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A violência
O ser humano constrói, cria, (re)inventa, modela com inteligência, resiliência e vontade, sublimes obras de arte, tecnologia e feitos que ainda ontem integravam o mundo da ficção científica! Num pequeno salto de evolução do Homem, perante a dimensão do Universo, assistimos atónitos à construção das pirâmides e ao uso corrente e diário de uma panóplia de bens, artefactos e aparelhagens concebidos pela vontade consistente da Humanidade. Numa inquebrantável vontade de saber onde, além, se anicha o princípio do planeta, o Homem concebeu o telescópio Webs, espantoso perscrutador dos sons vindos do alvorecer da vida.
Porém, o ser humano não evoluiu assim nas relações humanas, familiares e afectivas. A exacerbação do poder e da ganância espalha a morte e o genocídio, um pouco por todo o Mundo. As guerras que se multiplicam como um vírus estranhamente tóxico matam segundo o desígnio do mais forte, do mais cínico, do mais desumano. O drama que partilhamos esta semana através da comunicação social, daquelas duas crianças de tenra idade, abandonadas pela mãe e companheiro, repugna-nos pela frieza, ausência de sentimentos, pela falta absoluta de compaixão e de afectos. Esta mulher carece de dignidade humana, foi corroída, porventura, por transtornos de personalidade que, todavia, não lhe afectarão o sentido da responsabilidade criminal.
Pesarosamente, tragédias semelhantes são mais frequentes do que a própria imaginação pode conceber. São múltiplos os casos de idosos maltratados e vilipendiados, expostos aos maus-tratos dos cuidadores. São assustadores os números relativos a crianças sujeitas a uma solidão acompanhada por pais que lhes batem, as humilham e torturam. Quem não recorda aquela criança vítima de homicídio pelo próprio pai ou aquela outra menina, cujo corpo jamais se encontrou, vítima mortal da mãe e do padrasto. São já mais de 30 os femicídios ocorridos, entre janeiro e maio deste ano, sem escalpelizar as denúncias recebidas por violência doméstica, em que as vítimas são, na maioria esmagadora dos casos, a mulher e a criança.
De acordo com o Relatório Síntese da Actividade do MP de 2024, o fenómeno criminal da violência doméstica deu lugar à instauração de 25 701 inquéritos: por crimes sexuais contra menores foram abertos 2538 inquéritos; por crimes contra idosos, 2365 processos; contra pessoas com deficiência, crimes maioritariamente de cariz sexual, foram iniciados 422 inquéritos; por crimes de violência contra menores,1065. Na soma de todos estes assustadores números criminais, de abuso e violência física e/ou psicológica contra os seres mais vulneráveis, pode concluir-se que o seu todo está muito próximo do ilícito criminal mais denunciado no país, a cibercriminalidade. Esta realidade deve, tem de funcionar como um alerta para toda a comunidade, responsável e solidária, de modo a encontrar soluções que invertam a crescente crueldade, violência e perversão no seio das relações humanas.
* Ex-directora da DCIAP
IN "JORNAL DE NOTÍCIAS" - 31/05/25 .

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