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O 'chega' e o seu voto
O pacote laboral só chumbou porque se tornou tema de primeiro plano,
graças à luta nas ruas e nos locais de trabalho. Além de anti-popular, o
pacote tornou-se impopular. E a sua aprovação ficaria mais cara a quem
desse o voto.
1. O pacote laboral só chumbou porque se tornou tema de primeiro plano, graças à luta nas ruas e nos locais de trabalho. Essa luta criou consciência alargada sobre a contra-reforma, retirou o palco às “guerras culturais” promovidas pela extrema-direita e forçou um consenso sindical que (sobretudo no momento mais alto da mobilização, a greve geral conjunta de dezembro) deu confiança em tempos difíceis. Além de anti-popular, o pacote tornou-se impopular. E a sua aprovação ficaria mais cara a quem desse o voto.
2. Tal como o fascismo histórico, o neofascismo, antes de estar no poder, evita aprovar as medidas impopulares dos liberais (sobretudo as que aplicaria se estivesse no poder). Tal como a Frente Nacional perante a reforma Macron das pensões, o Chega coloca a acumulação de força eleitoral acima da obediência orgânica ao plano patronal, distinguindo-se nisso da restante direita. Por isso escondeu o seu primeiro programa, de 2019, o mais sincero que já fez. A maioria parlamentar de liberais e neofascistas é perigosa, mas não tem ainda consistência política para choques com a maioria social.
3. Sem hegemonia no tema laboral, a direita fugiu dele. O Chega escolheu a idade da reforma como “condição”, para abortar qualquer acordo; Quando a UGT também fechou a porta, Montenegro e Ventura anteciparam a votação parlamentar; o PSD não pediu a baixa da lei à comissão sem votação (o que atrapalharia Ventura e arrastaria o processo, prolongando a centralidade do tema). Perdida a batalha, Montenegro e Ventura tentarão devolver o país à agenda conservadora, securitária e anti-imigração, o terreiro preferido da disputa entre as direitas. Que a esquerda não morda esse anzol e volte à iniciativa junto de quem venceu na sexta-feira.
IN "ESQUERDA" - 20/06/26 .

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