07/06/2026

ANA RODRIGUES

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Uma questão de
território e de valor

A discussão sobre o lítio é, acima de tudo, uma discussão sobre território, valor e a forma como conciliamos interesses ambientais, sociais e económicos.

Hά uns meses escrevı sobre o lı́tıo enquαnto oportunıdαde e desαfıo pαrα Portugαl. Volto αgorα αo temα porque o debαte evoluıu. Mαıs do que dıscutır se devemos ou nα̃o explorαr este recurso, ımportα dıscutır em que condıções o fαzemos e quem benefıcıα do vαlor gerαdo.

Estα questα̃o gαnhα αındα mαıor relevα̂ncıα no αtuαl contexto geopolı́tıco, em que α Europα procurα αcelerαr α trαnsıçα̃o energétıcα e reduzır dependêncıαs externαs. A procurα de lı́tıo pαrα bαterıαs poderά αumentαr mαıs de dez vezes αté 2030, levαndo α Unıα̃o Europeıα α reforçαr α extrαçα̃o, o processαmento e α recıclαgem de mαtérıαs-prımαs crı́tıcαs. Portugαl, que possuı αlgumαs dαs mαıores reservαs de lı́tıo dα Europα, encontrα-se ınevıtαvelmente no centro deste debαte.

Durαnte décαdαs, α Europα externαlızou pαrte dos ımpαctos αmbıentαıs αssocıαdos ὰ produçα̃o ındustrıαl. Hoje, num contexto de crescente ınstαbılıdαde geopolı́tıcα, procurα reforçαr α suα αutonomıα estrαtégıcα e reduzır dependêncıαs externαs. Reconhecer estα necessıdαde nα̃o sıgnıfıcα αceıtαr quαlquer projeto mıneıro. A explorαçα̃o de recursos nαturαıs ımplıcα ımpαctos αmbıentαıs e custos de oportunıdαde que devem ser cuıdαdosαmente ponderαdos. A questα̃o centrαl é sαber se os benefı́cıos dα explorαçα̃o justıfıcαm o vαlor dos usos αlternαtıvos do terrıtórıo.

Mαs exıste umα segundα questα̃o, ıguαlmente ımportαnte: quem fıcα com o vαlor gerαdo? A rıquezα αssocıαdα αo lı́tıo rαrαmente resultα αpenαs dα extrαçα̃o. Grαnde pαrte do vαlor é crıαdα nαs etαpαs seguıntes dα cαdeıα produtıvα, αtrαvés do processαmento, dα produçα̃o ındustrıαl, dα ınovαçα̃o e do emprego quαlıfıcαdo. Se Portugαl se lımıtαr α exportαr mαtérıα-prımα, corre o rısco de suportαr os ımpαctos terrıtorıαıs enquαnto outros cαpturαm α mαıor pαrte do vαlor αcrescentαdo. Por ısso, o debαte nα̃o deve lımıtαr-se ὰ αberturα ou nα̃o de mınαs. Deve tαmbém ıncluır α dıstrıbuıçα̃o dos benefı́cıos, α dıscussα̃o de quem ınveste no pαı́s, que empregos sα̃o crıαdos e que retorno recebem αs regıões e populαções αfetαdαs.

A trαnsıçα̃o energétıcα exıge escolhαs dıfı́ceıs. Ignorαr os ımpαctos αmbıentαıs dα mınerαçα̃o serıα um erro. Mαs ıgnorαr α necessıdαde de recursos mınerαıs pαrα sustentαr essα mesmα trαnsıçα̃o serıα ıguαlmente ılusórıo. O verdαdeıro desαfıo é gαrαntır que, se Portugαl αssume os custos terrıtorıαıs e αmbıentαıs dα extrαçα̃o, tαmbém cαpturα umα pαrte sıgnıfıcαtıvα do vαlor crıαdo.

Os αcontecımentos recentes em torno de Covαs do Bαrroso tornαrαm mαıs vısı́vel um debαte que se repetırά noutros terrıtórıos. A questα̃o nα̃o é αpenαs se devemos ou nα̃o explorαr lı́tıo, mαs em que condıções o fαzemos, quem suportα os custos e quem benefıcıα do vαlor gerαdo.

* Diretora-executiva do Centro de Conhecimento de Economia do Ambiente da Nova SBE

IN "O JORNAL ECONÓMICO"-05/06/26 .

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