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Porque odeiam os pobres
No final do ano passado, os números da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo mostravam que a maioria recebia o rendimento social de inserção (RSI). A prestação, tantas vezes usada como arma de arremesso política e estigmatizada, mas que não é suficiente - talvez nunca tenha sido - para retirar da pobreza os que estão em diferentes situações de maior vulnerabilidade económica e social.
O RSI, tal como mais 12 prestações sociais, vai ser agregado, ao que tudo indica, a uma prestação social única (PSU). A proposta do Governo tem sido duramente criticada na opinião pública, com muitas organizações de solidariedade a afirmar que a obrigatoriedade de trabalho social para alguns beneficiários pode aumentar o estigma, perpetuar estereótipos e gerar situações de "aporofobia", a aversão, o desprezo e até o medo de pessoas em situação de pobreza.
O desenho original da PSU exige um debate sério, pois corre o sério risco de ter como base a ideia bafienta e injusta de que o decurso da nossa vida depende inteiramente de nós. Se somos pobres e infelizes, a culpa é nossa. Temos livre arbítrio, tomamos decisões e devemos ser responsáveis por elas, é verdade. Contudo, grande parte do que somos resulta do nosso ambiente, da família onde nascemos, do país e da casa onde vivemos, da saúde que temos... Em resumo, de inúmeras e desafiantes circunstâncias. Achar que tudo se resolve apenas com força de vontade e boas escolhas individuais é não perceber nada do aqui andamos a fazer.
* Jornalista
IN "JORNAL DE NOTÍCIAS" - 16/06/26.

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