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A imprudência
Perante as famílias que marcaram férias contando com o calendário
oficial, o ministro da Educação afirmou que fazê-lo foi um ato de
«imprudência». A frase merece reflexão, não apenas pelo seu tom, mas
sobretudo porque inverte a distribuição de responsabilidades.
Caso alguém queira desanuviar e assistir a uma novela realista não tem de se contentar com reality shows como o Secret Story, temos agora o drama dos exames nacionais.
No meio das sucessivas notícias sobre atrasos, falhas informáticas, alterações de calendário e dificuldades na classificação das provas, uma declaração do ministro da Educação destacou-se pela infelicidade. Perante as famílias que marcaram férias contando com o calendário oficial, Fernando Alexandre afirmou que fazê-lo foi um ato de «imprudência». A frase merece reflexão, não apenas pelo seu tom, mas sobretudo porque inverte a distribuição de responsabilidades.
Os cidadãos organizam a sua vida com base na previsibilidade do Estado. Quando o Ministério da Educação publica um calendário de exames, fá-lo para que escolas, professores, alunos e famílias possam planear os meses seguintes. Se esse calendário deixa de ser fiável por erros da própria tutela, dificilmente se pode acusar de imprudente quem confiou nele. A confiança nas instituições não é um defeito; é um pressuposto do seu funcionamento.
Mais problemático ainda é que muitos dos constrangimentos agora verificados não eram imprevisíveis. O novo modelo de classificação eletrónica foi precedido, no ano passado, por um teste-piloto na disciplina de Filosofia. Nessa ocasião foram relatadas dificuldades técnicas, problemas de distribuição das provas e limitações da plataforma. Um projeto-piloto existe precisamente para identificar falhas antes da generalização do sistema. Se as dificuldades então detetadas não foram suficientemente corrigidas, a responsabilidade dificilmente pode ser atribuída aos utilizadores finais.
Ao longo das últimas semanas sucederam-se notícias sobre professores que não recebiam provas para classificar, atrasos na distribuição dos itens e dificuldades operacionais que acabaram por obrigar ao adiamento da publicação das classificações e da segunda fase dos exames. O próprio Ministério acabou por reconhecer que as dificuldades informáticas pressionavam o cumprimento do calendário inicialmente previsto, optando por alterá-lo para garantir tempo suficiente à correção das provas.
Naturalmente, qualquer processo desta dimensão pode conhecer imprevistos. A administração pública não é uma máquina perfeita. Mas existe uma diferença importante entre um acontecimento inevitável e um risco conhecido que não foi devidamente prevenido. Quando há um projeto-piloto, quando surgem alertas, quando os problemas são semelhantes aos anteriormente identificados, deixa de ser convincente apresentar tudo como uma fatalidade.
Também não ajuda procurar deslocar a atenção para o comportamento das famílias. Quem alterou unilateralmente as regras não foram os alunos nem os pais. Foram os responsáveis pela organização da avaliação externa.
É precisamente por isso que a palavra «imprudência» parece ter sido dirigida à pessoa errada. Imprudente não foi quem acreditou no calendário oficial. Imprudente foi quem avançou para uma mudança estrutural sem garantir que os problemas já identificados tinham sido resolvidos.
Os exames nacionais exigem rigor. Mas o mesmo rigor deve aplicar-se à forma como o Estado prepara as suas reformas e responde quando elas falham. Afinal, a credibilidade das instituições mede-se menos pela ausência de erros do que pela capacidade de os assumir e resolver dignamente.
* Natural da ilha de Santa Maria, estuda Filosofia no Porto. Membro da Comissão Coordenadora Regional dos Açores do Bloco de Esquerda.
IN "ESQUERDA" - 07/07/26 .

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