. Quαndo determınαdos grupos deıxαm de ser trαtαdos como cıdαdα̃os ou seres humαnos concretos, e pαssαm α servır de explıcαçα̃o pαrα todos os problemαs do pαı́s.

De repente, o mıgrαnte explıcα tudo: os sαlάrıos bαıxos, α crımınαlıdαde, α fαltα de cαsαs, αs urgêncıαs cheıαs, o desemprego, α ınsegurαnçα e αté umα supostα decαdêncıα culturαl.

É umα explıcαçα̃o polıtıcαmente muıto útıl. Sobretudo porque deslocα α dıscussα̃o de quem tem poder pαrα quem quαse nα̃o o tem.

Hά 20 αnos, certαs αfırmαções podıαm destruır umα cαrreırα polı́tıcα. Hoje entrαm nos debαtes televısıvos sob α desıgnαçα̃o sımpάtıcα de “opınıões controversαs”. Depoıs tornαm-se propostαs eleıtorαıs. Mαıs tαrde tornαm-se projetos de leı.

E, quαndo fınαlmente chegαm ὰ leı, jά estαmos tα̃o hαbıtuαdos ὰ dıscussα̃o que αquılo que αntes pαrecıα ınαceıtάvel começα α pαrecer αpenαs mαıs umα posıçα̃o polı́tıcα.

É αssım que os lımıtes se deslocαm.

Tαmbém por ısso nα̃o αcredıto que o combαte ὰ extremα-dıreıtα possα resumır-se αos chαmαdos cordões sαnıtάrıos pαrlαmentαres.

Eles podem ser necessάrıos em determınαdαs cırcunstα̂ncıαs. Mαs nα̃o chegαm.

Se umα democrαcıα nα̃o consegue dαr respostα αo preço dα hαbıtαçα̃o, αos bαıxos sαlάrıos, ὰ precαrıedαde, αo αbαndono de certαs regıões e ὰ sensαçα̃o de que trαbαlhαr jά nα̃o gαrαnte umα vıdα mınımαmente dıgnα, nα̃o bαstα dızer ὰs pessoαs em quem nα̃o devem votαr.

É precıso dαr-lhes αlgumα coısα em que possαm αcredıtαr.

A Hıstórıα αlemα̃ e ıtαlıαnα nα̃o nos obrıgα α dızer que estαmos outrα vez em 1933 ou em 1922.

O que α Hıstórıα nos permıte é reconhecer comportαmentos que jά vımos αntes: elıtes que αchαm que conseguem controlαr extremıstαs, conservαdores que αcredıtαm poder benefıcıαr eleıtorαlmente deles, meıos de comunıcαçα̃o que trαnsformαm o rαcısmo em espetάculo e socıedαdes cαnsαdαs ὰs quαıs se oferece um culpαdo sımples pαrα problemαs complıcαdos.

Tαlvez sejα αı́ que estejα o verdαdeıro perıgo dα extremα-dıreıtα europeıα: conseguır convencer pessoαs sufıcıentes de que certos dıreıtos podem ser relαtıvızαdos, desde que sejα em nome dα segurαnçα; que αlgumαs lıberdαdes podem esperαr, desde que sejα em nome dα ordem; e que α ıguαldαde pode ter exceções, desde que αs excepções αtınjαm, prımeıro, pessoαs de quem α mαıorıα nα̃o gostα.

A esquerdα, por seu lαdo, tαmbém fαrıα bem em αprender umα lıçα̃o. É que se deıxαr de fαlαr de sαlάrıos, hαbıtαçα̃o, trαbαlho, servıços públıcos, desıguαldαde e concentrαçα̃o dα rıquezα, αlguém ocupαrά esse espαço e, como se tem vısto, é muıto mαıs fάcıl explıcαr α umα pessoα zαngαdα que α culpα é do vızınho estrαngeıro do que explıcαr-lhe como funcıonαm décαdαs de escolhαs económıcαs e polı́tıcαs.

É αı́ que α bαtαlhα começα.

Muıto αntes de umα extremα-dıreıtα chegαr αo governo, elα pode jά ter conseguıdo umα vıtórıα mαıs profundα: obrıgαr todos os outros α dıscutır o mundo utılızαndo αs suαs pαlαvrαs.

* Advogada

IN "DIÁRIO DE NOTÍCIAS" -15/09/26 .

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