29/11/2009

ALEXANDRE DE GUSMÃO



Alexandre de Gusmão
Nascimento: 1695
Santos (SP)
Falecimento: 30 de dezembro de 1753
Lisboa (Portugal)
Profissão: Advogado e diplomata
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Alexandre de Gusmão (Santos, 1695Lisboa, 1753) foi um diplomata luso-brasileiro nascido no Brasil colônia, que representou Portugal em vários países, nomeadamente em Roma, onde chegou a ser convidado para a corte do Papa Inocêncio XIII. Notabilizou-se pelo seu papel crucial nas negociações do Tratado de Madrid, assinado em 1750, que definiu os limites entre os domínios coloniais portugueses e espanhóis na América do Sul, criando assim as bases do actual Brasil.

Entre 1730 e 1750 foi o secretário particular de D. João V, e nessa condição teve grande influência nas decisões de Portugal sobre o Brasil. Suas doutrinas políticas e econômicas tiveram a defesa do Marquês de Pombal, que dizia: "Sua majestade [D. João V] não distingue seus vassalos pela cor; distingue-os pela inteligência". Considerado o "avô" da diplomacia brasileira por sua atuação no Tratado de Madrid, onde defendeu o princípio do uti possidetis. O resultado do Tratado foi praticamente a triplicação do território brasileiro e o uti possidetis passou a ser largamente utilizado pela diplomacia brasileira para solucionar às questões fronteiriças do Brasil.

Nono dos doze filhos de Francisco Lourenço Rodrigues, cirurgião, e Maria Álvares, era irmão de Bartolomeu de Gusmão, o padre voador. Casou-se em Lisboa com Isabel Maria Teixeira Chaves, com quem teve os filhos Viriato e Trajano. Em 1752, a esposa e os dois filhos morreram tragicamente num incêndio que destruiu sua casa de Lisboa.


Locais de vida e viagens

Formação

Estudos preparatórios

Dos doze irmãos de Alexandre, oito entraram para a vida religiosa. Com seus irmãos, Simão e Bartolomeu, ele estudou no Colégio de Belém, em Cachoeira, na Bahia, cujo fundador (em 1687) e diretor foi o protetor da família, padre jesuíta e escritor Alexandre de Gusmão. É dele que Alexandre recebeu o sobrenome Gusmão. Ao lado da matrícula do aluno constava "menino estudioso, engenhoso, mas bastante velhaco".

Padre Alexandre foi como um padrinho para Bartolomeu e Alexandre. Por sua orientação, o jovem Alexandre de Gusmão passou para o Colégio das Artes, ainda na Bahia, onde completou em três anos seus estudos de Latim e Lógica, Metafísica e Ética, Retórica e Filosofia, distingüindo-se como "filósofo excelente".

Bacharel em Direito, Paris

Em 1710 Alexandre muda-se para Lisboa para morar com Bartolomeu. Por meio dos contatos deste com a Corte portuguesa, Alexandre é escolhido em 1715 como secretário da Embaixada portuguesa em Paris. Ali cursou Direito Civil na Sorbonne, convivendo com estudantes, na sua maioria pobres.

Carreira diplomática

Em 1719, Alexandre de Gusmão voltou a Portugal levando o diploma de Direito, conquistado com brilho.

Alexandre já adquirira um sólido conhecimento de história política e administrativa e em leis dos países europeus. Também entrara em contato com as personalidades do mundo oficial e com os tratados e acordos pelos quais as nações procuravam estabelecer seus direitos umas em relação às outras. Na ida a Paris, passara por Madrid, onde a comitiva portuguesa fizera curta estada, aproveitando para se aprofundar nos meandros do Tratado de Utrecht, que determinava limites das colônias espanholas e portuguesas nas Américas. Em Paris, além de aprimorar sua formação diplomática e cultural, embebera-se nas novas idéias anticlericais e racionalistas dos filósofos franceses. Agora, em Coimbra, Alexandre exibiu todo o seu conhecimento da legislação portuguesa.

Em 1720, viu-se incluído na delegação portuguesa que faria negociações em Cambray, em França, para que assim se familiarizasse ainda mais com as lides diplomáticas. Logo em seguida é enviado para Roma onde ficou sete anos, funcionando quase como embaixador de Portugal junto à Santa Sé (num momento tenso das relações entre Portugal e Santa Sé, afinal rompidas em 1728).

Em 1740, foi nomeado escrivão da puridade (secretário particular do rei). Sua influência cresceu e ele praticamente dirigiu a política externa portuguesa neste período.

De 1746 a 1750 negociou com a Espanha o Tratado de Madrid.

Tratado de Madrid

O Tratado de Madrid foi a primeira tentativa de por fim ao litígio entre Portugal e Espanha a respeito dos limites de suas colônias na América do Sul.

Com as epopéias dos bandeirantes, desbravando o interior do Brasil e criando vilas em plena selva, a validade do antigo Tratado de Tordesilhas estava em xeque. O novo Tratado tinha por objetivo "que se assinalassem os limites dos dois Estados, tomando por balizas as paragens mais conhecidas, tais como a origem e os cursos dos rios e dos montes mais notáveis, a fim de que em nenhum tempo se confundissem, nem dessem ensejo a contendas, que cada parte contratante ficasse com o território que no momento possuísse, à exceção das mútuas concessões que nesse pacto se iam fazer e que em seu lugar se diriam". Assinado em 1750 o tratado não usava as as linhas convencionais, mas outro conceito de fronteiras, introduzido neste contexto por Gusmão, a posse efetiva da terra (uti possidetis) e os acidentes geográficos como limites naturais.

Com trabalhos apresentados à Corte espanhola, Alexandre de Gusmão comprovou que as usurpações luso-espanholas em relação à linha de Tordesilhas (1494) eram mútuas, com as portuguesas na América (parte da Amazônia e do Centro-oeste) sendo compensadas pelas da Espanha na Ásia (Filipinas, Marianas e Molucas).

Apesar de Tomás da Silva Teles (Visconde de Vila Nova de Cerveira) ter representado Portugal, Alexandre de Gusmão foi o redator do Tratado e o idealizador da aplicação do uti possidetis.

Em 1746, quando começaram as negociações diplomáticas a respeito do Tratado, Alexandre de Gusmão já possuía os mapas mais precisos da América do Sul, que encomendara aos melhores geógrafos do Reino. Era um dos trunfos com que contava para a luta diplomática que duraria quatro anos.

Alexandre sabia que os espanhóis jamais deixariam em paz uma colônia (Sacramento) que lhes prejudicava o tesouro. Além disso, descobrira-se ouro no Brasil, não era preciso entrar em conflitos por causa da prata peruana. Para a compensação, já tinha em vista as terras convenientes à coroa portuguesa: os campos dos Sete Povos das Missões, Oeste do atual estado do Rio Grande do Sul, onde os portugueses poderiam conseguir grandes lucros criando gado.

Finalmente, em Madrid, a 13 de janeiro de 1750, firmou-se o tratado: Portugal cedia a Colônia do Sacramento e as suas pretensões ao estuário da Prata, e em contrapartida receberia os atuais estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (território das missões jesuíticas espanholas), o atual Mato Grosso do Sul, a imensa zona compreendida entre o alto Paraguai, o Guaporé e o Madeira de um lado e o Tapajós e Tocantins do outro, regiões estas desabitadas e que não pertenceriam aos portugueses se não fossem as negociações do tratado.

Foi meio continente assegurado a Portugal pela atividade de Alexandre de Gusmão. Para a região mais disputada, o Sul, o santista já enviara, em 1746, casais de açorianos para garantir a posse do terreno. Era uma nova forma de colonização que Alexandre preconizava, através de famílias que produzissem, sem precisar de escravos. Os primeiros sessenta casais fundaram o Porto dos Casais, mais tarde Porto Alegre.

O tratado foi admirável em vários aspectos. Determinou que sempre haveria paz entre as colônias americanas, mesmo quando as metrópoles estivessem em guerra. Abandonou as decisões tomadas arbitrariamente nas côrtes européias por uma visão mais racional das fronteiras, marcadas pelos acidentes naturais do terreno e a posse efetiva da terra. O princípio romano de uti possidetis deixou de se referir à posse de direito, determinada por tratados, como até então tinha sido compreendido, para se fundamentar na posse de fato, na ocupação do território: as terras habitadas por portugueses eram portuguesas.

Entretanto o tratado logo fez inimigos: os jesuítas espanhóis, expulsos das Missões, e os comerciantes impedidos de contrabandear no Prata. Seus protestos encontraram um inesperado apoio no novo homem forte de Portugal: o Marquês de Pombal.

Um novo acordo — o de El Pardo —, firmado em 12 de fevereiro de 1761, anulou o de Madrid. Mas as bases geográficas e os fundamentos jurídicos por que Alexandre tanto lutara em 1750 acabaram prevalecendo e, em 1777, aqueles princípios anulados em El Pardo ressurgiram no Tratado de Santo Ildefonso. A questão foi ainda objeto de novo tratado do Pardo, a 11 de março de 1778.

Devido ao sucesso obtido por Gusmão no Tratado de Madrid, mais tarde o historiador paraguaio padre Bernardo Capdeville se referiria a este como "a vergonha da diplomacia espanhola"

WIKIPÉDIA

D. LUÍS DA CUNHA


D. Luís da Cunha.

Luís da Cunha (Lisboa, 25 de Janeiro de 1662Paris, 9 de Outubro de 1749) foi um diplomata português que serviu o rei D. João V. Foi comendador da Ordem de Cristo, arcediago da Sé de Évora, desembargador do Paço, enviado extraordinário de Portugal às Cortes de Londres, Madrid e Paris, e ministro plenipotenciário no Congresso de Utrecht. Pertenceu também à Real Academia de História.


Biografia

Foi filho de D. António Álvares da Cunha, guarda-mor da Torre do Tombo, e sobrinho de D. Sancho Manoel de Vilhena, conde de Vila Flor. Estudou na Universidade de Coimbra, onde se formou em Cânones (1686), tendo logo após sido nomeado como desembargador da Relação do Porto, e posteriormente, para a Relação de Lisboa.

Em 1696 foi nomeado como embaixador de Portugal em Londres, onde participou em importantes negociações relacionadas com a intervenção portuguesa na Guerra da Sucessão Espanhola, o acontecimento mais complexo da política internacional daquela época. Em 1712, juntamente com o conde de Tarouca, representou com mérito os interesses portugueses no Congresso de Utrecht, que tinha como finalidade pôr fim àquele conflito. Dessas negociações resultaram o chamado Tratado de Utrecht, na verdade um conjunto de acordos que estabeleciam as condições de paz entre a França, a Inglaterra e a Espanha, e os demais países envolvidos.

Após a assinatura do Tratado de Utecht de 1715, voltou a Londres como embaixador extraordinário, para felicitar o rei Jorge I da Grã-Bretanha, pela sua elevação ao trono. Em seguida foi enviado a Madrid, então governada pelo cardeal Alberoni, com tem teve várias disputas. Posteriormente, foi nomeado ministro plenipotenciário ao Congresso de Cambray, que não se realizou, tendo permanecido em Paris, de onde foi obrigado se retirar em função de um desentendimento suscitado pelo procedimento do abade de Livry, ministro de França em Portugal. D. Luís dirigiu-se a Bruxelas, onde chegou a um acordo com o marquês de Fénelon, ministro francês em Haia, e retornou a Paris, onde se manteve como ministro de Portugal na Corte francesa, até ao seu falecimento.

Destes contactos internacionais partiu o impulso para a escrita de obras como as Memórias da Paz de Utrecht onde registra a história política da Europa durante meio século, e o seu notável Testamento Político, que tiveram apreciável difusão no século XVIII e se podem considerar elementos de renovação da cultura filosófico-política portuguesa da época.

Ideias

D. Luís da Cunha foi considerado como um estrangeirado em seu país. Deplorava a ausência de uma comunidade reformada (calvinista) em Portugal. Comparando a situação portuguesa com a da França, notou que o desafio huguenote tinha impedido que o sacerdócio católico francês se afundasse até ao nível "sórdido" dos seus pares portugueses (David Landes).

Quando da ascensão ao trono do rei D. José I enviou-lhe uma carta na qual sugeria ao rei dois homens de boa visão para o coadjuvarem no Governo: Gonçalo Manuel Galvão de Lacerda, que havia servido longos anos no Conselho Ultramarino, e Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro marquês de Pombal, que se podia destinar à pasta do Reino, descrevendo-o como homem com sentido de realidades, cauteloso a formular projectos mas determinado em sua firme execução - como indica Joaquim Veríssimo Serrão em sua História de Portugal, volume VI, página 25.

Portugal e Brasil

Dom Luís da Cunha defendeu a ideia da transferência da capital da monarquia portuguesa da metrópole para o Brasil. Ao estabelecer-se no "imenso continente do Brasil", o rei de Portugal deveria tomar o título de "imperador do Ocidente". Esta ideia fora já apresentada pelo padre António Vieira, na situação de emergência do período da Restauração, mas foi reiterada por Dom Luís da Cunha quando não pendia ameaça iminente sobre a soberania portuguesa na metrópole. A ideia de dom Luís da Cunha visava buscar um meio de afirmação e engrandecimento do reino de Portugal ao mesmo tempo que garantia melhor a sua segurança na Europa.

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ACADEMIA REAL DE HISTÓRIA PORTUGUESA

Gravura de Vieira Lusitano alusiva à criação da Academia Real de História Portuguesa.

A Academia Real da História Portuguesa (1720-1776) foi uma instituição acadêmica portuguesa.

Uma das manifestações do Iluminismo no país, foi criada com o objectivo de escrever a história de Portugal e seus domínios ultramarinos.

Foi percursora da Academia Real das Ciências de Lisboa (hoje Academia das Ciências), fundada em 1780, e legou um importante acervo de publicações na sua Colecção dos Documentos e Memórias da Academia Real de História assim como nas obras individuais dos seus sócios.

É sua herdeira a Academia Portuguesa da História, fundada em 1936).

História

A instituição deve a sua fundação ao 4º conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de Meneses (1673-1743) e a D. António Caetano de Sousa, que conseguiram obter o interesse do rei D. João V, para o então moderno estudo da história. Esse interesse levou a que, por Decreto de 8 de Dezembro de 1720, a Academia de História Portuguesa, nascida de um conjunto de reuniões iniciadas em 1717 sob o impulso do conde da Ericeira, ganhasse protecção do monarca, passando a designar-se Academia Real da História Portuguesa.

O seu decreto de fundação determinava que se escreve a história eclesiástica destes reinos e, depois, tudo o que pertencesse à história deles e de suas conquistas.

A Academia estabeleceu-se numa das salas do palácio dos duques de Bragança e teve os seus estatutos confirmados por Real Decreto de 4 de Janeiro de 1721.

Nesses estatutos estabelecia-se que houvesse 50 académicos de número, os quais se encarregariam de escrever a história eclesiástica, militar e civil do país, gozando as suas publicações de isenção das licenças do Desembargo do Paço e livres de qualquer censura que não fosse a dos seus quatro censores privativos.

A divisa da Academia Real de História Portuguesa era a frase latina "Restituet omnia", tradução do seu objectivo de restituir ao mundo o ilustre conjunto de acções gloriosas dos lusitanos.

Por Carta Régia de 11 de Janeiro de 1721, os académicos receberam especial autorização facilitando o acesso aos arquivos e cartórios do Reino.

Reformulando a historiografia portuguesa, nesta Academia viriam a confluir o abandono da literatura monástica como principal repositório do conhecimento histórico e uma certa limitação na recolha e tratamento de informação, redundando numa perda de eficácia, compreensível à luz da revolução metodológica pretendida pelos seus membros, embora aparentemente sem a total assimilação dos novos processos.

Apesar dos esforços de um dos seus impulsionadores mais empenhados e ilustrados, D. António Caetano de Sousa, os trabalhos da Academia Real de História Portuguesa redundaram, por vezes, em exercícios retóricos pomposos e não na investigação científica da história a que a instituição se propunha.

Entre os seus membros mais importantes, para além de D. Manuel Caetano de Sousa, registram-se os marqueses de Abrantes, de Alegrete, de Fronteira, de Valença, o conde da Ericeira, Manuel Teles da Silva, Diogo Barbosa Machado, Alexandre Ferreira, Jerónimo Contador Argote, Raphael Bluteau, António dos Reis e o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o Pai da Aerostação.

A partir de 1729, começam a surgir os resultados do labor da Academia através da publicação de um conjunto de obras marcantes da historiografia portuguesa:

  • Prosas Portuguesas recitadas em differentes Congressos Academicos, pelo padre D. Raphael Bluteau, 2 tomos em 1 volume, (1728);
  • Notícias Cronológicas da Universidade de Coimbra, de Francisco Leitão Ferreira (1729);
  • Memórias para a História Eclesiástica do Bispado da Guarda, de Silva Leal (1729);
  • Memórias para a História do governo de D. João I, de José Soares da Silva (de 1730 até 1734);
  • Memórias para a História Eclesiástica do Bispado da Guarda, de J. Contador de Argote (de 1732 até 1747);
  • Memória Histórica da Ordem Militar de S. João de Malta, de frei Lucas de Santa Catarina (1734);
  • Geografia Histórica dos Estados Soberanos da Europa de frei Lucas de Santa Catarina (1734 e 1736);
  • História Genealógica da Casa Real, de António Caetano de Sousa, de que foram publicados 19 volumes de 1735 até 1748, juntamente com os de Provas e Índice;
  • Memórias Históricas de Algumas Ordens Militares, de Alexandre Ferreira (1735);
  • Memórias para a História de Portugal que compreendem o governo de D. Sebastião, de Diogo Barbosa Machado (de 1736 até 1751 foram publicados os quatro volumes);
  • História da Santa Inquisição do Reino de Portugal e suas Conquistas, de Pedro Monteiro (1749 e 1750;
  • Memórias para a História da Universidade de Coimbra, de Francisco Leitão Ferreira;
  • Vocabulário Latino e Português, do padre Raphael Bluteau,
  • Dicionário Geográfico, do padre Luís Cardoso, obra monumental que apenas chegou à letra C devido à interrupção provocada pelo terramoto de 1755.

A história e produção científica da Academia estão patentes na História da Academia de História, publicada por Fernão Teles da Silva, Marquês de Alegrete, e na monumental Colecção dos Documentos e Memórias da Academia Real de História Portuguesa, impressa entre 1721 e 1736 (15 volumes).

Após conhecer esse curto período de florescimento, entrou, a partir de 1736, em lenta decadência, até que desapareceu.

MADRE PAULA


Madre Paula (1701-1768) foi uma freira famosa, apenas por ser amante do rei D. João V, de quem teve vários filhos.

A madre Paula, religiosa do Mosteiro de São Dinis Odivelas e mãe de D. José, um dos Meninos de Palhavã, tornou-se a amante mais célebre do Magnânimo, ficando para sempre associada ao monarca e ao seu reinado. O traço de escândalo da paixão que teria inspirado a D. João V durante uma longa relação amorosa combina-se com a fama do espantoso luxo que a protecção do soberano enriquecido pelo ouro brasileiro forneceria a Paula.

Paula Teresa da Silva nasceu em Lisboa em 17 de Junho de 1701, sendo baptizada na freguesia de Santa Justa, de acordo com o registo de baptismos desta paróquia. O seu avô paterno era João Paulo de Bryt, um alemão estabelecido em Lisboa como ourives. Do seu casamento com Leonor de Almeida (filha do marinheiro napolitano Domingos Urselo e de Domingas de Andrade e Almeida) nasceu Adrião de Almeida Paulo, que seguiu a profissão do pai. Adrião de Almeida e a sua mulher, Josefa da Silva e Sousa, tiveram três filhas, Maria Micaela da Luz, Paula Teresa da Silva e Leocádia Felícia de Assis e Almeida.

De acordo com os registos do mosteiro de Odivelas, Maria Micaela da Luz tornou-se noviça em 15 de Agosto de 1704, tendo professado a 4 de Outubro desse ano e permanecido na instituição até à sua morte (4 de Julho de 1768). Quanto a Leocádia Felícia, também passou por Odivelas, vindo no entanto a casar com José Falcão de Gamboa Fragoso (morgado da Boavista e Santo Aleixo e dono da Quinta da Bela Vista, ou Quinta do Falcão, na Pontinha), do qual teve uma filha.

Paula Teresa seguiu o exemplo da irmã mais velha, juntando-se a Maria da Luz no Mosteiro de São Dinis em Odivelas, cujos assentos registram o seu noviciado, em 31 de Janeiro de 1717, tal como a profissão, em 22 de Fevereiro do ano seguinte. A sua entrada na vida religiosa parece ter sido decidida pelo pai desde muito cedo. Os escassos recursos de Adrião de Almeida justificariam essa vontade de assegurar o sustento das filhas através do seu ingresso no célebre mosteiro dos arredores de Lisboa. Não existe base para a hipótese de Paula ter conhecido D. João V antes de entrar para a congregação.

Odivelas era um local assiduamente frequentado pela nobreza da corte na época em que Paula se tornou freira. Em 1719, realiza-se no mosteiro a festa do Desagravo do Santíssimo Sacramento (11 de Maio), promovida pelo conde de Penaguião e por Francisco de Assis de Távora, na qual se ofereceu “um magnífico jantar a toda a nobreza que assistiu” à cerimónia. No mesmo ano, a 23 de Outubro, ocorre em Odivelas, com a presença da Corte, a tourada comemorativa do casamento de D. Brás Baltasar da Silveira e D. Joana de Meneses (filha dos condes de Santiago). Não faltariam, portanto, oportunidades para D. João V e os titulares que o rodeavam se deslocarem ao local.

Terá sido por esta altura que começaram os encontros entre o rei e Paula Teresa da Silva, uma vez que D. José de Bragança nasce, em Lisboa, no dia 8 de Setembro de 1720. Sobre a forma como o monarca e a filha de Adrião de Almeida se conheceram, existem versões sem grande credibilidade, como as de Charles Fréderic de Merveilleux (o interesse por outra mulher que resistia, refugiando-se em Odivelas, à sua aproximação teria levado o rei ao mosteiro, onde conheceria Paula) e Alberto Pimentel (para este autor, o primeiro interesse amoroso do monarca seria D. Madalena de Miranda, mãe de D. Gaspar, outro dos “Meninos de Palhavã”).

O luxo de Paula

Adrião de Almeida beneficiou da ligação entre a sua segunda filha e o monarca, que lhe concedeu algumas benesses, documentadas na Chancelaria da Ordem de Cristo. Em 15 de Setembro de 1722, o pai de Paula recebe o hábito de Cristo (nesta altura, segundo a carta que lhe atribui o hábito, era já viúvo e maior de 50 anos) e é armado cavaleiro, recebendo licença para professar no Mosteiro de Nossa Senhora da Luz. É-lhe também atribuída uma tença de 12 réis “no Almoxarifado da Fruta de Lisboa” (8 de Outubro).

Em 1728, Paula recebe tenças avultadas, registadas na Chancelaria de D. João V. Assim, em 28 de Abril, são concedidos à religiosa 210 mil réis anuais. Em 10 de Maio, são atribuídos 210 mil réis por ano a Paula e a todos os seus herdeiros e sucessores, “assentados nos direites da Casa de India e pagos como athegora em duas pagas de Natal e São João”. Finalmente, a 3 de Novembro, é estabelecida uma tença de 1288 mil réis (cedida por Manuel Tomás da Silva, deão da capela real de Vila Viçosa), que duraria três vidas (Paula, Maria da Luz, Leocádia), podendo prolongar-se por mais duas vidas, caso a terceira beneficiária tivesse filhos.

D. João V não deixaria de mandar construir para Paula “uma residência cujo interior era digno da magnificência do rei do ouro”, erguendo o edifício conhecido popularmente por “Torre da Madre Paula” (demolido em 1948 devido ao perigo de derrocada, quando das obras no espaço do mosteiro). Aí se localizariam os aposentos de Paula e da sua irmã Maria da Luz.

Uma descrição do seu interior encontra-se num manuscrito anónimo e sem data (existente na Biblioteca Nacional de Lisboa), embora aparentemente contemporâneo das habitantes da casa, uma vez que utiliza o tempo presente (“O quarto de cima, aonde assistem”, “O gabinete em que se touca Paula”). Um dos exemplares conhecidos do documento possui o título de Notícia verdadeira do ornato que se viu nas casas de Madre Soror D. Paula Maria, religiosa no mosteiro de Odivelas. Seria a quem El-Rei D. João V tratou com as mais distintas honras obrigado a um amoroso afecto.

O texto refere as várias divisões que compõem os aposentos de Paula e Maria da Luz, enumerando a decoração (“assentos de veludo amarelo, com passamanes de prata”, “armado de melania carmesim, com franjas e passamanes cor de ouro”) e os móveis que as ornamentam, procurando o autor impressionar com a profusão de objectos como espelhos (frequentemente dourados) ou bufetes (existentes em todos os espaços descritos, excepto no oratório, também ele luxuoso). Alguns móveis, como o “leito da moda” de Paula, com “santos de ouro maciço em relevos” e roupa também valiosa (“lençois de olanda mui boa”), merecem particular destaque. O autor afirma não ter contemplado (“isto ainda não se viu”) as numerosas arcas “de roupa de cheiro” que se dizem existir.

O aspecto mais impressionante da descrição é a abundância de prata (“tudo de prata dourada, que não tem número”, “e tudo, que não se pode repetir, de prata”), de talha dourada (“as paredes de talha dourada”, “tectos de entalhados dourados”, “oratório todo de talha dourada”, “duas sanefas de talha dourada”, etc.) e ouro (“cortinas bordadas de ouro e borlas de ouro”). A repetição de termos relativos a este metal (nos onze parágrafos do texto, a palavra “ouro” é utilizada trinta vezes, tal como o conjunto de adjectivos dela derivados) destaca a preocupação do autor anónimo em realçar o esplendor da habitação. Os metais brasileiros abundariam em Odivelas, sendo a habitação de Paula (servida por nove criadas) um verdadeiro símbolo do esplendor joanino.

César de Saussure contribui para a ideia do luxo de Paula com a sua descrição da “banheira de prata maciça”, “dourada por dentro e por fora”, que viu em Londres (a qual terá sido encomendada em 1724 por D. João V ). Fabricada para oferta à amante do monarca português, “uma religiosa de não sei que convento”, a banheira pesaria 3580 onças, causando, pela sua beleza, a admiração da corte britânica.

A caracterização pormenorizada do edifício presente no documento anônimo tem sido considerada verosímil, embora Carlota Abrantes Saraiva aponte a ausência de referências aos conjuntos de valiosos azulejos joaninos cuja existência no local, já no século XIX, é referida por Borges de Figueiredo e Manuel Bernardes Branco. Na minha opinião, o manuscrito que descreve a habitação da freira erroneamente designada por “Paula Maria” no título pode não merecer plena confiança, caindo no exagero. Terá surgido em resultado quer do interesse pela relação extraconjugal de D. João V quer da fama que logo na altura se criou acerca da ostentação que constituía um aspecto essencial da imagem do rei freirático. A sua favorita não poderia deixar de beneficiar dessa riqueza, correspondendo o conteúdo do texto às expectativas dos eventuais leitores.

Mitos criados logo na primeira metade do século XVIII estarão na origem da crença no luxo oriental da religiosa. No entanto, D. João V terá contribuído (conscientemente?) para essa lenda com as benesses que concedeu a Paula e à sua família e o seu investimento na decoração da Torre (cujos aposentos principais terão sido destruídos pelo sismo de 1755

AQUEDUTO DAS ÁGUAS LIVRES

OS MENINOS DE PALHAVÃ


Os denominados Meninos de Palhavã eram os filhos bastardos (de sexo masculino) de D. João V (1706-50), reconhecidos pelo soberano em documento que firmou em 1742, mas que só foi publicado em 1752, após a sua morte.

A expressão deriva do facto de terem habitado no palácio do marquês de Louriçal, na zona de Palhavã, na altura arredores de Lisboa mas que hoje se situa em plena cidade (o edifício - denominado Palácio da Azambuja - é hoje a Embaixada de Espanha em Lisboa, ou "Palácio dos Meninos de Palhavã"). Receberam educação em Santa Cruz de Coimbra sob o preceptorado de Frei Gaspar da Encarnação para se fazerem religiosos. Por escrúpulos de consciência do rei, há um «Decreto porque S. Majestade houve por bem declarar três filhos ilegítimos», dado em Caldas da Rainha em 6 de agosto de 1742. Considera que eram filhos de «mulheres limpas de todo sangue infecto», pelo que pedia ao príncipe herdeiro para favorecer os irmãos. Este assim o fez por decreto de 21 de abril de 1752, registrado ao livro 1º das Patentes, folio 223.

Eram eles:

Em consequência de um conflito que tiveram com o marquês de Pombal, D. António e D. José foram desterrados para o Buçaco em 1760 de onde só puderam regressar depois da morte de D. José I, em 1777.


PALÁCIO NACIONAL DE MAFRA


Palácio Nacional de Mafra em 2006.

O Palácio Nacional de Mafra localiza-se no concelho de Mafra, distrito de Lisboa, em Portugal.

A cerca de 25 quilómetros de Lisboa, constitui-se em um palácio e mosteiro monumental em estilo barroco. Foi iniciado em 1717 por iniciativa de João V de Portugal, em virtude de uma promessa que o jovem rei fizera se a rainha D. Maria Ana de Áustria lhe desse descendência. Classificado como Monumento Nacional em 1910, foi um dos finalistas para uma das Sete Maravilhas de Portugal a 7 de Julho de 2007.

Muitos são os seus mitos, desde tuneis secretos que levam ate à Ericeira, a ratazanas gigantes vivendo nos esgotos onde, junto, se poderá encontrar especies raras, Maria Fonseca e Ines Maria Ferreira.


Convento

Igreja do Palácio Nacional de Mafra.

Em 1715, foi fundado o Convento de Nossa Senhora e Santo António de Mafra, que pertencia à província eclesiástica da Arrábida. Teve origem numa comunidade do Hospício do Espírito Santo. Em 1730, sagrada a Igreja de Nossa Senhora e Santo Antônio, junto de Mafra, foi para lá transferida a sobredita comunidade. Entre 1771 e 1791, por breve de Clemente XIV, de 4 de Julho de 1770, a requerimento do Marquês de Pombal, foi ocupado pelos Cônegos Regulares de Santo Agostinho da Congregação de Santa Cruz de Coimbra; os Franciscanos da Província da Arrábida saíram do Convento de Mafra, em Maio de 1771. Em 1791, os Cônegos Regulares de Santo Agostinho saíram do edifício de Mafra.

Em 1834, no âmbito da "Reforma geral eclesiástica" empreendida pelo ministro e secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo Decreto de 28 de Maio, promulgado a 30 desse mês, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respectivos bispos, até à morte da última freira, data do encerramento definitivo.

Palácio

Palácio Nacional de Mafra, Litografia de 1853.
Palácio Nacional de Mafra, vista panorâmica.

Há quem defenda que a obra se construiu por vias de uma promessa feita relativa a uma doença de que o rei padecia. O nascimento da princesa D. Maria Bárbara determinou o cumprimento da promessa. Este palácio e convento barroco domina a vila de Mafra.Foi classificado como Monumento Nacional em 1910 e uma das Sete Maravilhas de Portugal a 7 de Julho de 2007.

O trabalho começou a 17 de Novembro de 1717 com um modesto projecto para abrigar 13 frades franciscanos, mas o ouro do Brasil começou a entrar nos cofres portugueses; D. João e o seu arquitecto, Johann Friedrich Ludwig (Ludovice) (que estudara na Itália), iniciaram planos mais ambiciosos. Não se pouparam a despesas. A construção empregou 52 mil trabalhadores e o projeto final acabou por abrigar 330 frades, um palácio real, umas das mais belas bibliotecas da Europa, decorada com mármores preciosos, madeiras exóticas e incontáveis obras de arte. A magnifica basílica foi consagrada no 41.º aniversário do rei, em 22 de Outubro de 1730, com festividades de oito dias.

O palácio era popular para os membros da família real, que gostavam de caçar na tapada. Hoje em dia decorre aqui um projeto para a preservação dos lobos ibéricos. As melhores mobílias e obras de arte foram levadas para o Brasil, para onde partiu a família real quando das invasões francesas, em 1807. O mosteiro foi abandonado em 1834, após a dissolução das ordens religiosas. Durante os últimos reinados da Dinastia de Bragança, o Palácio foi utilizado como residência de caça e dele saiu também em 5 de Outubro de 1910 o último rei D. Manuel II para a praia da Ericeira, onde o seu iate real o conduziu para o exílio.

No palácio pode-se visitar a farmácia, com belos potes para medicamentos e alguns instrumentos cirúrgicos, o hospital, com dezasseis cubículos privados de onde os pacientes podiam ver e ouvir missa na capela adjacente, sem saírem das suas camas. No andar de cima, as sumptuosas salas do palácio estendem-se a todo o comprimento da fachada ocidental, com os aposentos do rei numa extremidade e os da rainha na outra, a 232 m de distância. Ao centro, a imponente fachada é valorizada pelas torres da basílica coberta com uma cúpula. O interior é forrado a mármore e equipado com seis órgãos do princípio do século XIX, com um repertório exclusivo que não pode ser tocado em mais nenhum local do mundo. O átrio da basílica é decorado por belas esculturas da Escola de Mafra, criada por D. José I em 1754, foram muitos os artistas portugueses e estrangeiros que aí estudaram sob a orientação do escultor italiano Alessandro Giusti. A sala de caça exibe troféus de caça e cabeças de javalis.

O Palácio possui ainda dois carrilhões, mandados fabricar em Antuérpia por D. João V, com um total de 92 sinos que pesam mais de 200 toneladas e são considerados os maiores e melhores do mundo.

Actualmente, o único residente do Palácio é um antigo tipógrafo, de nome Gil Mangens. Descendente de uma família de origem francesa, que chegou a Lisboa no século XVIII por altura da construção do Palácio, na pessoa de um gravador de nome Mangens, devotou, à imagem de seu pai e avô, toda a sua vida ao monumento que o acolhe.

Biblioteca do Convento de Mafra

Biblioteca do Convento de Mafra.

O maior tesouro de Mafra é a sua biblioteca, com chão em mármore, estantes em estilo rococó e uma coleção de mais de 40.000 livros com encadernações em couro gravadas a ouro, incluindo uma segunda edição de Os Lusíadas de Luís de Camões. Situada ao fundo do segundo piso é a estrela do palácio, rivalizando em grandiosidade com a Biblioteca da Abadia de Melk, na Áustria. Construida por Manuel Caetano de Sousa, tem 88 m de comprimento, 9.5 de largura e 13 de altura. O magnífico pavimento é revestido de mármore rosa, cinzento e branco. As estantes de madeira estilo rococó, situadas em duas filas laterais, separadas por um varandim contêm milhares de volumes encadernados em couro, testemunhando a extensão do conhecimento ocidental dos séculos XIV ao XIX. Entre eles muitas jóias bibliográficas, como incunábulos. Estes volumes magníficos foram encadernados na oficina local, também por Manuel Caetano de Sousa.