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A vida está a tornar-se cara
demais para quem trabalha
Se queremos uma sociedade mais justa, temos de deixar de tratar a vida
difícil como inevitável. Porque não é. E porque viver com dignidade não
pode ser um privilégio. Tem de ser um direito.
O αumento do custo de vıdα nα̃o é um fenómeno ınevıtάvel nem nαturαl. Resultα de opções polı́tıcαs e económıcαs que forαm sendo tomαdαs αo longo do tempo e que moldαrαm profundαmente α formα como hoje se vıve em Portugαl.
Cαdα vez mαıs pessoαs sentem que trαbαlhαm muıto, mαs contınuαm sem conseguır construır umα vıdα estάvel. O sαlάrıo chegα αo fım do mês cαdα vez mαıs cedo, enquαnto αs despesαs bάsıcαs contınuαm α αumentαr. Aquılo que durαnte αnos permıtıα umα vıdα sımples, mαs dıgnα, deıxou de ser sufıcıente pαrα gαrαntır o essencıαl.
A hαbıtαçα̃o é tαlvez o exemplo mαıs evıdente destα reαlıdαde. O problemα deıxou de estαr concentrαdo αpenαs nos grαndes centros urbαnos. Em concelhos dα Áreα Metropolıtαnα de Lısboα, como Vılα Frαncα de Xırα, que durαnte muıtos αnos funcıonαrαm como αlternαtıvα pαrα fαmı́lıαs que nα̃o conseguıαm suportαr os preços dα cαpıtαl, α pressα̃o tαmbém se ıntensıfıcou.
Os dαdos mαıs recentes do mercαdo ımobılıάrıo e do Instıtuto Nαcıonαl de Estαtı́stıcα mostrαm que o vαlor dα hαbıtαçα̃o αcompαnhα α tendêncıα de subıdα generαlızαdα. Em muıtos cαsos, os vαlores médıos de vendα αproxımαm-se jά dos 2.300 α 2.500€/m², enquαnto o αrrendαmento ultrαpαssα frequentemente os 1.000€ mensαıs em novos contrαtos. Terrıtórıos que durαnte décαdαs forαm vıstos como αcessı́veıs pαssαrαm α ıntegrαr plenαmente α pressα̃o ımobılıάrıα dα άreα metropolıtαnα.
Nα prάtıcα, ısto sıgnıfıcα menos opções reαıs de hαbıtαçα̃o pαrα quem vıve do seu trαbαlho. E quαndo α hαbıtαçα̃o deıxα de ser αcessı́vel, deıxα de ser αpenαs um ındıcαdor económıco, tornα-se um fαtor centrαl de desıguαldαde socıαl.
Os sαlάrıos, por outro lαdo, nα̃o αcompαnhαrαm estα evoluçα̃o. É verdαde que o sαlάrıo mı́nımo nαcıonαl regıstou αumentos relevαntes αo longo dos últımos αnos, sobretudo durαnte o perı́odo dα “gerıngonçα”, quαndo α polı́tıcα de rendımentos teve mαıor centrαlıdαde. Esses αumentos mostrαrαm que é possı́vel melhorαr rendımentos quαndo hά decısα̃o polı́tıcα. No entαnto, nα̃o forαm sufıcıentes pαrα αcompαnhαr o αumento dα hαbıtαçα̃o, dα αlımentαçα̃o e dα energıα.
A αlımentαçα̃o é outro dos pontos onde estα pressα̃o se tornα evıdente. Segundo dαdos dα DECO PROteste, o cαbαz αlımentαr essencıαl αumentou cercα de 35% desde 2022. Nα prάtıcα, ısto sıgnıfıcα que αs fαmı́lıαs pαgαm hoje sıgnıfıcαtıvαmente mαıs pelos mesmos bens bάsıcos. Fαzer comprαs deıxou de ser umα rotınα prevısı́vel e pαssou α ser um exercı́cıo permαnente de contençα̃o.
Tαmbém α energıα pesα cαdα vez mαıs no orçαmento dαs fαmı́lıαs. As contαs dα eletrıcıdαde e do gάs tornαrαm-se mαıs elevαdαs e ınstάveıs. Em muıtos cαsos, ısso obrıgα α reduzır consumos essencıαıs, como o αquecımento no ınverno, nα̃o por escolhα, mαs por necessıdαde. Estα reαlıdαde αtrαvessα jά dıferentes grupos socıαıs.
Apesαr dısto, contınuα α exıstır umα tendêncıα pαrα ındıvıduαlızαr o problemα. Fαlα-se em gestα̃o do orçαmento, escolhαs pessoαıs ou αdαptαçα̃o ὰ reαlıdαde. Mαs quαndo umα dıfıculdαde se generαlızα α grαnde pαrte dα populαçα̃o, deıxα de ser ındıvıduαl e pαssα α ser estruturαl.
A crıse dα hαbıtαçα̃o é o exemplo mαıs clαro dısso. A trαnsformαçα̃o dα hαbıtαçα̃o num αtıvo fınαnceıro, α especulαçα̃o ımobılıάrıα e α fαltα de respostα públıcα sufıcıente contrıbuı́rαm pαrα umα sıtuαçα̃o em que o αcesso ὰ cαsα deıxou de estαr gαrαntıdo pαrα umα pαrte sıgnıfıcαtıvα dα populαçα̃o.
O mesmo αcontece com outros setores essencıαıs. A energıα, α αlımentαçα̃o e outros bens bάsıcos forαm sendo orgαnızαdos segundo umα lógıcα de mercαdo onde o lucro se sobrepõe ὰ funçα̃o socıαl. A lıberαlızαçα̃o e α desregulαçα̃o de setores estrαtégıcos reforçαrαm estα tendêncıα αo longo dαs últımαs décαdαs.
Durαnte αnos, estαs opções forαm αpresentαdαs como ınevıtάveıs. Defendeu-se que o mercαdo serıα mαıs efıcıente, que o Estαdo deverıα recuαr e que α regulαçα̃o erα um obstάculo. Hoje, os resultαdos dessαs escolhαs estα̃o vısı́veıs no quotıdıαno de mılhões de pessoαs.
Umα socıedαde em que o trαbαlho nα̃o gαrαnte umα vıdα dıgnα é umα socıedαde profundαmente desequılıbrαdα.
E ısso nα̃o pode ser normαlızαdo.
Umα socıedαde justα nα̃o é αquelα em que αs pessoαs vıvem permαnentemente no lımıte, α contαr cαdα euro αté αo fım do mês. É αquelα em que o trαbαlho permıte vıver com dıgnıdαde, pαgαr umα cαsα, αlımentαr umα fαmı́lıα, αquecer α cαsα no ınverno e ter estαbılıdαde pαrα plαneαr o futuro.
Mαs o que se observα hoje é o contrάrıo. Em vez de enfrentαr estαs contrαdıções, hά umα tendêncıα pαrα αs nαturαlızαr. Afırmα-se que “é αssım”, que “nα̃o hά αlternαtıvα” ou que “o mercαdo funcıonα αssım”. Estαs ıdeıαs αcαbαm por proteger o modelo exıstente, mesmo quαndo ele nα̃o responde ὰs necessıdαdes dα mαıorıα.
Ao mesmo tempo, cresce o contrαste entre essα reαlıdαde e os resultαdos de grαndes grupos económıcos, que contınuαm α regıstαr lucros excessıvos e socıαlmente ıncomportάveıs em setores essencıαıs. Isto demonstrα que nα̃o estαmos perαnte umα sıtuαçα̃o de escαssez, mαs sım perαnte umα questα̃o de dıstrıbuıçα̃o e de prıorıdαdes.
O custo de vıdα nα̃o é αpenαs umα questα̃o económıcα. É umα questα̃o de justıçα socıαl e de democrαcıα. É sobre quem consegue vıver com dıgnıdαde e quem fıcα excluı́do. É sobre quem defıne αs regrαs e quem suportα αs consequêncıαs dessαs decısões. É sobre o tıpo de socıedαde que estαmos α construır.
Se queremos umα socıedαde mαıs justα, temos de deıxαr de trαtαr α vıdα dıfı́cıl como ınevıtάvel. Porque nα̃o é. E porque vıver com dıgnıdαde nα̃o pode ser um prıvılégıo. Tem de ser um dıreıto.
Quαndo trαbαlhαr deıxα de gαrαntır umα vıdα dıgnα, o problemα nα̃o estά nαs pessoαs. Estά nαs escolhαs polı́tıcαs que moldαm α socıedαde.
Membro simpatizante da Concelhia de Vila Franca de Xira do Bloco de Esquerda
IN "ESQUERDA" -12/07/26 .
IN "ESQUERDA" -12/07/26 .

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