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Meu caro
Alexandre Quintas
“Era capaz de adoptar os dois meninos.”
Esta sua frase fez-me querer abraçá-lo. Não a vejo como sentimentalismo de algibeira; vejo-a como o mais antigo dos instintos: proteger. Há homens e mulheres que passam a vida inteira sem alguma vez pronunciar uma frase tão humana.
Coloquei aqui a sua imagem porque quero que a bondade seja conhecida. Acredito que só as boas pessoas deviam ser famosas. Muitos pensam que os maiores heróis do mundo usam capa e máscara. Quero que saibam que não; quero que saibam que é assim que são os que fazem a diferença: pessoas como nós, ou como nós deveríamos ser.
Juro que tento, juro.
Agradeço-lhe. Na salvação das duas crianças, salvou mais do que isso. Salvou uma espécie de construção da humanidade; ajudou a reconstruir aquilo que vemos como super-poder. Não é coisa pouca, acredite.
Estamos todos cansados, Alexandre.
Estamos todos perdidos vezes demais. Grande parte de nós não sabe muito bem para que serve. Estamos afogados no individual, no prazer privado, na gestão eficiente do próprio sofrimento, não sabemos olhar uns para os outros. Há tantos adultos isolados, emocionalmente esgotados, incapazes de carregar seja quem for além de si próprios, derrotados.
O senhor mudou isso, acredite.
Numa estrada portuguesa, um homem comum interrompeu o movimento normal do dia para cuidar de duas crianças desconhecidas. A humanidade salva-se assim, sempre assim: quando pessoas concretas decidem que o sofrimento do outro lhes pertence temporariamente. Acho que a ideia básica de civilização é essa: a vontade de oferecer abrigo.
* Escritor premiado português
22/05/26.

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