17/06/2026

RITA NEVES COSTA

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Porque odeiam os pobres

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Basta percorrer as mesmas ruas há vários anos para perceber como pode um país mudar tanto. Não é só o edificado que se altera, também a sociedade sofre os reveses do tempo. Há hoje mais gente sem teto em Portugal. Não é só a minha perceção (ou a vossa) que o diz, mas os números assim o confirmam. No final de 2024, havia mais de 14.400 pessoas em situação de sem-abrigo, um agravamento face às 13.128 pessoas que estavam numa realidade idêntica em 2023. Enquanto esteve em Belém, Marcelo Rebelo de Sousa bem quis erradicar o fenómeno, mas como me disse, em entrevista, a presidente da Cáritas, "o presidente da República é um homem só e não tem uma varinha de condão".

Na cidade onde moro e nasci, não era habitual ver cobertores, colchões e quartos improvisados à entrada de prédios desabitados. Hoje, infelizmente, eles ali estão, num cenário que conjuga a pobreza, o comércio tradicional e os passos ininterruptos de trabalhadores, turistas e peregrinos de Santiago de Compostela. Há cerca de dois anos, comecei a ver uma tenda a ganhar espaço debaixo de um viaduto, perto de uma estação de metro, pela qual passo quase todos os dias. Começou por ser uma tenda e agora parece que há uma outra, mais pequena, a funcionar como uma "segunda divisão".

No final do ano passado, os números da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo mostravam que a maioria recebia o rendimento social de inserção (RSI). A prestação, tantas vezes usada como arma de arremesso política e estigmatizada, mas que não é suficiente - talvez nunca tenha sido - para retirar da pobreza os que estão em diferentes situações de maior vulnerabilidade económica e social.

O RSI, tal como mais 12 prestações sociais, vai ser agregado, ao que tudo indica, a uma prestação social única (PSU). A proposta do Governo tem sido duramente criticada na opinião pública, com muitas organizações de solidariedade a afirmar que a obrigatoriedade de trabalho social para alguns beneficiários pode aumentar o estigma, perpetuar estereótipos e gerar situações de "aporofobia", a aversão, o desprezo e até o medo de pessoas em situação de pobreza.

O desenho original da PSU exige um debate sério, pois corre o sério risco de ter como base a ideia bafienta e injusta de que o decurso da nossa vida depende inteiramente de nós. Se somos pobres e infelizes, a culpa é nossa. Temos livre arbítrio, tomamos decisões e devemos ser responsáveis por elas, é verdade. Contudo, grande parte do que somos resulta do nosso ambiente, da família onde nascemos, do país e da casa onde vivemos, da saúde que temos... Em resumo, de inúmeras e desafiantes circunstâncias. Achar que tudo se resolve apenas com força de vontade e boas escolhas individuais é não perceber nada do aqui andamos a fazer.

* Jornalista

IN "JORNAL DE NOTÍCIAS" - 16/06/26.

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